ESPAÇO ABERTO
Apocalipse?
Manuel Joaquim dos Santos
Em 2070 haverá menos água! Quer dizer, para beber! Porque os Oceanos terão mais e demais! Várias cidades litorâneas poderão nem existir. Os refugiados do clima serão em maior número do que os refugiados da guerra - que já não são poucos. E os conflitos ditos de sobrevivência se tornarão a tônica dos tempos difíceis do final do século XXI. Os países mais poderosos cobiçarão as riquezas que os outros ainda tiverem ou guardaram e as crianças perguntarão aos pais e avós como era viver no início deste dito século!
Infelizmente certos, os cientistas não deixam espaço para equívocos: a atividade humana interfere na aceleração dessas mudanças. Paradoxalmente, é uma boa notícia uma vez que aponta para uma ligeira possibilidade de se reverter o quadro a critério da boa vontade do homem. No entanto, mesmo que haja um recuo estratégico poderá ser tarde demais para evitar o pior.
Os países precisam crescer e ver seu PIB aumentar. A demanda é grande e a cobrança dos eleitores também. Entre crescer e não poluir - no atual momento dos combustíveis fósseis - eis o dilema! O discurso vai longe e fala-se em desenvolvimento sustentável ou em fontes de energia alternativa, mas na verdade não existe mágica: o fantasma do desemprego mata qualquer (pré) candidato e as fábricas, em suma, precisam continuar poluindo para produzir.
Apocalipse? Ainda não! O clima está mudando. E com ele virão prejuízos incontáveis, mas ainda não será o fim! É preciso afirmar com todas as letras que existem outros caminhos para o desenvolvimento econômico e exploração do planeta Terra. Devem-se mudar os paradigmas e apostar num desenvolvimento que comporte a variável ambiental e vice-versa. Temos que acabar de vez com conceitos neoliberais e puramente capitalistas que encaram a questão ambiental como coqueluche de meia dúzia de sonhadores. Investir na preservação pode dar lucro sim. Dará lucro para a maioria e para as gerações futuras, que é o mais importante! A própria CNBB na Campanha da Fraternidade 2007 aponta esse caminho para o desenvolvimento da Amazônia.
Os países ricos necessitam de uma urgente consciência global. Olhar simplesmente para o seu próprio umbigo, ontem como hoje, é suicídio. A Europa tem dado amostras de entender os alertas que os cientistas emitem desde a década passada. Compete aos EUA sair da miopia arrogante que os têm caracterizado e aderir de vez a atitudes mais sábias, embora aparentemente mais dolorosas. Creio que o senhor Bush já está dando amostras dessa conversão. Opção? Não, simplesmente instinto de sobrevivência!
Nós poluímos pouco. Nos últimos dois anos inclusive, se evitou a emissão de 430 milhões de toneladas de gás carbônico - cerca de 15% de tudo que os países ricos teriam que diminuir. Mas as nossas atitudes ainda são tímidas e dependendo em termos quase absolutos da energia elétrica vinda do aproveitamento dos nossos rios - só na Amazônia está prevista a construção de mais de 100 hidroelétricas - imagine-se o que sucederá com a previsão de grandes períodos de seca? O Brasil será sim afetado e muito por todas as alterações climáticas que são esperadas ao longo do século XXI. Arregaçar as mangas e correr atrás de alternativas é o caminho árduo, mas inteligente que possibilitará às gerações vindouras usufruírem deste planeta como nós temos a graça ainda de fazê-lo.
MANUEL JOAQUIM DOS SANTOS é padre na arquidiocese de Londrina
Um discurso democrata
Ary Chimentão
Estamos sendo tratados como simples elementos submissos às decisões e imposições do poder. Democracia? Como seria bom o direito de nos expressarmos e falarmos, mas sermos ouvidos. O que sentimos não nos dá a certeza do cumprimento dos outros quesitos essenciais de um povo livre. Estamos buscando o tudo no nada! Estamos buscando, implorando, sentindo, morrendo, criando nossos filhos diante de tanta liberdade, saudade, sentimentalismos! Sim estamos tentando, nos enclausurando e acreditando em dias melhores, acreditando que os donos do poder deixem um pouco da poesia e com alegria anunciem uma nova alvorada.
Estamos diante do caos social, de um regime que anuncia, que dissemina que aniquila e devassa. Estamos diante de uma catástrofe! Será que não enxergam o tudo no nada, as pessoas na calçada e a miséria, enfim? Sim, estamos diante de um regime democrata que está nos custando vultosas somas em tributos, horas de sono, anseios e sonhos, buscando algo que não nos proíba de produzir, inovar, pensar, progredir, algo que não tenhamos que dividir o temor de buscar o empreendimento, a evolução, a produção de um povo sofrido e oprimido.
Estamos diante de um regime que escolhe somente alguns valores da democracia. Estamos diante de um regime novo de governo, diante do regime de pessoas que se expuseram por dias melhores, mas tudo em vão. Só nos resta a emoção da teoria, da fábula, da alegria de ser feliz. Até quando? Por favor senhores do poder, mostrem para o que foram eleitos. Façam uma democracia, enfim!
Poderia transcrever aqui nossos direitos de cidadão brasileiro, previsto na Constituição, mas seria uma reprise do que o governo do povo para o povo sabe perfeitamente. Vou deixar algo para se pensar, refletir e começar a levar a sério. Assim como existe a fadiga dos metais, existe também a fadiga dos contribuintes, a fadiga da dar sem receber, do contribuir sem ter o retorno, da proibição de se produzir e podemos a qualquer momento chegar a esta fadiga, chegarmos à exaustão, assim como todos estão chegando, com o crescimento exponencial da economia informal em busca da sobrevivência. Quando faço o bem, sinto-me bem, e quando faço o mal, sinto-me mal (Abraham Lincoln).
ARY CHIMENTÃO é advogado em Londrina
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