ESPAÇO ABERTO
Uma verdade inconveniente
Nélio Roberto dos Reis
Um dos livros mais lidos da atualidade e um documentário cinematográfico de muito efeito sobre o aquecimento global, denominado Uma Verdade Inconveniente acabam de ganhar dois Oscars em Holywoody, por isso ganhando muito espaço na mídia. Escapando da maioria, a observação de que isto nada mais é do que uma bem feita e cara propaganda política do ex-presidente dos Estados Unidos Al Gore, que está dando a sua vida para ocupar o lugar de Bush. Tanto que está aumentando absurdamente o efeito do efeito estufa, que certamente ocorrerá daqui a centena de anos.
Vejo centenas de pessoas e até crianças pela TV assustadas com os dados do senhor Al Gore e seus amigos sobre o fim do mundo. Isto cheira a muita hipocrisia, porque muitas outras verdades inconvenientes estão acontecendo neste momento e se torna mais conveniente escondê-las e nos preocuparmos com as inconveniências do futuro não muito próximo, ou seja, 100 ou 200 anos. Ninguém, nem mesmo este candidato, parece se preocupar muito com as inconveniências de hoje.
Bombaim, a quinta maior metrópole do mundo, localizada na Índia, tem 1.500.000 pessoas morando na rua neste exato momento. (Isto é três vezes a população de Londrina). No Brasil, 1.100 crianças são internadas diariamente por problemas de saúde, causados por falta de saneamento básico, e 25% delas morrendo por isso. Neste exato momento, existem 60 mil brasileiros infectados com malária na Amazônia. O vírus Ebola ainda mata 90% dos infectados em 3 dias em países como o Sudão e Congo. Quarenta e duas pessoas morreram com cólera esta semana na Somália.
Em qualquer grande cidade do México, Brasil, Índia, Colômbia, Paraguai, Nigéria e inúmeros outros países miseráveis faltam UTIs ou simplesmente uma enfermaria limpa. Em Serra Leoa (África) crianças de 10 a 14 anos lutam em guerras sem propósitos, perdendo todos os direitos humanos crescem e morrem sem nenhuma dignidade. Em Cuba, somente 1% da população têm acesso à internet. Para a morte da cultura não existe antibiótico.
Na Itália ocorre a volta do uso da roda dos enjeitados, um equipamento redondo de madeira colocado em mosteiros e igrejas onde são depositados filhos rejeitados por emigrantes que vivem em mínimas condições humanas. Enquanto o Irã realiza exercícios com mísseis atômicos de longo alcance, Al Gore se preocupa com a sua reeleição, Bush em matar iraquianos por causa do petróleo, Lula com o ponto G da relação sexual do Brasil x USA, (ponto inexistente pela ciência), pessoas vão perecendo e os líderes se mostrando preocupados com problemas que podem ocorrer daqui a 100 anos.
No Brasil é bom saber que enquanto crianças morrem desnutridas no Nordeste, cada deputado federal tem direito a uma verba de 15 mil, somente para a gasolina. Alguém aqui já viu uma criança morrer por desnutrição? Aspectos morais como respeito, compromisso com a família é visto e considerado entre gorilas e chipanzés e nós, ditos humanos, a cada ligada de televisão assistimos que no carnaval ocorreu um crime a cada 3,20 segundos no Rio e 1 a cada 4 minutos em Salvador. E assim caminha a humanidade.
NELIO ROBERTO DOS REIS é doutor em Ciências pelo INPA e professor na Universidade Estadual de Londrina
Atores e valores
Wilmar Marçal
Episódio recente em Brasília reaquece a necessidade de uma revisão nos critérios de indicações de servidores e de políticos aos cargos públicos. Desnecessário justificar que as indicações deveriam ser municiadas por um levantamento profundo da vida pregressa do indicado, anexando documentos com fé pública, de caráter cívico e preventivo, como certidões negativas de protestos de títulos, de problemas com o fisco, entre tantos outros que a justiça tem em seus arquivos e controles.
Este pré-requisito deveria ser obrigatório na ocupação de funções públicas, em todos os escalões e em todas as esferas, sejam municipais, estaduais e federais. Se nos obrigam a prestar declaração de rendas anualmente, pagar nossos impostos e taxas públicas regularmente, por que o próprio Estado não exige comprovações da idoneidade dos indicados aos cargos públicos?
No episódio em questão, mais uma vez, a mídia exerceu monitoramento ímpar, trazendo ao conhecimento público algumas agruras do passado, que muitas vezes se tornam cicatrizes indeléveis nas condutas e no caráter das pessoas indicadas a tão importante munus público.
Em nosso país, por competência técnica, existem inúmeros profissionais que poderiam assumir qualquer Ministério. Honestidade como princípio, determinação como meta e desapego aos interesses de poucos ainda é peculiar a muitos cidadãos brasileiros, que não precisam estar vinculados a interesses partidários para ocuparem cadeiras tão imprescindíveis ao desenvolvimento do país.
Nos últimos anos a nação vivenciou intensos debates sobre ética e a atividade pública. Houve a queda de Collor de Mello e posteriormente os escândalos que tomaram conta do Congresso Nacional e culminaram em cassações de mandatos parlamentares. A vigilância e a informação foram e continuam sendo imprescindíveis para se evitar novas situações do gênero.
Quero ressaltar que os princípios básicos da probidade é que devem reger os órgãos e as administrações públicas. Caso contrário estaremos legitimando um Estado onde interessa apenas perpetuar alguns atores, excluindo os bons e verdadeiros valores.
WILMAR MARÇAL é reitor da Universidade Estadual de Londrina
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