Rumo a V Conferência em Aparecida

Dom Orlando Brandes
  Como sabemos, acontecerá em Aparecida (SP), de 13 a 31 de maio deste ano, a V Conferência do Episcopado Latino Americano e Caribenho. Será a Vª Conferência porque as anteriores aconteceram no Rio de Janeiro, Medellín, Puebla e Santo Domingo. Estas Conferências são um espaço de recepção e aplicação do Concílio Vaticano II na América Latina, maior celeiro católico da terra. Estes grandes encontros eclesiais marcaram muito a vida da Igreja no Brasil. Foram acontecimentos capilares e propulsores de vida humana, eclesial, pastoral e social
  As comunidades já responderam a um questionário e os bispos delegados pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também já realizaram seu encontro preparatório. Temos à disposição livros e artigos a respeito do acontecimento. Todavia, precisamos acompanhar e rezar muito porque todos percebemos que é hora de uma revitalização do seguimento de Jesus, de um ardor profético e missionário, de um reapaixonamento pela Igreja e de transformações sociais corajosas.
  A Igreja chega a Aparecida com algumas feridas abertas: problemas morais e espirituais do clero, aumento de novas religiões, afastamento de fiéis, enfraquecimento do profetismo, confusão na liturgia, conflito entre CEBs (Comunidades Eclesiais de Bases), movimentos e lideranças. Por outro lado, grandes desafios pedem por decisões corajosas como: crescimento da pobreza, onipotência do mercado, corrupção globalizada, forças neoconservadoras emergentes, profetismo exagerado, desagregação familiar, desarticulação da juventude.
  Muita razão têm os que almejam por uma Igreja mais santa e, por isso mesmo, mais pobre, transparente, samaritana e missionária, que reavive sua opção evangélica pelos pobres. Portanto, uma Igreja mais voltada para o Evangelho e para a Palavra de Deus.
  Se as feridas estão abertas e os desafios são grandes, maiores são as esperanças. Tudo indica que caminhamos na direção do primado da Palavra de Deus até chegarmos a um catolicismo bíblico e através do discipulado alcançarmos um novo ardor missionário. Discipulado e missão serão as duas asas com as quais a Igreja alçará vôo até os confins da terra. ‘‘Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que Nele nossos povos tenham Vida’’, é o lema da Conferência de Aparecida.
  Precisamos confirmar o Concílio Vaticano II; de priorizar a Palavra de Deus; de colaborar na transformação da realidade histórica. A fé em Deus, os pés no chão e as mãos no leme da história nos permitem ter esperança. Tudo seja para a glória e o bem da humanidade. A América Latina está chamando a atenção do mundo pelo novo populismo político que desponta como também pelo grito do povo por uma América mais justa, fraterna e solidária. Um continente católico tem a obrigação de ser sinal do Reino de Deus para as demais nações. América Latina, és chamada a ser sacramento do Evangelho para o mundo através de tua fé católica!
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Insensatez ou porre?

Rubens Artur Hering
  Lula recebeu Bush para uma conversinha de um tema só: biocombustível. Em meio à enxurrada de teses para minimizar os efeitos do aquecimento global, surgem algumas das mais estapafúrdias. Diz-se que o Brasil vai ser a grande fonte de energia alternativa para o mundo, via etanol e o biodiesel. Essa idéia etílica está embriagando o país. É preciso manter o modo de vida americano, a ‘‘american way of life’’, rodando sobre quatro rodas, menos poluidoras, mas sem alterar a sua matriz agrícola subsidiada. Por que será que eles não plantam por lá a cana em lugar da soja, do milho, do trigo e da laranja?
  Num país desenvolvido, se um governante propuser a insana substituição da diversificada cultura de alimentos pela monocultura de combustíveis, rola sua cabeça. Na visão deles é preciso manter o terceiro mundo como fonte de energia. Assim este continuará lhes fazendo o serviço sujo de exportador de commodity degradadora no cultivo, mas limpa no consumo. O petróleo não nos ensinou algo diferente no século XX. Cite-se um único país membro da Opep que tenha se tornado rico. Quando muito é um emirado tendo por dono um xeque. Vejam os membros da África: Nigéria, Líbia e Angola, todos paupérrimos. Na América Latina a Venezuela, México e Equador. No Oriente, o Iraque, o Irã e a própria Rússia. Enfim, todos permanecem atolados no seu terceiro-mundismo.
  Atender à demanda energética planetária no século XXI, seria a oportunidade brasileira de sair dessa condição, nos dizem demagogicamente. Ser fonte de commodity barata para os países ricos, nunca significou fortuna para os fornecedores, pelo contrário. Ademais, se o Brasil tiver um dia que abastecer a frota mundial de veículos com álcool e biodiesel, terá de expandir sua fronteira agrícola a níveis ainda sequer imaginados. De lambuja considere-se que a frota brasileira hoje roda com apenas 20% de biocombustível. Haja canavial pra tanta demanda!
  Onde iremos plantar toda essa cana, mamona, etc.? No Sul e Sudeste nem pensar em aumentar a fronteira agrícola, ou teremos de desmatar os míseros 5% de Mata Atlântica que restou, o que, aliás, já está em curso como nos mostram os noticiários. Do cerrado de Goiás resta pouco a ser devastado. O Nordeste plantará cana e mamona irrigados, quando lá não se tem água suficiente para beber? Ou então, nos restará substituir áreas de culturas protéicas por energéticas, o que cá entre nós, é uma imbecilidade. Transformar o Pantanal mato-grossense e a Amazônia em canavial e mamoneiro é o que vai acontecer. Tudo pela fortuna de poucos e para encher os tanques de combustível dos carrões mundo afora.
  Tal como os países da Opep, permaneceremos presos às nossas mazelas. E pior, destruindo criminosamente o resto das florestas, levando a pecha de grande contribuinte para o efeito estufa pelo que pagaremos caro amanhã. O negócio do álcool no Brasil continuará como já é hoje. Permanecerá sendo monopólio de poucos megausineiros nacionais e outros tantos estrangeiros a caminho, bem como de algumas centenas de grandes proprietários de terras, pois o cultivo intensivo e em grande escala exclui o pequeno.
RUBENS ARTUR HERING é economista e ouvidor do Partido Verde em Curitiba


- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup