ESPAÇO ABERTO
Os fios da trama
Gaudêncio Torquato
Um empresário que esteve com Lula garante que ele se encanta quando se fala em terceiro mandato. Noutros espaços, mais dicas. O presidente aguarda alinhamentos dos partidos para fechar a reforma ministerial. Para compor os ajustes fomenta a engorda de siglas e marca reunião com os presidentes do Senado e da Câmara para propor a agenda parlamentar (uma vergonha). Outra informação é que o projeto de reforma política da OAB será encaminhado à Câmara, agora sem o endosso do governo, com o qual a entidade afinara idéias. O projeto abre a possibilidade de a população convocar plebiscitos, prerrogativa hoje restrita ao Parlamento. Daria muito na vista se o governo patrocinasse o envio do pacote. Por trás de tudo isso há maquiavélica jogada.
A trama envolveria a operação para viabilizar um terceiro mandato de Luiz Inácio. A hipótese - que pode parecer absurda, pois o homem ainda patina no início do segundo mandato - se ampara na leitura das projeções sobre o País. Um governo forte tem cacife para mudar regras. Por outro lado, a estabilidade macroeconômica, controlada pela visão monetarista, sustentaria a posição de tranqüilidade do País. E a política social, fincada sobre um distributivismo populista, consolidaria a cooptação de contingentes carentes. Restaria arrumar programas de impacto para as classes médias, a partir da segurança pública. Dessa forma, Lula agregaria novos pólos de poder.
Dentro do figurino, cairia como uma bênção para Lula a aprovação de mecanismos transferindo para a sociedade o poder de conceder um terceiro mandato. Sólida argumentação será usada, como o princípio constitucional de que ao povo cabe o direito de usar, a qualquer hora, o poder soberano para se manifestar sobre a eleição de mandatários sem carecer de autorização de outras instâncias. A tramóia implica, portanto, aprovação de um recurso fundamental para alcançá-lo, no caso, a consulta direta ao cidadão. Esta vereda se imbrica com outros caminhos, entre eles, o domínio dos partidos e a produção da agenda parlamentar. Aqui, a trama ganha volume. Lula comanda a operação do alinhamento interpartidário, significando troca-troca parlamentar (25 já trocaram de partido desde a última eleição), engorda e enxugamento de siglas.
Para fechar o império mandonista, o chefe do Executivo se esforça para comandar o Legislativo, sendo essa a razão por que agenda encontros com Arlindo Chinaglia e Renan Calheiros, presidentes das Casas parlamentares. Com um parlamentarismo majoritário, capaz de assegurar ao governo maioria estável, e um corpo sob jugo, o presidente poderá fazer aprovar estatutos que até restrinjam prerrogativas do Parlamento, como o plebiscito na forma engendrada. Nessa costura, Luiz Inácio imita a aranha. O aracnídeo usa fios diferentes na composição da sólida teia: um para encapsular a presa, outro para formar os casulos e um terceiro para compor a moldura, feita com ralos e espirais. Liberar verbas e oferecer cargos equivale a encapsular os votantes, formar casulos implica partilhar o Ministério e ditar a agenda do Congresso é o fio de seda que fecha a trama. Lula terá seda suficiente para tecer os fios do futuro? Esperemos para ver se o presidente consegue passar pelo primeiro grande teste da trama: saciar a sede dos partidos na fonte dos Ministérios.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da Universidade de São Paulo e consultor político em São Paulo
Mudanças climáticas globais
Fábio Rogério Ortiz
O aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito estufa é um dos maiores desafios científicos da atualidade. Esse fenômeno tem profundas implicações ambientais, econômicas, políticas e sociais. Nos países considerados industrializados, o debate em torno da questão e as suas possíveis conseqüências tem sido intenso.
Infelizmente, a discussão vem caracterizada por uma forte carga ideológica. Simplificando, ocorre polarização em duas frontes antagônicas. Os da esquerda consideram que o possível efeito estufa é, sem dúvida, causado pela atividade industrial, o que lhes fornece uma ferramenta no combate ao capitalismo e à globalização. Baseados nisso, exigem restrições às emissões de gases de efeito estufa (dióxido de carbono, metano, CFC, etc.) e, conseqüentemente, às atividades industriais. A direita ignora o problema e defende a continuação das atividades industriais e suas emissões, de acordo com seus próprios interesses.
Porém, a perspectiva de mudanças climáticas, a questão do tempo geológico e as incertezas científicas são geralmente ignoradas nessa discussão. O clima oscila e muda naturalmente. As causas são geológicas e essas mudanças fazem parte da dinâmica natural da Terra. De qualquer modo, ao que parece, o homem está contribuindo para acelerar as mudanças. Isso é causado pela indústria, pelo desmatamento e pela desertificação.
A ação do homem aumenta a quantidade de gases de afeito estufa na atmosfera, como é o caso do CFC produzido pelo homem, do ozônio que aumenta pelo tráfego de automóveis e dos óxidos de nitrogênio produzidos pela utilização de fertilizantes e fabricação de nylon.
Comparadas de modo separado, as atividades humanas podem ser consideradas como desprezíveis dentro de uma perspectiva global e de tempo geológico, mas suas ações, juntamente com as de outros agentes atmosféricos, podem ser significantes. Os processos geológicos são lentos se comparados à influência humana.
Diante das incertezas apresentadas, não se sabe ao certo se o aquecimento global é provocado pelo homem, ou se está ocorrendo um período de aumento natural da temperatura. Diante das incertezas, a posição mais sensata é tomar atitudes que possam reduzir os efeitos antropogênicos ao clima, em vez de, simplesmente, continuar emitindo gases de efeito estufa sem restrições e esperar o que possa acontecer no futuro.
FÁBIO ROGÉRIO ORTIZ é professor em Londrina
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