Nada é para sempre

Nélio Roberto dos Reis
  A Amazônia já foi mar, o deserto do Saara já foi floresta, a costa leste do Brasil já esteve colada na África. Mesmo que o homem não existisse sobre a terra, muitas mudanças aconteceriam, inclusive o aquecimento da Terra que já foi muito mais fria. Não é bom, quando autoridades e cientistas como Nicholas Stern, chefe do serviço econômico inglês, assustam leigos e crianças prevendo que em 50 anos a Amazônia vai secar. Pode multiplicar por cinco este tempo sobre o que ele falou e o que todos estes cientistas estão dizendo agora.
  Os desastres virão e, com certeza, o homem está acelerando muitas vezes este processo. Mas digo que se os brasileiros não tocarem fogo na floresta, ela ainda seguramente ficará lá por mais de 500 anos. Existem florestas na Europa exploradas racionalmente por mais de 450 anos e ainda continuam lá. A Terra é um mecanismo dotado da capacidade de se manter saudável e tem compromisso com todas as formas de vida e não necessariamente apenas com o homem, já dito por James Lovelock, cientista inglês, contrariando os fundamentalistas.
  Se não fôssemos tão destruidores, todos estes problemas (derretimento de geleiras, aquecimento global, queima da Amazônia) aconteceriam somente daqui a mais de dois mil anos ou mais. De qualquer forma, a Terra vai mudar e fiquem os senhores sabendo que o Brasil ainda tem pouca culpa nestes fatos recentes de destruição. Todo o mal que por aqui se faz, não equivale a um único estado do oeste americano, Califórnia. Todo prejuízo que está acontecendo na Terra e sendo mostrado na televisão sempre aconteceu, mas não tínhamos uma mídia tão eficiente, a televisão não tinha tanta competição por ibope e não se precisava vender tantos jornais.
  Volto a dizer que a Terra já foi muito diferente. Afinal, o que são sete dias para Deus? A grande diferença entre Ciência e Religião é que a última exige uma fé sem questionamentos. Se Deus nos criou à sua imagem e semelhança e nos deu inteligência, se não nos deixasse novos desafios para serem descobertos, ele não seria perfeito, não seria Deus e não teríamos que nos preocupar com ele. Dentro da inteligência que ele nos deu, vamos tomar iniciativas de desenvolver uma energia nuclear mais segura para pararmos de queimar florestas, diminuindo assim emissões de CO2 para a atmosfera, minorando o efeito estufa. Pararmos de construir hidrelétricas que destróem a natureza dos rios. Desenvolver com mais cuidado os alimentos geneticamente modificados para que possa sobrar mais espaço na Terra para o homem plantar mais árvores. Por enquanto, devíamos nos preocupar com problemas imediatos como: criminalidade, corrupção, desigualdade social, fome real dos pobres.
NÉLIO ROBERTO DOS REIS é professor na Universidade Estadual de Londrina


Crime sem castigo

Julieta Arsênio
  Lamentavelmente, a impunidade dos crimes de trânsito vem desenrolando há décadas em nossas cidades sem que se encontre alternativas de resoluções desses conflitos. Quantos casos prescreveram e outros caminham sem soluções? Vidas ceifadas injustamente sem que as leis possam prever (no sentido de antecipar medidas) e prevenir (no sentido de estar pronto para reagir) novos crimes. As estatísticas, que nos são apresentadas, apontam como causas de acidentes a falta de atenção do motorista, a não manutenção da distância do veículo que vai à frente e os avanços de preferencial (ou mesmo sinal vermelho).
  O motivo de tanto descontrole entre os motoristas é a ‘‘pressa’’. A estatística aponta que os acidentes têm diminuído, mas são maiores os números de mortos e feridos, ou seja, um veículo com vários ocupantes. Se por um lado a ‘‘pressa’’ é um comportamento indesejável, por outro, através dela encontraremos a falta de atenção, deixar de manter a distância do veículo que está à frente e a de desrespeitar a sinalização (preferencial/semáforo ).
  Na busca de se contextualizar o tipo do acidente, se o condutor foi negligente, imprudente ou imperito, basta este último, pois o condutor comportou-se como imperito (inabilitado) na sua condução. Como inabilitado, não deveria portar sua CNH (carteira nacional de habilitação), devendo portanto, ser cassada independente do julgamento do crime cometido. Para o crime, ele se submeterá às normas do Código Penal e do Processo Penal.
  Infelizmente, as perícias realizadas têm-se preocupado muito mais com as condições do veículo, das vias públicas e do ambiente de modo geral, do que com o condutor do veículo – apenas averigua se estava ou não alcoolizado e se agiu com dolo ou culpa. No entanto, conduzir alcoolizado, investigar se teve ou não a intenção de matar, nada mais são do que comportamentos manifestos desses condutores. É preciso entender que, se o teor alcoólico é medido pelo bafômetro (prova objetiva), ação intencional ou não (subjetiva) são causas que antecedem o comportamento expresso.
  Muitos se preocupam com a credibilidade que se deve dar ou não à subjetividade humana. No entanto, esquecem-se do quanto nossas leis são subjetivas em suas interpretações, tornando-se assim alguns crimes sem castigos. Alguns alegam que ‘‘os excessos praticados pelos motoristas poderão ser amenizados (e não solucionados) com a conscientização da população’’. Não se trata de uma conscientização de comoção coletiva, mas sim da sua própria conscientização, de si e do outro.
  Até quando vamos aguardar que a educação, punição e prevenção sejam a solução para a melhora do trânsito? Elas deveriam ser a solução para os ‘‘apressados’’. Ser um condutor hábil não se faz com cursos de uma semana de duração, mas através da vida toda, isto é se o mesmo tiver consciência de si mesmo e do outro. Só assim saberá valorizar o crime do qual participou e assumir o castigo que lhe compete.
JULIETA ARSÊNIO é psicóloga especialista em comportamento de trânsito em Londrina

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