ESPAÇO ABERTO
Celebração jubilar da Arquidiocese
Dom Orlando Brandes
A Arquidiocese de Londrina celebrará no próximo dia 25 de fevereiro seu Jubileu Áureo. O povo de Israel celebrava o Jubileu (Lev 25) também conhecido com o nome de Ano Santo. No início do Ano Jubilar tocava-se um instrumento feito de chifre de carneiro, uma espécie de corneta, chamado Jobel. Daí vem o nome Jubileu. Que é mesmo o Ano Jubilar ou Ano Santo? O que quer mesmo a celebração de um Jubileu?
1. Respeito pela terra. O Jubileu consistia em dar descanso à terra, aos animais e aos homens e, principalmente, realizar a redistribuição da terra. Assim se evitava a exploração, a ambição, o latifúndio. Na Bíblia, descansar equivale a meditar, contemplar, bendizer, rezar. Podemos dizer que o Jubileu é um chamado à reforma agrária, à ecologia e à oração.
2. Libertação dos escravos. Deus pede o fim da escravidão, exclusão, discriminação. Jubileu é festa da liberdade, dos direitos humanos, da dignidade humana. O significado central da festa jubilar era: Ninguém prejudicará seu próximo compatriota (Lev 25,17). Jubileu é festa do amor fraterno, da igualdade, da dignidade de todos.
3. O perdão das dívidas. O Ano Santo prescreve todo tipo de perdão das dívidas quer financeira e espiritual, quer moral e familiar. O Jubileu é um Ano Santo, é para a santidade de vida. É uma festa de expiação dos pecados pessoais e sociais. É um Ano da Graça do Senhor. (Lc 4,19).
4. Não prejudicar, não explorar os outros. Esta é a lei máxima do Jubileu. A terra volte ao seu dono, o escravo volte ao seio da sua família. Não haja exploração. É a lei da caridade contra todo tipo de corrupção. Como vemos, o Jubileu reorganiza a terra, a economia, a dignidade humana, a família, portanto, a justiça e a santidade de vida.
5. Habitareis a terra com segurança, diz o Senhor Deus, se observardes minhas leis (Lev 25,18). O Jubileu é um convite ao respeito a Deus como Senhor da vida e da história e aos seus mandamentos. Por isso, o Ano Jubilar chama-se também Ano Santo. Observar os mandamentos, colocar em prática a Palavra de Deus, eis o que pede o Ano Jubilar.
6. A Teologia do Jubileu é muito profunda e comprometedora. Preparemo-nos para esta festa purificando-nos dos pecados, perdoando a quem nos ofendeu e vivendo intensamente o amor fraterno. O Ano Santo pede por uma Igreja santa, um povo santo. A vontade de Deus é a vossa santificação.
Temos muito a refletir, a celebrar e a transformar com a festa do Jubileu de nossa Arquidiocese. Olhando para o passado vamos agradecer e aprender com os erros. Olhando para o presente, fixemos os pés no chão, pé-vermelho e olhando para o futuro, vamos combater a fome e a violência. Londrina, que a paz habite em tuas casas e que a solidariedade seja o novo nome da tua paz.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Sobre cotas na UEL
Maria Aparecida Vivan de Carvalho
A adoção de política de ações afirmativas pelo governo federal e o conseqüente sistema de cotas implantado nas universidades têm polarizado opiniões e gerado polêmica. Na Universidade Estadual de Londrina (UEL) o sistema de cotas foi aprovado em julho de 2004 e prevê que até 40% das vagas ofertadas em cada um dos 42 cursos de graduação devem ser reservadas para estudantes oriundos de instituições públicas de ensino e, até a metade das vagas provenientes desse percentual é reservada para estudantes que se autodeclararem negros. Uma comissão formada por representantes da comunidade interna e externa tem a tarefa de homologar as matrículas dos candidatos negros. Cientes de que estamos distantes de uma democracia racial e diante de significativa miscigenação de raças, torna-se tarefa extremamente difícil definir quem é ou não preto ou pardo.
Hoje a UEL tem 2.743 estudantes cotistas, sem mencionar o contingente de aprovados no concurso vestibular 2007. Acreditando que a universidade deve investir na potencialização da diversidade de estudantes, cabe-nos avaliar com seriedade o trajeto até aqui percorrido, identificar causas e mazelas, e construir nova arquitetura para o processo. Torna-se notório o compromisso de uma proposta que venha a abarcar para a universidade estudantes pobres e de baixa renda, independente da raça. O desafio está posto e estamos de mangas arregaçadas em trabalho de análise do sistema vigente.
Com essa perspectiva, a nosso ver, não se deve reduzir um sistema de inclusão no ensino superior à implantação de cotas, mas sim tratar de uma política ampla e ousada de enfrentamento das desigualdades sociais. Devemos exigir e lutar por uma inclusão social universalista com igualdade de oportunidades, onde haja harmonia entre mérito acadêmico e inclusão, cujo elemento norteador possa estar associado a critérios sociais, o que, a princípio, se constituirá em meio indeclinável de proporcionar maior representação de negros.
Vale mencionar que em nosso Estado existem leis que instituem e asseguram a reserva de vagas para estudantes indígenas nas universidades públicas, por meio de concurso vestibular específico interinstitucional. Além da preocupação com o ingresso, está o cerne de nossas ações que se voltam para a questão da permanência do cotista e dos estudantes em geral na universidade, procurando viabilizar condições pedagógicas e econômicas para a conclusão de seus estudos e o estabelecimento de programas que possam trazer contribuições efetivas no sentido de reverter o panorama de qualidade do sistema público de educação básica. Alterar o quadro de desigualdades sociais é um problema de toda a sociedade. Este é o desafio maior.
MARIA APARECIDA VIVAN DE CARVALHO é pró-reitora de graduação da Universidade Estadual de Londrina
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