Fraternidade e amazônia

Dom Orlando Brandes
  A Campanha da Fraternidade (2007) é sobre a Amazônia. Esta terra abençoada pelo Criador é uma riqueza em águas, matas, pássaros, peixes, cultura, terra, minérios, presença indígena. Mas este jardim está virando deserto. O clamor que vem da Amazônia é em favor da ecologia, dos índios, dos trabalhadores do campo, dos negros, dos pobres e pequenos. É preciso uma conversão do mundo, da política nacional, da Igreja e da opinião pública em favor da Amazônia. O padre Lebret dizia: ‘‘As massas humanas são nosso próximo.’’ Nós dizemos: ‘‘A Amazônia é nosso próximo, é nossa irmã.’’ Para muitos, ela é a mãe que dá o sustento. Ela é o refrigerador da terra.
  Defender a Amazônia é protestar contra a devastação, a exploração, a biopirataria, a corrupção judiciária, a prostituição, o trabalho escravo, a monocultura e o latifúndio na região. O Brasil e o mundo precisam da Amazônia. Ela está sendo destruída pelas madeireiras, mineradoras, garimpeiros, fazendeiros e outros. Desmatamento, queimadas, mineração, siderurgia, exploração da biodiversidade, interesses de internacionalização, narcotráfico, militarização são questões que tocam o coração do povo e da terra na Amazônia. Tudo isso se abate sobre a região com a força da ganância, do mercado, do lucro, da exploração. A Campanha da Fraternidade nos oferece um conhecimento da realidade e nos convoca a tomar atitudes concretas como: enviar missionários, colaborar na formação de agentes, protestar contra as injustiças, prever auxílio financeiro, apoiar a reforma agrária, exigir do Estado o cumprimento de seus deveres. A Igreja se mobiliza no envio de sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos e leigas missionários, no fortalecimento das CEBs (Comunidade Eclesiais de Base), no apoio econômico e moral, como também na confirmação do ‘‘Projeto Igrejas-Irmãs’’.
  Um pedido especial está no texto-base n.º 347: ‘‘Mobilização da sociedade brasileira para que o Congresso Brasileiro modifique o Código do Processo Civil - ‘‘proibindo a emissão de liminares nos conflitos com o latifúndio’’. Defender a Amazônia é salvar a ecologia, é apoiar a reforma agrária, respeitar a população e a cultura indígena e negra, protestar contra a corrupção nos cartórios e a omissão das autoridades, mobilizar a opinião pública em favor da vida, dos pobres e do chão amazônico.
  Fraternidade e Amazônia é um sinal dos tempos, é um grito de protesto e de alerta, é um compromisso com aquela gente e aqueles que clamam por vida, dignidade e justiça. Bispos, padres, religiosos(as), leigos(as) foram e são perseguidos e ameaçados. Missionários católicos encontram dificuldades, ao passo que outras religiões encontram mais facilidade para seu trabalho na região. Muitos já tombaram como mártires da Amazônia. Que os desertos se transformem em jardins, as armas em arados e todos vivamos como irmãos.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Indignação e hipocrisia

Josiane Rodrigues
  Desde a semana passada, o assunto mais discutido e mostrado pelos programas de TV é a morte do garoto João Hélio ocorrida no Rio de Janeiro. Ninguém acredita (ou acreditava) que um ser humano seria capaz de tal barbárie. Finalmente alguns filósofos, psicólogos, sociólogos começam a levantar a real e verdadeira razão de tudo isso: a desigualdade social existente em nosso país.
  Na semana passada também foi mostrado num programa de TV de Londrina um garoto de rua de aproximadamente 11 anos caído desmaiado numa esquina do centro. Pessoas achando que o garoto estivesse morto ligaram pedindo ajuda e a TV foi lá mostrar o garoto caído no meio-fio. O garoto desmaiou por excesso de consumo de droga. Por que as pessoas ficam tão indignadas com a morte do garoto João Hélio (a conseqüência) e não se importam com a vergonhosa pobreza que arrasa com tantas pessoas no país e que é exatamente a causa da violência que enfrentamos atualmente ?
  É claro que também estou indignada e chocada com o que foi feito com esse garoto de apenas 6 anos. Mas estou ainda mais indignada com a hipocrisia de milhares de pessoas que simplesmente ignoram a miséria e a desigualdade existente no Brasil. Desigualdade que leva à miséria e à exclusão milhares de pessoas que não têm acesso ao mínimo necessário para sobreviver: comida, saúde, emprego, moradia, educação, quanto menos sentimento ou culpa. Não há solução para a violência senão o basta a essa desigualdade social. Ilusão achar que qualquer coisa poderá mudar essa situação. Mais repressão, mais cadeias, cadeias de segurança máxima, redução da menor idade? Quem eram os garotos que roubaram o carro e arrastaram o menino João Hélio? Será que talvez ex-garotos de rua, invisíveis, pobres, miseráveis, sem nenhuma oportunidade, nenhuma esperança vivendo num mundo consumista e desigual?
  Agora fica fácil expor esses garotos na TV e julgá-los por boa parte da violência que sofremos, fica fácil apedrejar a casa do pai de um deles, pai que inclusive denunciou o próprio filho. Uma notícia ruim: se eu, se você, se nós não nos indignarmos com essas cenas, com essas injustiças, com essa exploração, será muito difícil mudar esta realidade. A elite se tranca em condomínios, atrás dos muros altos com cercas, se arma com seguranças, carros blindados, etc., se exclui para excluir. As pessoas precisam começar a perceber que não dá para se preocupar apenas com o seu mundinho, com a sua vidinha, com o seu dinheirão. É injusto num país como o nosso ver pessoas morando em mansões, ver pessoas com carros importados, ver madames fazendo compras de helicóptero enquanto pessoas simplesmente não vêem esperança nenhuma em suas vidas. Passando pela Bahia na semana passada, vi mais um exemplo dessa imensa desigualdade: crianças na beira das estradas com as mãos estendidas pedindo qualquer coisa, placas penduradas nos barracos de barro pedindo alimentos. Essa é a situação do nosso país. Hipocrisia é ignorar esses fatos, é indignar-se apenas com as conseqüências e não com as causas.
JOSIANE RODRIGUES é economista em Rolândia

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