ESPAÇO ABERTO
Nossa irmã, a água
Dom Orlando Brandes
A vida surge da água por obra do Criador. Dia 22 de março é o dia da água. O Espírito paira sobre as águas (Gn 1,2). A água é o sangue da mãe terra, mantém a vida. Quatro são os elementos principais: água, terra, ar, fogo. A água é o primeiro elemento da vida, 70% de toda a terra é água. Crescemos no útero materno dentro da água. O que é de todos, está sendo privatizado e comercializado, como também envenenado e poluído. Há os que dispersam água sem consciência da gravidade da questão. Plantas, animais, terra e as pessoas humanas vivemos da água. Ela tem um destino universal.
Que gritem os oceanos, o lençol freático, as nascentes, os rios, os lagos, os mangues, as cisternas, os poços, as chuvas, as barragens, as usinas, os açudes, as águas termais. Da água depende a energia, a navegação, a pesca, o turismo, a irrigação, a indústria, a medicina, a ecologia. Deus faz chover sobre justos e injustos (Mt 5,45). Precisamos transformar desertos em jardins. Não podemos continuar ferindo, muito menos matando nossa irmã a água. Que tenhamos sede de justiça em defesa da água.
Os que riem hoje explorando a água, farão outros derramarem lágrimas. As secas, os tornados, as geleiras, os dilúvios e o bramido do mar (Lc 21,25) são as lágrimas, os protestos e sinais dos tempos que apontam para uma catástrofe onde as águas serão mudadas em sangue (Ex 7,19). Já não se trata de uma praga do Egito, mas da praga do desenvolvimento desordenado que mata. A água é um bem público, um direito de todos.
Louvado sejas Senhor pela irmã água, útil e humilde, preciosa e casta, rezava São Francisco de Assis. Precisamos acentuar a castidade da água, sua pureza, sua limpeza, sua qualidade, para ser potável e sem contaminação. Da água impura promanam as doenças como cólera, febre, disenteria, hepatite, poliomielite, bócio, dengue, leptospirose, infecções, febre-amarela, etc. Castidade da água é saúde.
Ficamos assustados com a seca na Amazônia, a geleira na Europa, os tornados na América do Norte, o furor do mar na Ásia, os incêndios em Portugal, Grécia, Espanha, etc. Nada disso levou o governo americano a render-se ao tratado de Kyoto. Continuarão os grandes a matar. Todavia a natureza não perdoa nunca. Ou mudamos, ou perecemos. Como é triste um dia sem água em casa. Como é triste a política da água com interesses comerciais. Só 30% da água da terra é doce, mas é suficiente, e 66% vai para a agricultura. Haja briga a respeito de barragens, de usinas, de esgotos, de indústrias poluentes, de lixo nos rios e córregos urbanos, agrotóxicos, dejetos de animais jogados em rios, ecoturismo, desmatação, problemas da pesca. Se a terra fosse um corpo, a água seria sua alma. Um corpo sem alma é cadáver. Será o fim do mundo uma explosão de fogo? Será uma geleira mortífera? O que interessa é que ainda é tempo de mudar. Salvemos a água e seremos salvos.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Rede da Cidadania 2007
Luciano Bitencourt
Quando o prefeito Nedson Micheleti assumiu a administração municipal em 2001, a determinação foi clara: a Cultura em Londrina seria tratada como política pública. Passados quase sete anos, a cidade conta com uma política cultural considerada modelo pelo Ministério da Cultura e por consultores de renome nacional e internacional.
Atualmente, Londrina destina 3,5% do seu orçamento para área - isso sem contar obras de infra-estrutura cultural, como o Teatro Municipal. Para se ter uma idéia, o Sistema Nacional de Cultura, ainda embrionário, preconiza uma destinação orçamentária mínima de 1% para municípios. Londrina está na vanguarda.
Nossa política é fundada na Conferência, no Conselho de Cultura e no Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). Tem como prioridades a preservação do patrimônio histórico, o apoio a projetos baseados na diversidade cultural, que não encontram respaldo na iniciativa privada, e a descentralização do acesso aos bens culturais.
Esta prioridade ganha corpo na Rede Cidadania, um programa que resulta do esforço de produtores culturais e de muitas comunidades, sempre com o apoio do poder público. O chão da Rede é o exercício do direito à subjetividade, que pode ser traduzido como direito ao conhecimento do corpo, ao prazer, à expressão, à criação, à fruição da arte e da cultura. Seu horizonte é engendrar novas individualidades e integrar comunidades na vida cultural da polis - sem hierarquias, com espírito crítico e transformador.
Nestes sete anos, a Rede cumpriu seu papel: envolveu mais de 20 mil pessoas, revelou vocações, fomentou grupos de criação ou, simplesmente, resgatou auto-estimas. Em 2007, a Rede se supera mais uma vez. A iniciativa de todos os projetos que compõem o programa é dos agentes culturais ou da comunidade; as vagas para as oficinas de criação cultural ultrapassam o número de sete mil participantes, ofertadas em mais de 40 comunidades; e, novidade, a Rede apresenta para Londrina o projeto Vilas Culturais, espaços de produção e circulação cultural, que promovem a formação de público e a valorização do tecido urbano.
A Rede Cidadania pode ser descrita como uma ação cultural contemporânea que superou velhas dicotomias da área, tais como as que opõem arte versus cultura (em especial a popular), aprendizado versus criação, evento versus processo e estatização versus privatização. O mais importante, entretanto, e se caracterizar como uma iniciativa que pulsa na vida de milhares de pessoas.
LUCIANO BITENCOURT é secretário de Cultura de Londrina
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