Procurando Leonardo da Vinci

Carlos Eduardo Bobroff da Rocha

Crise da humanidade. Com apenas esta expressão se resume o caos em que o mundo vive no momento atual. Parece que a saída é encontrar Leonardo da Vinci.
Sem que se percebesse, o ser humano criou condições para que surgisse um cenário semelhante ao que se sucedeu após a queda do Império Romano. Essa nova Idade Média que começou a se desenhar possui semelhanças com a Idade Média original. Ao invés do forte monopólio ideológico da Igreja, surgem três personagens para esta tarefa: as empresas com capacidade para atuar globalmente, os partidos políticos das ''raposas velhas'', e a mídia.
Em muitos casos, os três atuam em conjunto. As empresas utilizam o poder econômico, as ''velhas raposas'' usam o poder político e a imprensa o poder social, baseado na honra e no prestígio. Como se vê, estas três dimensões da organização da sociedade desempenham papel importante no quesito manter a ordem, isto é, dificultar o surgimento de alguma classe social que se diferencie do status quo.
Por muito tempo as ações humanas foram influenciadas por este tripé. E o começo do século 21 dependeu disto. Aversão a estrangeiros, nacionalismo que impede a integração de países, fortes ações da mãe natureza em todos os cantos do globo, economias que não deslancham, eleições cujo resultado já se pode prever com exatidão, enfim, todos estes fatos que eram, em essência, comuns na Idade Média (cruzadas, peste negra, intolerância religiosa, monopólio comercial das cidades italianas, ascensão social impossível para as classes baixas, formação dos Estados Nacionais associada com rivalidades entre os países) estão muito evidentes na geopolítica de hoje. É como se as bases da organização social tivessem pouco se alterado desde aquela época.
No entanto, a história pode ter um final semelhante. A Idade Média original deu lugar ao Renascimento, que se caracterizou pelo questionamento dos monopólios (comercial, cultural, religioso). E a figura mais famosa foi Leonardo da Vinci. Outros também foram importantes, como Lutero, Michelângelo, Guttenberg, Colombo, mas Leonardo representou bem os anseios do homem em se libertar da alienação a que sofria. E o que o movia a ser um gênio incansável, superando a cada dia seus limites como homem? Pensando que, na realidade, ele não é detentor da verdade, e, com isso, tentava buscá-la ao seu redor, em todos os eventos que acontecem simultaneamente. Assim, este personagem via as coisas como interligadas, e não separadas, como era vista a organização social até então.
A lição que fica é que combater as diferentes formas de monopólio do poder começa em enfrentar o monopólio dentro de cada um: ver o mundo, na maioria das vezes, apenas como projeção do próprio indivíduo.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina da Universidade Estadual Londrina

O que ninguém falou ainda

Rubens Hering

Vamos tentar ir ao cerne do aquecimento global. Os gases causadores do efeito estufa se acumulam na atmosfera por milhões de anos. Seus níveis variaram ao longo da existência planetária. O mar subiu e desceu. As geleiras se formaram, derreteram e tornaram a congelar. Espécies surgiram e se extinguiram. Mera evolução natural ou a mão de Deus, como se queira.
Desta feita, a comunidade científica conclui que o aquecimento acelerado do planeta se dá como consequência da irresponsável ação humana. Aliás, a natureza não reage de imediato contra as agressões que sofre. A árvore tomba. O rio aceita a poluição. A atmosfera recebe e acumula CO2. Tudo passivamente, até que um dia, ela se vinga. Pois esse dia chegou. Nós e as gerações imediatas é que iremos vivenciar essa amarga experiência. O que é incrível é que tudo foi causado num piscar de olhos em tempo geológico.
A Revolução Industrial data do século XVIII. A quase totalidade do excesso de emissão dos gases causadores do aquecimento por atividade humana se dá a partir da segunda metade do século XX. A comunidade ambientalista já prognosticava isso há muito tempo. Sem base científica, mas por ousadia, idealismo e amor à vida, características do ambientalista autêntico.
Triste é constatar que de nada ou pouco valeu, pois não foram ouvidos. O que poderia ter sido evitado não o foi. Pelo contrário, sempre taxados de ''ecochatos'' ou desdenhados de serem radicais e empecilho para o progresso. Bom seria se o mundo pudesse voltar no tempo e corrigir tamanho erro e injustiça.
O relatório científico da ONU recém divulgado em Paris, aponta causas e problemas. Esperamos que em breve apontem também as soluções. Dentre o conjunto de medidas capazes de minimizar os efeitos da hecatombe, espero que não esqueçam do principal, ou seja, estimar qual é a população humana máxima ou ideal da ''nave'' Terra para que sua tripulação de todas as espécies possa ter vida abundante em alimento, com água limpa e ar puro. Isso só será possível a partir da contenção do crescimento da população humana, pré-requisito para todos os demais passos a serem dados. Ou se contém o crescimento populacional ou tudo mais será utopia e romance.
Com 6,5 bilhões de humanos chegamos ao caos. Com mais de 9 bilhões de habitantes projetados para 2050, a expansão das fronteiras agropecuárias derrubará a última árvore. É no quantitativo da população humana, ao mesmo tempo causadora e vítima dessa tragédia, que mais precisamos começar a falar. Fazê-lo sem preconceitos e falsas moralidades. Debater de forma aberta sobre os meios éticos de planejamento familiar da natalidade a serem implementados em escala global, enfatizando o acesso dos povos mais pobres à contracepção. Caso contrário, só nos restará em breve sentir o golpe irremediável da espada do anjo do Apocalipse.
RUBENS ARTUR HERING é economista e ouvidor do Partido Verde em Curitiba

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