Bush e o ponto G

Ariovaldo de Oliveira Santos
  Nos anos 90 tornou-se comum entre diversos representantes de expressão do pensamento acadêmico a afirmação de que não havia mais sentido falar de imperialismo, que se tratava de um conceito envelhecido. E, ainda, que aqueles que insistiam em usar o conceito eram verdadeiros dinossauros, incapazes de compreender o novo mundo globalizado que havia se formado.
  Entretanto, a vinda de Georg W. Bush ao Brasil revela como estavam equivocados aqueles que, com soberba, ocuparam a mídia para se afirmarem enquanto defensores do pensamento moderno. Afinal, do que se trata não é de segurança, e sim do velho espírito norte-americano de tratar as nações do mundo, e sobretudo as vizinhas, como seu quintal particular, dentro do velho espírito: ‘‘O que é bom para os norte-americanos, é bom para o Brasil’’.
  Os exemplos não faltaram na visita de três dias de Bush ao Brasil. Um forte esquema de segurança particular (o que não é de estranhar pois, é fato notório, o presidente norte-americano é odiado mundialmente pelas práticas bélicas que vem desenvolvendo desde que assumiu o governo). Mas, como se isto não bastasse, operacionalizou-se um verdadeiro aparato de 11 de setembro, indo desde a violação de direitos básicos de ir e vir, até o controle sobre o comportamento dos jornalistas, passando pela desconfiança quanto à água brasileira, muito embora os norte-americanos não tenham nenhuma vergonha de explorar nossos mananciais e recursos minerais a fim de realizarem seus negócios que, em geral, como nos filmes de Indiana Jones, deixam para trás apenas a sucata do que foi consumido.
  Nesse sentido, mas com compreensão diferente, é louvável o reconhecimento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a respeito do ponto G. Efetivamente, ele existe e poderia até mesmo ser chamado de ponto George, ou seja, é necessário encontrar o ponto onde o presidente norte-americano venha ao país como cidadão comum, como estadista e não como senhor da guerra, querendo impor acordos sobre as pesquisas em torno de alternativas enérgicas em troca de canoas da saúde e agindo como se o 11 de setembro tivesse ocorrido aqui e não em Nova York.
ARIOVALDO DE OLIVEIRA SANTOS é professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina


Em defesa da criança e do adolescente

José Turozi
  Temos presenciado inúmeras manifestações de indignação pelo assassinato do garoto João Hélio no Rio de Janeiro. O mínimo que se espera da sociedade é solidarizar-se com sua família, diante de tamanha barbárie. Entretanto, daqui alguns meses o pequeno João Hélio só será lembrado no dia que completar um ano do seu assassinato. Daí em diante será uma vaga lembrança para a sociedade, mais um número. Os congressistas estudam a redução penal sem nenhuma discussão com a sociedade. O que precisa ser feito é aplicar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) criado pela Lei 8.069 de 1990. O ECA impõe direitos e deveres para o governo, a sociedade, a família, a criança e o adolescente.
  Ora, se existem leis de proteção e amparo, por que acontecem tantas distorções sociais? Dados do Unicef (2006) trazem números alarmantes sobre a desigualdade social e a falta de compromisso com as crianças e adolescentes. A mortalidade infantil, agressões, estupros, desnutrição respondem por um quarto dos óbitos de crianças de 1 a 6 anos de idade. A fome atinge crianças das tribos Guaranis, Kaiowás e Xavantes, onde ocorreram 21 mortes por desnutrição. O relatório ‘‘Children on the brink’’, de 2002, contabiliza 127 mil meninos e meninas órfãs de um ou ambos os pais. E assim como João Hélio, milhares de outras crianças estão correndo riscos diariamente serem alvos da violência, fome e do desamparo.
  Qual é o futuro para as nossas crianças e adolescentes? São réus ou vítimas da violência? A mídia transforma crianças e adolescentes em monstros assassinos. São eles réus ou vítimas do nosso modelo de sociedade? Uma criança de 9 anos, munida de uma faca, agride e desfecha 20 ou mais facadas em outra criança menor, seguindo o exemplo visto em um filme exibido pela TV, ‘‘Brinquedo Assassino’’, esta criança é ré ou vitima da sociedade que vivemos?
  A mídia divulga e exibe fatos de uma criança como um assassino em potencial, mas a verdade é que é uma grande vítima da nossa sociedade. Ao mesmo tempo que prega paz, moral, religião e Deus, a mídia enche nossas casas de violência, guerra, sexo, imoralidades, hipocrisia e também evoca o diabo quando exibe um filme como ‘‘Brinquedo Assassino’’. Ao mesmo tempo em que afaga, a mídia ensina a matar.
  O problema da violência não está na criança ou adolescente, é com os adultos. O futuro se faz investindo em programas de atendimento à criança ao adolescente e à família, pois fortalecendo esta teremos crianças fortalecidas. Além de fiscalizar, os congressistas têm o dever de prover recursos suficientes para as políticas de proteção à criança. Sem isso, nenhum planejamento terá efeito concreto. Cabe aos governos federal, estaduais e municipais priorizar verbas orçamentárias, conforme estabelece a nossa Carta Magna e o ECA, sem contingenciamentos à área social. Finalmente, cabe à sociedade organizada ajudar na fiscalização, cobrança das medidas necessárias, isto é: cumprir a lei.
JOSÉ TUROZI é economista, membro do Conselho da Criança de Campo Mourão e presidente da Federação das Apaes do Paraná

- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup