ESPAÇO ABERTO
Quaresma e as múltiplas formas de penitência
Dom Orlando Brandes
Nossa conversão, purificação e santificação não dependem só do Batismo e da Confissão. Existem outras formas de penitência. As mais conhecidas são: o jejum, a oração, a esmola. O perdão dos pecados é obtido também pelos esforços de reconciliação com o próximo; pelas lágrimas de penitência; pela preocupação com a salvação do próximo; pela intercessão dos santos e pela prática da caridade. O Batismo e o Martírio perdoam radicalmente todos os pecados. Para avançar na conversão, temos diversas formas de penitência cotidiana: gestos de reconciliação; o cuidado dos pobres; a prática e defesa da justiça e do direito; a confissão das faltas aos irmãos; a correção fraterna; a revisão de vida; o exame de consciência; a direção espiritual; a aceitação do sofrimento; a firmeza na perseguição por causa da justiça e a aceitação da cruz de cada dia. De modo especial o sacramento da Eucaristia e da Confissão nos libertam das faltas cotidianas e nos preservam dos pecados mortais.
As penitências que reavivam o espírito de conversão e contribuem para o perdão dos pecados são: a leitura da Sagrada Escritura, a oração da Liturgia das Horas, a oração do Pai-Nosso e todo ato sincero de culto ou de piedade. Os tempos e dias de penitência, a Quaresma, cada sexta-feira da quaresma com seus exercícios e liturgias espirituais, peregrinações, obras de caridade são momentos fortes da prática penitencial da Igreja.
Todas estas formas de penitência, nos revelam o carinho de Deus, rico em misericórdia e a maternidade da Igreja nossa mãe, que nos oferecem e facilitam tantos meios simples, concretos e possíveis de prática penitencial para nosso crescimento, aperfeiçoamento e santificação. O sacrifício agradável a Deus, é o coração contrito na esperança do perdão. Este é o verdadeiro sacrifício de louvor, a mudança de nossas vidas, nossa conversão, nossa luta para sermos melhores do que somos. Se o pecado é errar o alvo, ruptura, divisão, iniqüidade, morte, frustração; a penitência só pode ser reencontro, humanização, harmonização, rumo certo, vida nova. Como vemos, o cotidiano bem vivido é lugar de santificação. Penitência não é rosto carrancudo, nem excentricidades religiosas, mas a simplicidade do dia-a-dia como, por exemplo, o cumprimento dos deveres, a convivência com pessoas difíceis, a aceitação de nossas limitações, a paz e serenidade nas humilhações e injúrias. Tudo isso é penitência, é humanização, é amorização da vida. Estamos sempre em páscoa, isto é, alternam-se em nós a paixão de Cristo Jesus e sua ressurreição.
O amor com que fazemos todas as coisas é o que permanece, não passa e se torna eternidade, porque o amor não passa, a caridade jamais acabará.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Simulacro da sorte
Alvaro Dias
Foi longo o itinerário que percorremos entre as suspeitas e as informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras - COAF - que indicam a ocorrência de fraude no pagamento de prêmios de loterias da Caixa Econômica Federal (aproximadamente R$ 32 milhões, a maioria entre 2002 e 2006). No entanto, a decisão de trazer a público foi imediata. A investidura de mandato popular impõe o dever de não sonegar à sociedade qualquer vestígio de desvio. Os fortes indícios de lavagem de dinheiro no circuito das loterias são irrecusáveis. Os sinais que apontam para a possível participação de funcionários da CEF no esquema fraudulento não podem ser distorcidos. A esmagadora maioria do seu corpo funcional - competente e sério - não pode ser confundida com um diminuto rebanho de ovelhas desgarradas, eventualmente combinadas em conluio.
No ato da denúncia feita da tribuna do Senado, apresentei Projeto de Lei que estabelece instrumentos para evitar que as loterias da CEF continuem sendo utilizadas para ações criminosas. Na seqüência, apresentei requerimento de informações, aprovado pelo plenário do Senado na última quarta-feira, solicitando ao Tribunal de Contas da União (TCU) auditoria no sistema de pagamentos das loterias da CEF para verificar os casos de lavagem de dinheiro e também a possibilidade de manipulação dos resultados. Encaminhei no mesmo sentido pedido de informação ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, sobre as agências da Caixa em que foram descontados os prêmios suspeitos.
No passado, o País presenciou cenas deploráveis de um parlamentar que justificava os vultosos depósitos nas suas contas bancárias com o recebimento de repetidas premiações na loteria. A nossa constatação é que aquele deputado fez escola, mas os seus discípulos o superaram.
Os exemplos escabrosos dos novos afortunados pela sorte, revelados no relatório do COAF, falam por si só. Há registro de determinada pessoa que descontou 107 prêmios em um mesmo dia, sendo que os prêmios apresentavam datas com diferença de até um mês e em sete modalidades de loteria. Um iluminado conseguiu a façanha de ganhar 525 prêmios, no valor de R$ 3,8 milhões, sendo escudado por outros predestinados assim contemplados: 327 prêmios, no valor de R$ 1,6 milhão; 206 prêmios, em sete modalidades de loteria, num valor superior a R$ 1,257 milhão; sem esquecer os eclipsados, por exemplo, o que venceu 17 vezes, recebendo aproximadamente R$ 4 milhões, sendo vários prêmios pagos em loterias diferentes, no mesmo dia.
As explicações oferecidas pela direção da Caixa são contraditórias. Em um primeiro momento a CEF respondeu que competia a ela investigar e que, por isso, teria remetido dados ao COAF. Em outro momento declarou que investigou e que não apurou responsabilidade interna. A lembrança do triste episódio da quebra de sigilo do caseiro Josenildo Santos Costa nos remete à tese inicialmente defendida pelo governo de que existia crime, mas não havia criminoso. Sabemos que são inúteis as tentativas de escamotear a verdade. O simulacro da sorte não convence nem crédulos nem céticos.
ALVARO DIAS (PSDB-PR) é vice-presidente do Senado Federal
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