ESPAÇO ABERTO
Povo de Deus e a Conferência em Aparecida
Dom Orlando Brandes
Os leigos, as lideranças das comunidades responderam a um questionário sobre a V Conferência. A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) fez uma síntese das contribuições que agora vamos comentar. Antes de tudo, apontou-se uma série de problemas que a Conferência deve enfrentar como: o contraste entre ricos e pobres, o individualismo moderno, a violência, o consumismo, a desagregação da família, o poder da mídia, a corrupção política, as seitas, a globalização, cultura da morte, entre outros.
Quanto à vida interna da Igreja, as questões mais difíceis são: a vida do clero, a perda dos fiéis, a confusão na liturgia, a diminuição das vocações, a onda de conservadorismo e falta de profetismo, o conflito entre lideranças, movimentos eclesiais e as Comunidades Eclesiais de Bases (CEBs), lideranças sobrecarregadas. Pelo que vemos, nossos fiéis apontaram problemas-chaves da realidade hoje.
Por outro lado, nossos fiéis apresentam sugestões para a solução dos problemas. Pediram que a Igreja seja fiel ao Concílio Vaticano II, que reafirme a opção pelos pobres, que confirme os Grupos de Reflexão e as CEBs, que defenda a dignidade humana através das pastorais sociais, do profetismo. Grande enfoque foi dado à Bíblia, à Palavra de Deus, à catequese como também à formação de leigos, lideranças, seminaristas e padres. Pede-se muito a atenção dos bispos em relação aos padres, priorizando a vocação à santidade. A Igreja deve abrir seus braços, seu coração, seu espaço aos jovens.
Que desafios têm a Igreja na América Latina e no Brasil? Nossos fiéis focalizaram os seguintes: leitura orante da Bíblia e formação bíblica, espiritualidade e santidade de vida, maior atenção a três pastorais: família, comunicação, migrações. A Igreja deve repensar o ministério ordenado, a vida religiosa, a proliferação de movimentos e novas comunidades de vida. Para combater o individualismo, precisamos dos Grupos de Reflexão, de liturgias vivas, de intenso diálogo com o mundo, as culturas e as religiões. A Igreja é indispensável porque é voz e vez dos pobres, excluídos. Ela deve ser o lugar e exemplo da solidariedade, casa e escola de comunhão.
Vemos assim, a preciosa contribuição dos fiéis para a V Conferência. Cabe-nos rezar muito por este acontecimento para que seja um novo Pentecostes no limiar do novo milênio para a América Latina e para toda a Igreja. Certamente a V Conferência irá fomentar a esperança, encorajar a missão, oferecer pistas concretas para um efetivo discipulado e seguimento de Jesus. A Bíblia, a missão e a solidariedade são os fundamentos que haverão de sustentar e renovar o catolicismo e reapaixonar os católicos por Jesus, pelo Reino e pela Igreja na América Latina.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Uma espécie de adultério
Gerson Araújo
Muitos homens fazem do seu trabalho uma segunda família, e se orgulham disso.
Muitas são as razões: não perder o lugar para alguém em ascensão; para agradar a chefia; para suprir suas deficiências em outros setores; ou mesmo para não deixar a peteca cair é que muitos se dedicam, de corpo alma, ao seu serviço.
O mais interessante é que, em função do lema o trabalho honra e dignifica o homem, todos tem uma boa desculpa para se embrenhar, cada dia mais, num labor estafante, em detrimento de tudo e de todos, principalmente de sua família.
Como é bom ver um homem que trabalha. Chocam-nos os que não gostam de trabalhar (e existem muitos). É confortante saber que todas as construções da vida se fazem com muita luta. No entanto, muitos (se não a grande maioria) se esquecem que a vida é um todo, composta de muitas facetas e, que o trabalho é apenas uma delas e que outras, também importantes, merecem tanta consideração quanto.
E nós temos visto, em função dos conflitos demonstrados todos os dias, que, por causa do excesso de trabalho a família (esposa e filhos) tem sido relegada a segundo plano. E o pior de tudo é que o mau humor, a rispidez, a ausência prolongada, a falta de diálogo e todos os problemas causados por esta preocupação com o ganho são dourados pela desculpa de que tudo faço por amor a vocês , vocês são a causa do meu desgaste (e outras mais) levando ainda a família a uma profunda dor de consciência por estar exigindo que o pai e marido tenha um pouco mais de paciência, fique um pouco amais em casa, leve os filhos para tomar sorvete ou assistir um filme, ou ofereça à esposa, além dos carinhos habituais e apressados antes de uma relação sexual obrigatória, alguma atenção que demonstra que ela ainda é amada um pouco mais do que a profissão.
Cremos ser isto uma espécie diferenciada de adultério.
O que todos vamos descobrir depois de muitas dificuldades é que a morte ou a doença provam que o indivíduo é perfeitamente dispensável em qualquer empresa e que, no entanto, sua posição no lar é única. A esposa não tem outro marido e os filhos não tem outro pai. Portanto, eles é que realmente são importantes.
Depois de algum tempo, quando a infelicidade toma conta, ou os filhos começam a dar trabalho, o chefe da casa inicia, então, um processo de autocomiseração com aquelas frases chorosas: Onde será que errei?, Eu dei tudo o que eles precisavam, etc.
O que se constata é que, nesta hora a grande verdade é que o homem foi um grande empresário, um grande homem de negócios ou mesmo um exemplar empregado, mas foi um péssimo pai e marido.
GERSON ARAÚJO é capelão do Hospital Evangélico e pastor da 3ªIgreja Presbiteriana Independente de Londrina
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