ESPAÇO ABERTO
A autoridade na escola moderna
Mônica Sydow Hummel
Em todas as paisagens humanas deste país e suas respectivas escolas, estão em pauta o debate e as dúvidas sobre a autoridade do professor, da escola e dos pais. Afinal, como exercer tal autoridade? Por longos períodos e até hoje, o senso comum associa a autoridade aos cargos, fardas, posição social e econômica, disposição física, etc. E quem os tem pensa estar investido e vestido dessa autoridade, como um fato consumado. Esse tipo de autoridade assemelha-se a um figurino, que se escolhe e in-veste para assumir então as responsabilidades e possibilidades. E em culturas latinas, a autoridade é ainda um meio de desfrutar privilégios.
Nas escolas e com os professores não é diferente. O título e a titulação, bem como os cargos hierárquicos, oferecem a ilusão de autoridade consumada. No entanto, a realidade de indisciplina nas escolas nos últimos dez anos vem consumindo os professores que não produziram qualidade na educação. São alvos de agressões, humilhações e violência. E muitos aceitam trocar sua autoridade pela chamada vitimização e vestem-se de vítimas. Resultado: todos perdem.
Tudo se confunde; os papéis de vítima mudam de mãos, assim como o exercício da autoridade. Esta se perdeu ou se fragilizou? Será que assumir-se como vítima não é uma forma de aceitar a indiferença como única alternativa? O grande equívoco está em como entender e exercer a autoridade neste mundo moderno, no qual professores e escolas têm ainda papel vital no desenvolvimento.
O que dá poder, influência e capacidade de realização a um professor é o reconhecimento que tem do outro; o outro aluno, pais e também seus pares. Ou seja, a minha autoridade está no reconhecimento do outro de minhas possibilidades. Então, não basta ter um cargo, um holerite (gordo ou magro), ou alçar-se ao tablado. Em tempos de comunicação, há que persuadir, influenciar e convencer os alunos de que você é digno de confiança para ensinar, aprender, interagir e, o mais importante, conviver com eles.
Por isso, o exercício da autoridade requer, daquele que se investe dela, conhecimento e atenção constantes. É trabalhar com os olhos e a vocação voltados para o olhar dos alunos, para sua realidade pedagógica e não para conteúdos, para sua larga experiência de professor, para seu cargo, etc. Exercer autoridade se escondendo atrás das notas, da presença, da punição, enfim, do medo que pode provocar para ter controle é um sintoma de ausência dessa mesma autoridade. A questão não tem solução fácil e rápida. Passa por planejamento de longo prazo, organização e disciplina do corpo docente, ou seja, da escola. Hoje o quadro é grave porque no passado as propostas se resumiam ou em todos se vestirem de branco pela paz ou em iniciativas isoladas, quixotescas. Autoridade e escola são duas faces da mesma moeda. Há que se iniciar um processo de resgate do sentido e do exercício da autoridade com formação, conscientização do coletivo docente e um bom planejamento. Deve-se lembrar sempre que a experiência de disciplina que se deseja para as crianças e jovens se conquista com a vivência da disciplina daqueles que os educam.
MÔNICA SYDOW HUMMEL é educadora em Santos e autora de Testemunhos de mim: professora
Estatísticas, violência e educação
Altair Aparecido Galvão
Conforme a última pesquisa do Instituto Datafolha, a avaliação do governo federal piorou em relação ao ano passado. Sua taxa de aprovação (ótimo e bom), que às vésperas de a reeleição de Lula chegou aos 53%, hoje caiu para 48%. Conforme análise desse instituto, a queda da aprovação do governo deveu-se, principalmente, pelo aumento da violência e o conseqüente sentimento de falta de segurança da população. Esse sentimento de insegurança é mais acentuado em grandes regiões metropolitanas e nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, onde, não por coincidência, estão localizadas as piores taxas de aprovação do governo federal.
A pesquisa também apontou que, de forma espontânea, 31% dos entrevistados consideraram a violência como o principal problema brasileiro da atualidade. Com efeito, a violência tornou-se a tônica do nosso dia-a-dia. A sensação de insegurança nunca foi tão acentuada como agora: as pessoas diversificam seus itinerários, evitam sair à noite, blindam seus carros e mudam para condomínios fechados com muros altos, que se assemelham a presídios. É importante ressaltar, que a esta violência urbana, se juntam tantas outras, como: contra a mulher, os idosos, as crianças, os negros, os homossexuais, etc.
A mídia incita a opinião pública a se indignar sempre que acontece um crime hediondo, em especial quando esse crime é cometido por menores infratores pobres e sem defesa, como no trágico caso do menino João Hélio. Poucas entidades e pessoas, porém, se indignam e se movimentam quando o acontecimento coloca em posições sociais trocadas vítima e transgressor. Em julho de 2005, o estudante Gaby Boulos, de 28 anos, morador do nobre bairro do Morumbi, violentou uma menina de 12 anos, que foi levada por ele quando jogava malabares com um amigo de 13 anos em um sinal da Vila Sônia. Boulos foi condenado a dez anos de prisão, mas após ficar apenas uma semana preso, ganhou direito de apelar em liberdade. Não precisa ser um estudioso do assunto para concluir que a violência, em especial a praticada pelos jovens, pode ser amenizada e até extirpada por meio de uma atenção especial às nossas crianças. O Estado tem a obrigação de disponibilizar saúde, educação, moradia, trabalho e lazer a todos para evitar que as crianças não tenham como único caminho a marginalidade. Uma boa sinalização apareceu no campo da educação, com o lançamento do PED (Plano de Desenvolvimento da Educação), que visa melhorar a qualidade do ensino básico. A inclusão da criança de seis anos no ensino fundamental também deve ajudar. O bom dessas atitudes é que nossos dirigentes estão se conscientizando de que temos de começar a mudança do povo pela educação. Antes tarde do que nunca.
ALTAIR APARECIDO GALVÃO é matemático, cientista social e mestre em Geografia Humana pela Universidade Estadual de Maringá
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