ESPAÇO ABERTO
A banalização da vida animal
Maria Eugenia Moreira Costa Ferreira
A intenção inicial da Secretaria de Meio Ambiente (Sema) de Londrina de proceder à eutanásia algumas dezenas de gatos e cães recolhidos da rua e criados por uma senhora, mesmo estando eles razoavelmente saudáveis, expõe o problema da banalização da vida dos animais no contexto urbano. O ambiente da cidade, para ser equilibrado, não deve ser um meio estéril, sendo importante a presença de flora e fauna. Neste último caso, o gato, utilizado pelos egípcios e outras civilizações da antigüidade para caçar ratos nos celeiros de trigo, ainda hoje continua controlando a população de ratos, além de destruir com eficiência baratas e outros animais sinantrópicos. O cão, domesticado ainda antes dos gatos, para triturar os ossos que sobravam dos animais abatidos pelos homens primitivos, continua fazendo essa faxina nas ruas da cidade. Além disso, os animais de estimação têm uma afetividade muito desenvolvida, o que os coloca como fiéis companheiros de crianças, adultos sensíveis, idosos e até de pessoas depressivas, com baixa auto-estima ou internadas.
A alternativa de matar gatos e cães simplesmente porque não há um gatil ou canil para recebê-los, mostra o desrespeito para com a vida dos animais. Além de constituir um crime de abuso contra os mesmos, essa atitude truculenta e tacanha não se configura como um projeto de controle da população de cães e gatos.
A fauna urbana não tem que ser exterminada, mas manejada, gerenciada. Como cães e gatos se reproduzem muito rapidamente, o controle deve ser feito através de programas de castração em massa e de campanhas educativas visando a redução do abandono de animais domésticos, prática comum no mundo atual, quando cães e gatos se tornam objetos de consumo ou de desejo, rapidamente substituídos por outros itens. Também é preciso intensificar a fiscalização dos abusos cometidos, com penalização dos atos que configuram crueldade.
Mais correto seria a Sema recolher esses cães e gatos, castrá-los e colocar para adoção os mais bonitos e dóceis. Quanto aos gatos ferais, que apresentam temperamento arisco, selvagem, o correto seria a reintrodução assistida dos mesmos no meio urbano. Em Maringá, o Centro de Controle de Zoonoses procedeu à castração e à devolução ao meio de uma dezena de gatos que se abrigavam nos telhados do IML. Eles continuam lá, guardando seu território e evitando que o nicho ecológico seja reocupado por novas levas de gatos. Essa é a vantagem da devolução dos animais esterilizados ao local de captura, prática que vem sendo utilizada nos municípios que têm um plano de manejo dos animais domésticos.
MARIA EUGENIA MOREIRA COSTA FERREIRA é professora de Geografia, Planejamento Ambiental e Educação Ambiental na Universidade Estadual de Maringá e membro da Sociedade Protetora dos Animais de Maringá
Uma nova cultura de aprendizagem
Cinthia Gonzaga Aguillera
Nos últimos anos, vimos assistindo ao resgate de uma metodologia de trabalho antiga: o Método de Projetos. Os projetos são orientadores básicos das atividades no mundo do trabalho. Autores clássicos como Karl Marx já apontaram para o fato de que o trabalho é dignificante e constituidor do ser humano por seu trabalho inventivo, que parte de uma antecipação mental daquilo que se pretende: o projeto em si mesmo. Projetar é planejar intencionalmente um conjunto de ações para atingir um ou mais fins.
No campo da educação, clássicos como Dewey e Freinet já apontavam, há cerca de 100 anos, para o valor educativo de atividades de caráter globalizante por sua vinculação com o mundo real. O campo da educação vem reconstruindo e ressignificando as diferentes concepções acerca do Método de Projetos. Quando falamos em Pedagogia de Projetos, estamos nos referindo a uma lógica educativa bastante diferenciada do que se vem fazendo na maioria dos processos educacionais. Mudar a lógica educativa significa romper com tradições e a Pedagogia de Projetos apresenta diversas propostas de ruptura: romper com a desarticulação entre os conhecimentos escolares e a vida real, com a fragmentação dos conteúdos em disciplinas, em séries e em períodos letivos predeterminados, como horários semanais fixos e bimestres, romper com o protagonismo do professor nas atividades educativas, romper com o ensino individualizado e com a avaliação exclusivamente final, centrada nos conteúdos assimilados e voltada exclusivamente para selecionar os alunos dignos de certificação.
A idéia central da Pedagogia de Projetos é articular os saberes escolares com os saberes sociais de maneira que, ao estudar, o aluno não sinta que aprende algo abstrato ou fragmentado. O aluno que compreende o valor do que está aprendendo, desenvolve uma postura indispensável: a necessidade de aprendizagem. A metodologia de projetos atinge assim a diversos pressupostos da aprendizagem: partir de uma visão sincrética do assunto, passar por uma etapa analítica e fechar com uma visão sintética do problema estudado; proporcionar experiências de contato, de uso e de análise das informações acessadas; partir de situações propostas pela prática, questioná-la e ampliá-la à luz da teoria e retornar à prática a fim de intervir na realidade, transformando-a; trabalhar objetivos relativos ao saber, ao saber fazer e ao saber ser.
Essa metodologia, caracterizada por sua flexibilidade e complexidade implica, segundo Louis Not, exigências elevadas em relação aos educadores: passa a ser exigida deles uma grande cultura geral que vai muito além de uma única área de formação. O professor deverá ser um observador vigilante e constante das aquisições dos alunos, acompanhando se realmente se realizaram e promovendo atividades e recursos de ensino complementares, sempre que preciso, que incentivem os desenvolvimentos necessários.
CINTHIA GONZAGA AGUILLERA é psicopedagoga e coordenadora pedagógica de escolas particulares em Londrina
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