Breve ensaio sobre a cegueira

Luiz Carlos Ferraz Manini
  Por que indignação? A cegueira da fé insensata sempre conduz a caminhos errôneos. E é esta a paisagem que se desenha no debate aberto pelo jornalista Walmor Macarini, quando da publicação de seu texto ‘‘O apego dos fanáticos’’. O jornalista apontava para um dos caminhos a serem seguidos diante de um mundo cada vez mais individualizado e egoísta, no qual o homem se sente confuso e perdido. Não concordo com o colega quando o mesmo diz que a perda da fé causou isto. Esse é um processo bem mais complexo, no qual, aos poucos, o homem foi sendo privado do entendimento do funcionamento do mundo, e perdeu a capacidade de modificá-lo, passando a ser quase um mero espectador.
  Da época da Revolução Industrial, notamos que o trabalhador vai perdendo o controle sobre o processo de produção e torna-se apenas operário, aquele que opera a máquina cujo produto final agora desconhece na totalidade. Em um mundo gerido pela necessidade de produção e eficiência, é importante ressaltarmos também este alijamento.
  No entanto, o corporativismo da fé do padre André Bedrowski, que se mostrou indignado em sua publicação no último dia 27 de fevereiro, nos mostra que a Igreja católica ainda pretende manter sua posição de intérprete final do ensinamento de Jesus. Como o sr. Bedrowski mesmo citou, segundo o evangelho de João, Jesus diz que ninguém vai ao Pai senão por ele, ou seja, através do entendimento de seu exemplo e de sua divindade, mas não estabelece o monopólio da crença na Igreja católica.
  Lutero já havia afirmado que o homem é o sacerdote universal, ou seja, que pode ele mesmo ser seu sacerdote; ele mesmo possui o dom de interpretar e buscar as respostas mediante seu estudo e seu entendimento. Acredito também que, quando se anuncia a revisita de Jesus, é enquanto princípio, ou seja, quando o homem for capaz de desenvolver aquela centelha divina que carrega, então o momento do retorno do Cristo será confirmado. No entanto, a cegueira da fé insensata nos diz que há somente um abrigo, o do conforto da Igreja, com seus ministros infalíveis, e que não suportam a crítica e a opinião diversa. Novas discussões se abrem com o anúncio da descoberta de uma suposta tumba com os restos mortais de Jesus e Maria Madalena. Haveria nisso alguma verdade? Talvez, uma vez que deveríamos diferenciar o Jesus histórico, o pregador que lutou contra a opressão dos sacerdotes judeus, e o Jesus princípio, aquele no qual o homem deve se espelhar e organizar sua vida. Mas, uma vez mais, veremos os brados furiosos dos entorpecidos pelo veneno da irrazão e do poder, para os quais há somente uma verdade.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina


A videira e os seus ramos

Walmor Macarini
  É até impossível construir-se a expressão ‘‘a videira e os seus ramos’’ (uma expressão bíblica), pois soa redundante e bastaria dizer-se a videira, já que ela compreende raízes, tronco, ramos, folhas, flores, frutos. A videira sem esse conjunto de coisas não seria videira. Isole-se uma parte e ela estará incompleta. Assim com Deus. Quando dizemos Deus, dizemos tudo o que é e existe, não se podendo, portanto, dizer Deus e ‘‘outras coisas’’. Porque sem todas as coisas Deus não seria. Não existe um Deus isolado da Criação, embora se diga que somos centelhas divinas, e de fato somos, mas isto não significa algo separado, porque tudo nos Céus e na Terra é uma só unidade.
  Por isso a divindade do ser humano, pertença ele a qualquer credo e a qualquer condição social e mesmo comportamental. Significando que o alento divino está também no delinqüente. Essência e personalidade são coisas distintas, porque os espíritos de todos os seres são puros e reluzentes, embora, temporariamente, possam estar obscurecidos pela sombra da desinformação e do atraso. Por isso, muitas vezes sábios ensinamentos não são entendidos, pela linguagem simbólica que encerram.
  Alguns situam um Deus distante (e repito o que disse tantas vezes, que cada qual o conceba segundo o próprio entendimento), outros o trazem para dentro de si. E assim fazem manifestar-se a videira por inteiro, pois não há como dividi-la em partes, ou seria uma planta disforme. O princípio divino em cada ser capacita a todos o alcance dos portais da suprema bem-aventurança, porque revestidos do poder do fogo crístico (o Cristo) – um atributo que em Buda e Jesus e outros avatares da mais refinada linhagem ganhava total expressão nos momentos de plena sublimidade desses iluminados seres – a transfiguração.
  Se não encerrássemos em nós o poder de Deus – porque um poder inerente e imanente – não teríamos a consciência de que vivemos à vida eterna e que, com absoluta certeza, iremos vivenciá-la mais intensamente na plenitude da luz. Porque todos já somos plenos da graça e todos salvos. Jesus nunca se proclamou diferente dos homens. Essa separação foi implantada por alguns sistemas de crenças, que também estabeleceram uma linha divisória entre Deus e sua Criação, para dessa forma se apresentarem como indicadores dos caminhos de aproximação.
  Cristo (entenda-se o fogo divino, ou o sopro da vida, ou a elevada expressão da luz) está voltando e os sinais disto já estão à mostra. Isto de início gerará reações; alicerces seculares e aparentemente sólidos e intocáveis balançarão; e a verdade irá florescendo, até que tudo se acomode. E então não mais haverá religiões, mas um só entendimento, e o paraíso terrestre começará a fincar seus alicerces. Todos nós temos a mesma natureza divina e a chave dos portais da eternidade.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA


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