Eixo definido

Antonio Delfim Netto
  Dois aspectos que me parecem de suma importância no PAC é que ele assume o compromisso que não haverá cortes de verbas para as obras relacionadas e sustenta que o suprimento de energia está garantido até 2010. Essas duas colocações são fundamentais para fazer renascer nos empresários o estado de espírito favorável à aceleração do crescimento, de modo a superar os ridículos 2,4% de expansão anual do PIB.
  O teor inteiro da proposta mostra um enorme avanço sobre as formulações anteriores porque traça um único eixo que é o crescimento econômico. Deixa claro no entanto que não se pretende ‘‘qualquer desenvolvimento’’ mas sim um desenvolvimento com redução das desigualdades pessoais e regionais , com inflação civilizada, equilíbrio fiscal e vigilância quanto à vulnerabilidade externa. São compromissos que este governo pode assumir graças à credibilidade que conquistou no primeiro mandato nos campos relacionados.
  Outro fator de confiança vem da postura do Presidente Lula em relação às atividades dos setores empresariais e seu reiterado respeito às liberdades civis e aos direitos democráticos, o que o distancia claramente do delírio andino que ora perturba parte da América Latina. Ele deixou isso muito claro quando no lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento cobrou a participação do setor privado, dizendo que ‘‘o governo pode tomar iniciativas e até criar os meios, mas o projeto só terá sucesso se todos se engajarem nele, empresários e trabalhadores’’.
  Será um grande alento se ao falar de iniciativas de seu governo, o presidente Lula estiver pensando seriamente em enfrentar o problema do engessamento do mercado de trabalho, que hoje impede as empresas de contratar. Ele talvez seja o único político brasileiro que pode propor a reforma das relações trabalhistas e manter a confiança dos trabalhadores. É preciso recriar as condições para aumentar a oferta de emprego formal, dar mais empregos com carteira assinada. Hoje o mercado está dividido entre os que têm direito a tudo e os que não têm direito a nada e esta é a parcela que mais cresce. É duro imaginar que a situação permaneça dessa maneira quando a economia voltar a crescer e a gerar empregos.
  O sucesso do PAC será o crescimento da economia com redução das desigualdades, o que pressupõe a criação de empregos que resgatem a dignidade do trabalhador, na sua integridade. Isso dependerá muito do descongelamento das relações trabalhistas.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda,da Agricultura e do Planejamento e ex-deputado federal (1986/2006)


Indignação

André Bedrowski
  Não posso usar outra palavra para descrever o sentimento do meu espírito ao ler os artigos do jornalista Walmor Macarini, atacando sistematicamente a fé dos cristãos e, especialmente, o último ‘‘O apego dos fanáticos’’. Eu e, com certeza, todos os cristãos nos sentimos ofendidos. Ele pega as palavras de Jesus, tiradas do contexto, e adapta à doutrina da sua crença. É verdade que Cristo é nosso Mestre e Guia e ninguém, entre os cristãos conscientes, nega a necessidade de imitar as suas obras e seguir as suas palavras. Jesus Cristo é o Caminho e a Verdade, como Ele mesmo disse, mas também é a Vida. Jo 14,6: ‘‘Ninguém vai ao Pai a não ser por mim’’. Podemos seguir o caminho, tentar viver a verdade, a partir da nossa vontade, mas não temos dentro de nós princípio de vida (a graça que nos capacita para seguir o caminho de Cristo). Por conseguinte a vida (graça que equivale à salvação) vem para nós como o dom de Deus, através de Cristo. ‘‘Eu sou a Videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer’’ (Jo 15,5). ‘‘Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo’’ (Jo 6,51). Creio que estas palavras de Jesus são muito claras para mostrar a diferença entre a natureza Dele e a nossa e mostram claramente que Ele é o Salvador, seja no sentido de nos mostrar o caminho, como também de nos dar a graça, que nos transforma e alimenta para prosseguirmos no caminho.
  Quando Ele disse que faríamos as mesmas coisas que Ele fez e até maiores, e que o Reino de Deus está dentro de nós, isto sempre era entendido por Ele e por seus apóstolos em dependência da união com Ele. Por isso dizer, como diz sr. Walmor, que a missão terrena de Jesus foi nos ensinar que somos iguais a Ele é um disparate sem precedentes. Os apóstolos que participaram da escola de Jesus e eleitos por Ele, entenderam muito bem quem Ele era e por isso Pedro confessou: ‘‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo’’ (Mt 16,16). Depois da ressurreição disse: ‘‘Não há, debaixo do céu, outro nome dado aos homens pelo qual devemos ser salvos’’ (At 4,12). São Paulo na carta aos Gálatas diz: ‘‘Quando porém chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam sob a lei, a fim de recebêssemos a adoção filial’’ (Gl 4,4-5). ‘‘Cristo nos remiu da maldição da lei, tornando-se maldição por nós’’ (Gl 3,13). ‘‘Pela graça fostes salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós, é o dom de Deus: não vem das obras para que ninguém se encha de orgulho’’ (Ef 2,8-9). A palavra remir vem do latim redimere e significa tirar do cativeiro, do poder alheio; resgatar e libertar o que equivale à salvação.
  Poderia citar ainda dezenas de textos que revelam o dado essencial da crença dos cristãos em Jesus Cristo como nosso Salvador. É diferente sermos chamados por Deus de nos tornar filhos no Filho, cristificados, quer dizer transformados pela graça de Deus para a imagem de Cristo, do que dizer que pela natureza somos iguais a Ele e Ele não passa de um bom exemplo e de um guru que veio nos somente mostrar, que dentro de nós, temos a centelha divina e que cada um de nós se salva a partir de si mesmo.
ANDRÉ BEDROWSKI é padre da arquidiocese de Londrina


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