Rave: a primeira a gente nunca esquece

Paulo Roberto de Lima
  Aceitei o convite de minha filha e seu namorado e fui a uma rave no último sábado. Ela está fazendo 17 e eu 50 anos. Chegamos sob o sol das 17 horas, mas a festa já rolava desde às 13 horas. Do lado de fora muita gente fazendo o ‘‘aquecimento’’, já que não é permitida a entrada de bebida e comida. Afinal, a organização precisa faturar. E como fatura!
  Neste primeiro contato deu para perceber que os exagerados contam apenas com a própria sorte. Um garoto não se agüentando em pé aqui, outro ‘‘cercando frango’’ acolá. Um deles, depois de uma ‘‘gorfada’’ a jato, estatelou-se de boca no chão e lá se foi um dente tingido de sangue. Um amigo do ‘‘kibe mutcho loko’’ pediu ajuda à organização. Não havia nenhuma estrutura de socorro para os perdidos. Um absurdo! Depois de muitas tentativas este amigo conseguiu um celular emprestado e um corajoso que levasse o banguela para casa, ensangüentado e vomitado. Fiquei imaginando o desespero da mãe.
  Após este eletrizante aquecimento minha filha teve trabalho para me convencer a entrar. Passando pela portaria tive que pagar o mico de dar o salvo-conduto para a filhota menor de idade e ser revistado. Fomos impedidos de entrar com inocentes barrinhas de cereais tendo que detoná-las ali mesmo.
  O sol já estava se despedindo e a noite prometia. Afinal, o eclipse da lua seria um espetáculo à parte. Chamou atenção a quantidade de óculos. O Raul Seixas continua com a razão - quem não tem colírio usa óculos escuros... Mesmo com a chegada da noite quase ninguém os tirou, acho que é a parte do ritual do ‘‘eu sozinho com minha pira’’ e ninguém tem nada com isso. No ar uma insistente brisa canabiana. Quanto ao ecstasy e os doces eu não os vi, mas eles existem e estavam ali, dava pra sentir suas presenças.
  A música? Tunts, tunts, tunts. Na minha estréia foram seis horas seguidas sem intervalo, mas com revezamento de DJ’s. O banheiro masculino? Nojento. Aliás, qualquer cantinho do espaço servia de mictório para os homens, muito natural. A dança? Tribal individual. Brigas? Não presenciei nenhuma. Cerveja em lata e água? R$ 3,00 e R$ 2,00. O eclipse? Maravilhoso e total. Se dancei? Claro, ainda dou pro gasto.
  Mico final: num pufe isolado no escuro, dormitava uma garota com uma ‘‘gorfada’’ lateral. Aproximei-me e carinhosamente perguntei: passou mal filha? Vamos embora... A resposta foi só um balançar negativo de cabeça. Alguns jovens que estavam ali ao lado estranharam minha atitude olhando-me com desconfiança. Senti que algo estava errado e quando a mocinha tirou os seus óculos de sol e eu coloquei os meus (de grau), me dei conta de que não era a minha menina. Vermelho de vergonha voltei para o tunts, tunts, tunts e reencontrei Anninha e seu namorado de boa. Viver a vida (com equilíbrio) é um barato e viva o meu primeiro meio-século.
PAULO ROBERTO DE LIMA é bancário em Londrina


Eu sou diferente. E você?

Antonio Lemes Guerra Junior
  Diferenças estão por toda a parte. E, junto delas, um dos mais terríveis males que impedem a criação de uma sociedade igualitária: o preconceito. Nos últimos tempos esse é um tema que vem sendo discutido nos mais diversos ambientes na tentativa de encontrar soluções que minimizem o sofrimento causado por atitudes discriminatórias.
  Muitas dessas discussões vêm carregadas de polêmica, como pudemos observar no processo de criação de cotas especiais reservadas para estudantes negros em concursos vestibulares. Outros casos até já se desgastaram devido à contínua sucessão de fracassos na busca de medidas reparativas, e podem ser representados pelo total descaso com deficientes físicos no que diz respeito à utilização de serviços públicos.
  Uma parcela minoritária da população não encontra meios de corrigir os danos causados pela grande massa preconceituosa que insiste em manter conceitos retrógrados como padrões equivocados de convívio social.
  Não é uma novela exibida no horário nobre ou um samba-enredo tocado na avenida que vai mudar o modo de pensar de uma nação inteira. São ações que, embora mereçam louvor, possuem uma repercussão quase que efêmera, constatada pela rapidez com que desaparecem logo após terem atingido seu auge junto à mídia.
  O fato é que todos esquecem que ninguém é igual ao outro. Todos possuem características peculiares dignas de todo o respeito. Posso ser perfeito fisicamente, mas ainda assim sou dotado de falhas que me distinguem dos demais. Além de meus defeitos, também tenho minhas habilidades, o que me torna um ser útil.
  Desse modo, fica evidente que cada indivíduo pertencente a uma sociedade - independente da posição ocupada, da cor da pele, das limitações motoras ou cognitivas e mentais - é capaz de trazer contribuições valiosíssimas para o grupo do qual faz parte.
  Uma comunidade assemelha-se a um enorme quebra-cabeça, onde cada pessoa deve ser vista como uma peça imprescindível e que jamais deve ser descartada. Através da união, essas peças devem ser encaixadas umas nas outras, a fim de atingirem um objetivo comum: a formação de um todo indivisível.
  E é a partir da construção e do fortalecimento dessa nova forma de pensar, caracterizada pela idéia de que as diferenças não são geradoras de problemas e sim de soluções, que uma sociedade estará livre para focalizar sua atenção em questões de real e maior importância. Afinal, não dá para negar eu sou diferente, e você?
ANTONIO LEMES GUERRA JUNIOR é estudante de Letras na Universidade Estadual de Londrina

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