Lança perfume

José Carlos Guitti
  Na Roma antiga, homens, mulheres, velhos e crianças eram levados à arena do Coliseu e lançados às feras, sob os olhares deslumbrados de uma multidão, incluída a nobreza que, saciada de sangue, reunia-se depois em banquetes e orgias. Qualquer semelhança com o nosso Brasil, não é uma coincidência. Uma semana após a tragédia que comoveu a todos, um bloco carnavalesco intitulado (que Deus os perdoe) ‘‘Sovaco do Cristo’’, saiu às ruas do Rio de Janeiro, esbanjando alegria. Saiu sambando talvez nas mesmas ruas onde ainda restam as marcas do sangue e dos fragmentos encefálicos do pequeno João Hélio. Inadvertidamente pisotearam-nas.
  Acabada a demonstração de alegria, provavelmente os integrantes do bloco dirigiram-se a bares e a restaurantes para beber e se banquetear. Pelo que foi dado observar, no bloco não havia gente de favela. Eram pessoas supostamente bem educadas e escolarizadas. Fiquei estarrecido com a falta de sensibilidade e de respeito mínimo à dor alheia.
  O Rio de Janeiro deveria ser uma cidade enlutada. A despeito disso, um bando de calhordas se reuniu para festejar um carnaval que ainda nem começou. Há algumas semanas, uma família virou tochas humanas num crime bárbaro. Não se ouve mais nenhuma notícia a respeito do assunto. Está esquecido, nesta triste nação sem memória, totalmente alzheimerizada.
  João Hélio e sua família terão sido notícia até o Carnaval, quando a mídia estará mais interessada em mostrar os desfiles das escolas de samba e dos trios elétricos.
  O Brasil é considerado a maior nação cristã do mundo, incluindo-se aí os católicos, os protestantes tradicionais e os neopentecostalistas. O nome de Cristo é pronunciado em todos os templos e a toda hora. No entanto, basta um bloco carnavalesco para anular todo o aparente fervor. Parece-me até que a ira de Deus se esgotou em Sodoma e Gomorra. Caso contrário, a cidade maravilhosa estaria reduzida a escombros e não só ela, mas todo o Brasil.
  Alguém duvida que as escolas de samba desfilarão nas avenidas daqui a alguns dias, assim como os trios elétricos e os bonecos de Olinda? Serão o assunto a dominar jornais, revistas e noticiários da TV. João Hélio estará esquecido, assim como foram esquecidas outras tragédias urbanas, para não falar das tragédias políticas. Das primeiras escorre sangue vermelho, rútilo, que seca no asfalto; das segundas, um sanguinho anêmico, branquelo, incapaz de reagir. Pobre povo brasileiro: tão cordial, pacífico, passivo, tolerante, insensível, irresponsável, desmemoriado. Em compensação, para anular tudo isso, tão festivo e descontraído.
JOSÉ CARLOS GUITTI é médico e professor de Pediatria na Universidade Estadual de Londrina


Vidas sucessivas explicando tudo

Walmor Macarini
  Se o sistema tradicional de crenças ensina que a vida de cada ser tem a idade de sua certidão de nascimento – assim entendendo que não teve existências anteriores – terá de explicar uma série de questões que têm a ver diretamente com as leis da sabedoria divina. Por exemplo, por que uma criança morre, por que outra já chega portando alguma doença, por que outra mais nasce sem visão, ou surda-muda, ou com deficiência física, ou alguma outra síndrome, e por que outras tantas chegam dotadas de todos os atributos e regalias e têm surpreendente aptidão para certas coisas.
  Este é o ponto falho desse sistema de crenças, porque condena o princípio das vidas sucessivas de um mesmo ser neste planeta mas não sabe explicar por que. Assim, converte o que se denomina Deus num ser insensível e capaz de permitir tanto sofrimento para alguns e alegrias e bem-aventuranças para outros.
  Henry Ford, o big boss da Ford, mudou todos os seus conceitos e redirecionou seu caminho para um amplo sentido de vida quando viu sua clarividência abrir-se para o entendimento de que tivera vidas passadas. Ele de repente despertou para a consciência de que para aqui veio e se foi e de novo voltou, e assim sucessivamente, dessa forma cumprindo o seu projeto terreno. Este homem fantástico, que desejou fabricar um carro que seus operários tivessem condição de comprar – isto significando que lhes pagava bom salário – foi um iluminado benfeitor da humanidade.
  Com toda a certeza Deus – da forma como cada qual o conceba – não designou que um pequeno ser passasse fome desde o ventre materno e que outro nascesse em berço de ouro, cercado de todas as benesses. Porque a verdade é que cada qual programou seu roteiro antes de aqui aportar, e o fez por razões múltiplas, individuais ou coletivas, mas consciente do que viera fazer aqui na Terra. Porque não há um destino partindo de fonte divina mas aquele que cada qual traçou para si próprio quando se aventurou em vir para esta dimensão terrena.
  O livre-arbítrio permitirá que cada um mude seu destino autotraçado previamente, mas não na totalidade. Como de um trem que o leva de um ponto a outro. Dentro dele se pode caminhar para trás e para a frente, sentar, trocar de lugar, dormir, fazer tantas coisas, mas o trem o está levando para a rota traçada. A ocorrência das vidas sucessivas de cada indivíduo torna compreensíveis as coisas que ocorrem – as atribulações, as dores e alegrias, os experimentos, os infortúnios e as vitórias – e assim a vida transcorre mais leve porque banhada pela luz do entendimento.
  Pela preexistência do espírito e pela pluralidade das vidas terrenas ou em outro ponto do Cosmo. Estamos aqui exercendo contratos que preestabelecemos para nós próprios e de cuja lembrança não temos memória, porque esse esquecimento é também do livre-arbítrio individual e do contrato, para que se opere o mérito de todas as coisas que se fizer e que venham a nos acontecer. O registro remoto do plano pré-fixado, presente no espírito, direcionará o rumo. O entendimento desse princípio faz desaparecerem todas as dúvidas e preconceitos. E até a idéia da morte passa a não mais assustar.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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