ESPAÇO ABERTO
A hipocrisia dos salários do Executivo
Maria Elisa Ferraz Paciornik
Periodicamente, volta à tona a questão dos salários dos dirigentes do Poder Executivo no Brasil. E surge aquele misto de indignação e surpresa por parte de todos. Acho que esta é uma reação, sobretudo preconceituosa, explico por que. Basta uma simples consulta a uma tabela de salários de dirigentes de empresas de pequeno e médio portes para ver que os dirigentes do Executivo ganham muito menos. Convenhamos, governar uma cidade como São Paulo e ganhar menos de R$ 10 mil é, no mínimo, ridículo. Ganhar para dirigir uma cidade grande quase R$ 20 mil é razoável.
Há dois fatos que me levaram a esta crítica. Na realidade, muitos governantes não realizam seu trabalho visando o bem público. Alguns simplesmente não trabalham, usufruem, passeiam de avião, participam de banquetes. Outros agem em seu interesse próprio ou no interesse de seu partido. Parece que não têm consciência que estão sendo pagos pelo povo, não para obter benefícios particulares, nem para arranjar a vida de seus familiares, mas para cuidar da ''coisa pública''.
Tantas vezes isto ocorreu em nosso país que hoje vige uma idéia extremamente hipócrita, predominante, que o governante (e aqui falo somente do Poder Executivo) deve ganhar pouco. Parece imoral ter um salário decente. Imoral, no meu entender, é passear de avião para baixo e para cima, como se estivesse em permanentes férias; imoral é destruir ou não dar continuidade a obras e programas já começados com o dinheiro do povo; é colocar família e amigos em qualquer cargo de governo, como se este fosse sua empresa particular.
As diferença é que, em uma empresa particular, se você não vai bem, é imediatamente despedido; ou se faz de sua empresa um penduricalho de empregos para familiares, vai à falência e o prejuízo também é só da família.
No caso do governo, seja em qual esfera for, perdemos todos: não podemos ''despedir'' o diretor e até acontecerem novas eleições muita coisa já ficou esquecida e, muitas vezes, elegemos de novo a mesma figura que tantos prejuízos já trouxe ao país. Pagamos caro pela nossa omissão.
MARIA ELISA FERRAZ PACIORNIK é ex-secretária de Administração do Estado do Paraná, advogada e escritora em Curitiba
Será o tempo de vacas magras?
Rafael Lopes Antunes
A Bovespa, maior Bolsa de Valores da América Latina, completou em 2006 o quarto ano de altas consecutivas. Neste período os preços das ações componentes do Ibovespa (Índice da Bolsa de Valores de São Paulo que representa a variação média diária dos valores das negociações, na Bovespa, de uma carteira de ações de cerca de 100 empresas selecionadas) cresceram a uma taxa média de 26% ao ano.
No último dia 27, o boato de que o governo chinês taxaria os ganhos da bolsa de Xangai fez com que os lucros acumulados dos investidores ao redor do mundo evaporassem, perda que segundo analistas alcançou 2,5 trilhões de dólares, conduzindo a uma queda de 6,63% do Ibovespa em um único dia, recorde desde os ataques de Setembro de 2001. A situação se complicou com as declarações de Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve (Banco Central Americano) que ocupou o cargo por quase 20 anos, alertando sobre a possibilidade da temida recessão americana.
Embora as condições internas sejam favoráveis, risco-país em baixa, associado à melhoria das contas externas, queda contínua dos juros (12,75% a.a), que reduz o retorno da renda fixa e estimula aplicações de maiores riscos, inflação sob controle, perspectivas de queda dos juros americanos (correlação negativa com o Ibovespa) e ''crescimento econômico'' ainda que não significativo (2,9% em 2006), esta mesma segurança não pode ser vislumbrada no cenário externo, um espirro na China (queda de 9%) colocou na corda bamba os mercados do mundo todo.
Em contribuição ao mar de volatilidade do cenário externo, a China, sinônimo de admiração pelas altas taxas de crescimento, e pela velocidade de conversão ao capitalismo, responsável por nada menos que 30% do crescimento mundial, preocupada com a sustentabilidade destas transformações, anunciou que a meta do governo é desacelerar o crescimento do país dos 10,76% (2006) para 8% até o final de 2007.
Entretanto, a atenção dos economistas e analistas financeiros está voltada para a economia norte-americana, que representa algo em torno de 30% do PIB mundial. A grande preocupação deve ser quanto à desaceleração do mercado imobiliário, que afeta diretamente o setor da construção civil, o endividamento crônico do país (leia-se bolha de crédito), que tem por comum a cultura do consumo exacerbado, e as suspeitas de que as empresas estejam sobrevalorizadas em Wall Street.
O risco nas bolsas é algo iminente, ainda que em certos momentos esteja oculto pelas condições macroeconômicas. É indiscutível ignorar a inter-relação entre os mercados mundiais, principalmente quanto ao impacto das transformações nas economias emergentes. As perspectivas mais otimistas apontam para os 56.000 pontos ao final de 2007, prefiro apostar em ganhos mais modestos, mas que continuarão a ser ganhos expressivamente superiores aos juros internos. Vale a pena conferir.
RAFAEL LOPES ANTUNES é graduando do 5º ano de Economia na Universidade Estadual de Londrina





