ESPAÇO ABERTO
Impacto da violência no mercado imobiliário
Raul Fulgêncio
Temos assistido passivamente nos últimos anos um cenário de assaltos, seqüestros, assassinatos e crimes ao património público e privado que nos coloca no mesmo patamar de violência em que vivem as grandes cidades do país.
O medo passou a influenciar projetos arquitetônicos. Mudamos nossa maneira de morar e viver. Os edifícios, os condomínios e loteamentos fechados com suas guaritas e muros altos, muitos deles parecendo verdadeiros campos de concentração, têm sido a resposta momentânea para a violência.
Não podemos continuar a usar as nossas ruas somente como pontes que nos levam de ilha a ilha, vendo o nosso patrimônio ser desvalorizado.
Tenho saudades de nossos bairros livres e bonitos que um dia foram sinal de um bom investimento imobiliário e qualidade de vida para as nossas famílias.
Em um país onde se pratica obscena carga tributária, juros escorchantes, com mensaleiros e sanguessugas impunes, vemos também nosso patrimônio fruto de muito trabalho ser dilapidado pela falta de segurança.
Atuo no mercado imobiliário de Londrina há 35 anos e me sinto na obrigação de alertar e convocar as pessoas que, como eu, vivem e amam essa cidade, e que através de muito trabalho fizeram de Londrina a grande cidade que é, a assumirmos mais esse desafio de resgatar a segurança, o caráter e a história de uma sociedade contemporânea que materializa sonhos, que é berço de desenvolvimento tecnológico, social, cultural, universitário e artístico há décadas, onde existia orgulho aos espaços públicos, a nos unirmos na solução. Apenas cobrar de nossas insensíveis e indiferentes autoridades já não basta, não resolve.
É inaceitável continuarmos a conviver com a desvalorização imobiliária gerada pela falta de segurança que, em determinadas situações, chega a 40%. Um prejuízo incalculável para nossos cidadãos.
Chegamos ao absurdo de haver vítimas que ocultam ocorrências assalto, roubo, furto e arrombamento em residências, escritórios, empresas temendo a desvalorização dos seus imóveis.
RAUL FULGÊNCIO é imobiliarista em Londrina
O jogo de soma zero
Gaudêncio Torquato
A Legislatura começa com transpiração. A oposição na Câmara deseja transformar a vida do governo num inferno e instalar, ali, o ambiente de delegacia de polícia do ano passado. A infernização, dizem opositores, constitui um escudo de defesa da democracia. O argumento é um sofisma. Entre as virtudes do sistema democrático, se relaciona a que confere ao Poder Legislativo a possibilidade de fiscalizar os atos do Poder Executivo. Mas a democracia não implica apenas relação conflituosa entre contrários. A dialética do jogo democrático pressupõe, também, a cooperação, que se alcança pela via da persuasão e das instâncias para prevenir conflitos. Estes são até necessários para gerar a diferenciação política no campo ideológico, mas devem guiar-se pela régua da moderação, evitando ultrapassar os limites da medição de forças. Quando não existe propensão para o diálogo, a alternativa é o caos. Se não temos a sólida base das democracias clássicas, como as européias, mais razão há para a criação de espaços capazes de desobstruir as tensões do jogo político.
Veja-se a conta negativa debitada à oposição em função da agenda negativa dos últimos dias: bloqueio do projeto que dobra de 360 para 720 dias o período de reclusão no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), de segurança máxima, dos presos envolvidos com organização criminosa dentro da cadeia; bloqueio do projeto que amplia o benefício da delação premiada para criminosos já condenados; e bloqueio da emenda constitucional que extingue o voto secreto congressual em plenário. Tais projetos vão ao encontro dos anseios sociais. Logo, os representantes oposicionistas, ao obstruírem as votações, atiram contra os representados. De que adianta promover a confrontação violenta quando projetos de defesa social sugerem cooperação? No entanto, os parlamentares preferem se engalfinhar numa disputa do poder pelo poder, no fluxo da fulanização da política, praga que corrói o corpo doutrinário e estiola a vida partidária. Num lado, beltranos do fisiologismo imploram as migalhas do banquete governamental para fazer a defesa da corte; noutro, sicranos do oportunismo levantam a voz para atacar os cortesãos e, claro, conferir contraste aos perfis.
Esse modo de fazer política, ancorado na meta da rivalidade permanente, apelidado de estilo chimpanzé pelo sociólogo chileno Carlos Matus, ex-ministro de Salvador Allende, mostra que ainda habitamos a selva. Há símios por todos os lados lutando para dominar a manada. Não bastasse este 0 a 0, densa agenda espera receber, há tempos (e haja tempo!), a atenção parlamentar. O povo exige uma pauta que integre suas prementes demandas. A sociedade está desprotegida. O sistema educacional é obsoleto. A saúde vai mal. A tão proclamada reforma política cai de madura. O País não dará um passo adiante caso os padrões políticos continuem favorecendo a barbárie. Não dá mais para conviver com partidos-ônibus, por onde entram e saem figuras a toda hora, ou siglas de araque, bens à venda no balcão eleitoral. Não dá mais para votar em candidato Copa do Mundo, que só se lembra do eleitor de quatro em quatro anos. A lengalenga da reforma tributária já saturou. O País precisa deixar de patinar no mesmo lugar.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da USP e consultor político em São Paulo
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