ESPAÇO ABERTO
Ainda o golpe da mulher grávida
Wilhan Santin
No último dia 14, enquanto tomava café em uma lanchonete na Rua Pará, recebi a informação de que um rapaz estava pedindo socorro às pessoas porque a sua mulher estaria em trabalho de parto ali por perto. Ciente de que se tratava de um golpe, pois o colega Guilherme Borges, aqui da FOLHA, já havia feito uma matéria relatando a ação do golpista, resolvi segui-lo. Junto do repórter fotográfico Evandro Monteiro, percorri diversas ruas acompanhando a ação do rapaz. Enquanto isso, pensava se tratar de um grande espertalhão e até mesmo um perigoso bandido que a qualquer momento poderia ferir alguém. Acionei a Polícia Militar (PM) para que o rapaz fosse preso em flagrante e passasse um bom tempo na cadeia.
A PM chegou depois do golpista abordar nove pessoas, então fui entrevistá-lo. O nome do rapaz é Marcelo. Ele não negou que usa a mentira da mulher grávida para conseguir dinheiro, utilizado para comprar o crack, droga que ele usa há nove anos. Nenhuma das vítimas quis formalizar a queixa, por isso Marcelo foi liberado. Os policiais que atenderam a ocorrência disseram que não é a primeira vez que são chamados devido ao golpe aplicado pelo Marcelo. Ele até já foi orientado pelos mesmos policiais em outras oportunidades, mas não há relato de que alguma vez tenha machucado ou tomado dinheiro à força de alguém.
Não quero discutir aqui se ele é um bandido ou se é apenas mais uma vítima das drogas. Quero apenas usar o exemplo do Marcelo para fazer um desabafo em relação às drogas. Quando começou a utilizar crack, Marcelo tinha um emprego fixo e tinha também dignidade. Quando foi interceptado pela PM, tudo o que ele tinha, além da humilde roupa que trajava, era um cachimbo para utilizar a droga. Perambulando pelas ruas, tudo o que ele quer é deizão para fumar uma pedra de crack. Ele vive para isso.
Quando eu era garoto, tinha um grande amigo. Um dia ele conheceu a maconha, depois a cocaína e finalmente o crack, então não quis mais ser meu amigo. Preferiu a droga, hoje está preso por roubo. Para muitos, ele é apenas um drogadinho, ladrão, vagabundo. Para mim, é um amigo que perdi. Para a mãe dele, que conheço bem, ele não deixou de ser filho. Ela continua tendo o mesmo amor de sempre.
Para muita gente, Marcelo é um bandido. Para mim, ele precisa de ajuda. Sei que fiz a minha obrigação de repórter ao segui-lo e flagrar o crime. Sinto que cumpri meu dever. Porém, um sentimento de impotência não me deixa tranqüilo. Quantas pessoas, a exemplo do Marcelo, perambulam pela vida depois que conheceram as malditas drogas. Reconheço que há iniciativas louváveis, como a Fundação Tamarozzi, que recupera viciados sem cobrar um tostão, e do Programa Sinal Verde, da prefeitura, que tenta oferecer condições mais dignas aos moradores de rua. Porém, é preciso muito mais. O Marcelo optou pelo caminho das drogas, assim como o meu amigo que citei acima, mas não consigo achar que o problema é deles, da polícia, da prefeitura, do Requião ou do Lula. Acho que o problema dos usuários de drogas também é meu e seu. O que podemos fazer? Eu ainda não sei, mas procuro a resposta.
WILHAN SANTIN é jornalista da FOLHA DE LONDRINA
O apego dos fanáticos
Walmor Macarini
Agora que entramos na Quaresma é oportuno rememorar textos que já escrevi sobre o apego de fanáticos cristãos a Jesus. Que o elegeram seu salvador e passaram a reverenciá-lo ao invés de seguir seus ensinamentos. Se entre nós, hoje, ele estivesse fisicamente, com certeza pediria que nos desapegássemos dele, assumíssemos nossa própria responsabilidade e buscássemos saber o que somos e por que estamos aqui. Jesus nunca disse que era um salvador, mas nos fez ver que a salvação no sentido do entendimento e não de poupar a alma de um suposto caldeirão do inferno está em nós próprios.
Sua missão terrena foi, fundamentalmente, nos ensinar que somos uma fraternidade e que carregamos em nós a centelha divina, portanto tão iguais a ele, segundo suas próprias palavras. Este ensinamento, um dos mais significativos de seu ministério, consubstanciou-se na frase O que eu faço vós também o fareis, e ainda melhor. E não se referia apenas às curas de enfermos e outros prodígios.
Isto não deixa dúvida quanto à divindade do homem, o que o sistema tradicional de crenças visa negar, para dessa forma manter os fiéis temerosos e atrelados. Por isso o homem chegou aos dias atuais trôpego, desencontrado consigo mesmo, distanciado da compreensão de sua origem divina e sem haver experimentado as potencialidades de que sempre foi possuidor e tanto ressaltadas pelo Mestre. Porém, novas revelações começam a envolver a humanidade, pelos mais diferentes meios, e a partir de agora os portais do entendimento irão se abrindo e o homem verá o brilhar de sua própria luz.
Um dos lamentos mais recentes de Jesus, encontrável entre tantas manifestações e revelações dele e de outros hierarcas celestiais e que por si mesmas já bastam para se codificar o que denomino Novíssimo Testamento é que um grande erro da humanidade nestes últimos dois mil anos foi haver preferido admirá-lo no lugar de segui-lo, e crer que só ele era dotado do poder crístico e que este não era um atributo de cada um de nós. O Reino está dentro de vós. Ou ele não o teria dito.
As revelações nos ensinam que a proclamada nova vinda do Cristo (leia-se o fogo divino, presente muito fortemente em Jesus e presente em cada ser) deve ser entendido como o reacender da luz sobre a Terra. Isto ocorrerá pela expansão da consciência do homem, que propiciará por essa abertura a anunciada revisita. A segunda vinda da chama crística, por via eventualmente de um avatar não conhecido está compreendida nessa expansão que agora tem início. Na verdade essa vinda já se opera, pelas muitas formas de difusão e absorção das boas novas que estão chegando. Mas nenhuma divindade moverá nossos passos se não estamos dispostos a caminhar.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA
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