Cadê o Urbanismo?

Alessandro Filla Rosaneli
  É incontestável que em Londrina, há anos (e basta somente ler as reclamações e artigos que são publicados nos jornais), os espaços públicos livres - ruas, praças e parques - vêm sendo negligenciados. Na verdade, uma tendência nacional generalizada. Contraditoriamente, nunca a sanha por obras viárias se mostrou tão forte: viadutos, alargamentos, prolongamentos, rotatórias, etc. Será que isso é tudo o que a cidade pode oferecer para seus moradores? Será que é só isso que precisamos? Acredito que não e explico.
  Várias cidades, no Brasil e no exterior, têm trabalhado arduamente em favor do pedestre e do ciclista. Assim, enfatizam a escala humana da cidade, o dia-a-dia das pessoas que circulam pelas calçadas, que sentam nas praças, que pedalam em ciclovias. Como objetivo, reconhecem seus espaços públicos livres como locais de excelência para a permanência e para a passagem das pessoas. São locais limpos e bem cuidados, com mobiliário urbano resistente (feito para permanecer por décadas e não para durar apenas o período de uma ou duas gestões!), enfim, espaços detalhadamente projetados para atender os anseios de seus usuários. Pois assim se entende porque são valorizados e muito utilizados.
  Ao contrário, o que vemos em Londrina, cidade cujo porte não permite mais soluções precárias, provisórias e eleitoreiras, é o oposto. A cidade vem insistentemente sendo projetada para o automóvel particular. E aí reside uma enorme contradição, pois os dados demonstram que a maioria dos londrinenses não possui um veículo. Quando muito, anda de ônibus. E, na realidade, desculpe-me o chavão, todos somos pedestres, não importa classe social, idade, gênero e disposição! Mas em Londrina, não. Parece que o espaço público, que é de todos, não pertence a ninguém, tamanho o desperdício, abandono e falta de ousadia para valorizá-lo.
  Em pesquisa com meus alunos de Arquitetura e Urbanismo, um dos aspectos mais calamitosos levantado é o estado de nossas ruas, sobretudo as calçadas. Ah, as calçadas... Estas são realmente as vilãs. Quando existem, estão em péssimo estado para a circulação desimpedida de qualquer um. Raríssimas são as calçadas, que em toda sua extensão, estejam em perfeito estado. Para muitos, sair de casa significa uma verdadeira ‘‘guerra’’. A gravidade é que existe legislação federal que ampara e exige posicionamento da administração pública.
  Embora se perceba um grande esforço da administração pública com a renovação de nossa legislação urbanística, ou seja, pensando grande e pensando no futuro, realmente carece de pensar no
‘‘aqui e agora’’. E isso não significa pensar pequeno, mas respeitar a maioria e aproveitar todas as potencialidades que existem. Não adianta simplesmente reformar, remendar, o que não tem solução simples. Cito o exemplo do Calçadão, para não me estender. Precisamos de uma posição mais agressiva, de luta em favor do pedestre e do ciclista, em favor da qualidade do espaço público livre. Londrina precisa de um choque de urbanismo!
ALESSANDRO FILLA ROSANELI é professor de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Estadual de Londrina, Unopar e Unifil


A solitária não ficará só

Luiz Eduardo Cheida
  Sempre pensei na autópsia daquela múmia egípcia em que foram encontrados ovos de solitária como uma descoberta educativa. Afinal, o que já fazia dentro de um faraó, há 4 mil anos, nossa velha e asquerosa Taenia solium? Declamando Shakespeare, que um dia escreveu um homem pode pescar com o verme que se alimentou dum rei e comer o peixe que se alimentou desse verme, é que não era.
  Por isso, deduz-se que ela estava fazendo nele o que suas primas fazem conosco nos dias de hoje: comendo e reproduzindo-se. Aliás, em matéria de número de filhos, não há animal na Terra que bata uma solitária. Pode por pulgão, cupim, coelho, mosquito, cabrito, o que quiser. Solitária é solitária, desde tempos imemoriais.
  Mas, sem desviar do assunto, chegou o laudo cadavérico. E o médico foi logo isentando a solitária:
  - O homem morreu de velho.
  Entretanto, a necrópsia da solitária veio junto.
  - A solitária é tão velha quanto o homem - datou o cientista.
  - Então, eram dois velhos conhecidos - reconheceram ambos.
  - Provavelmente.
  - Sendo assim, ela não mataria o rei.
  - Só se fosse estúpida.
  - Por quê?
  - Elementar: parasita que mata o hospedeiro, morre junto com ele.
  - Eu nunca havia pensado nisso...
  - Então, já passou da hora de pensar.
  Assim, tenho matutado desde então.
  Que a espécie humana tem sido uma verdadeira praga, basta olhar para o que sobrou de Serra Pelada, qualquer solo erodido, um campo de batalha ou mata queimada. Depois, com a ajuda de uma lupa, veja qualquer micose: não há a mínima diferença.
  O homem, para a pele do planeta, não difere de um fungo agressivo. As bactérias matam pelas toxinas que produzem. A diferença entre estas mortais substâncias e os poluentes que produzimos é que os nossos matam em escala. O homem, para a vida do planeta, não difere de uma bactéria patogênica. E poderia gastar o dia e a noite nestes macabros comparativos. Mas, da mesma forma que a solitária hospeda-se no rei, nós nos hospedamos aqui. Somos hóspedes na Terra. Matá-la, é morrer junto.
  Então, qual o caminho? Se a solitária fosse um parasita agressivo, exterminando seu hospedeiro, talvez não a conhecêssemos hoje, a não ser quando abríssemos as tripas de uma múmia milenar. Em outras palavras, enquanto espécie, já estaria extinta. Todavia, ela continua entre nós. Embora seja um verme parasita, permanece viva, dando lições de etiqueta de como hospedar-se bem. De como morar na casa de alguém, causando o mínimo dano possível.
Aprendendo com os vermes. Quem diria... Mas, isso não é demérito. O importante é aprender. Sou otimista. Acho que a solitária não ficará só.
LUIZ EDUARDO CHEIDA é médico e deputado estadual
(PMDB) eleito por Londrina


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