Recomeçam as aulas

Dom Orlando Brandes
  1. Educar é um ato de amor. Pascal dizia que um gesto de amor vale mais que toda a massa de matéria do universo. O professor ama seus alunos como filhos. Sente-se aliado deles, participante de suas vidas, sua história e seu destino. Aluno é um filho a ser projetado na vida. Professor que ama não é mero profissional, espectador, assistente, muito menos múmia embalsamada. Pelo contrário, coloca coração, emoção e oração no seu trabalho, porque amar é compreender, amar é cuidar, amar é doar-se, amar é promover o outro.
  2. Educar não é só uma profissão, é uma missão. Para ser missão o ato de ensinar é uma vocação, um chamado, um dom. O profissional é um técnico, cumpre deveres, marca ponto, mas não está motivado, entusiasmado, empolgado com sua tarefa. Arrasta-se, reclama, murmura, desanima. O educador que se sente vocacionado tem prazer em ensinar, gosta do que faz, crê no que faz, ama o que faz. Seu bom humor, sua competência, sua fé conferem sentido, motivação e estímulo ao seu trabalho que é uma missão. Joga fora a indiferença, a apatia, o desinteresse. Não procura vencer, mas convencer. Repassa ao aluno o gosto e o prazer de aprender.
  3. Educar é gesto político, não partidário. Trata-se de formar a consciência, preparar líderes, despertar opções, ativar potencialidades. Educar é um ato político porque significa ajudar na transformação da realidade, na promoção do bem comum, na gestação de uma sociedade nova. Não basta a modernização das escolas, mas transformação da realidade pelo desenvolvimento das pessoas, exercício da cidadania e qualificação para o trabalho.
  4. Educar não é só ensinar, é também aprender. O educador ensina aprendendo, nunca deixa de ser discípulo, nunca pára de se atualizar, de buscar cultivo e crescimento. Ele aprende com os alunos, com os outros colegas, com a direção da escola, com a experiência de vida. Participa das reuniões, cumpre os compromissos, atualiza-se no seu campo, deseja ser mais. Não se contenta em aplicar metodologia, técnicas, mas desenvolve sua sensibilidade, emoção, transformando a informação em conhecimento e o conhecimento em experiência.
  5. Educar é um ato sacerdotal. A Bíblia ensina que os educadores brilharão no céu como estrelas. Jesus diz que seus nomes estão escritos no céu. Educar é ajudar o outro a ser melhor, ser mais, viver com dignidade. Educar é salvar as pessoas do desemprego, da inutilidade, do vazio. É oferecer oportunidade de sucesso, prosperidade, dignidade, aperfeiçoamento, conscientização. O educador é pontífice, é sacerdote, fabricador de pontes. Sua missão vai além dos horizontes da família e da sociedade.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Cotas no vestibular

Antonio Fidelis
  Muitos dos estudantes que têm prestado vestibular na Universidade Estadual de Londrina (UEL) disputando uma das vagas pelas cotas, vêm percorrendo uma verdadeira via crucis para se matricular no curso para o qual se inscreveram. Muitos deles só têm conseguido a matrícula por ordem judicial, em mandado de segurança. Duas dificuldades se apresentam para o aluno oriundo de escola pública, para o negro ou índio.
  A primeira é aquela situação onde o aluno se autodeclara de origem negra ou índio, passa no vestibular, faz a matrícula, mas depois tem que passar por uma comissão instituída pela UEL, a qual de forma subjetiva, tem o sacrossanto poder de dizer se aquela pessoa é ou não negra, ou índio. Se não for considerada negra ou índio, a matrícula será negada.
  A segunda é aquela do aluno que estudou em escola pública, se inscreveu para disputar uma vaga nesta modalidade, passa no vestibular, mas a matrícula é negada porque o aluno estudou uma das séries do ensino fundamental com bolsa de estudo ou estudou em uma instituição particular de cunho eminentemente social, como no caso SESI que lhe ofereceu ensino gratuito, em face de sua carência econômica.
  A interpretação teleológica e sistêmica da norma, conjugando fatores e circunstâncias históricas, políticas e sociais que regeram sua formação e sua aplicação, deve ser interpretada no sentido de que a norma foi criada para viabilizar que estudantes de baixa renda, possam cursar uma universidade pública, dentro do princípio isonômico que determina se trate desigualmente os desiguais, na medida de suas desigualdades.
  A Hermenêutica em sentido diverso maltrata a garantia fundamental do acesso do cidadão ao nível universitário, vergastando o direito fundamental da pessoa, já que o espírito da norma criada, é de que pessoas pobres, tenham sua reserva de cotas e igualmente como outro cidadão de posses, possam cursar a universidade pública.
  O que se vê hoje, em regra, são que alunos de grandes posses, oriundos de escolas particulares, têm muito mais chance de cursar uma universidade pública, enquanto que o aluno pobre que não tem condições de pagar uma faculdade particular, e em notória desigualdade com aqueles, ver paradoxalmente vedado seu acesso a esta universidade pública.
  O objetivo principal da instituição de cotas para pessoas oriundas de escola pública é a diminuição da desigualdade histórica étnica e social no Brasil. A carência econômica pode ser provada de inúmeras formas e não, necessariamente, com a comprovação de ter cursado apenas instituições públicas de ensino. O sistema de cotas não é obrigatório nas instituições públicas de ensino superior, mas quando instituído deve buscar alcançar os verdadeiros objetivos de tal sistema, com interpretação teleológica do espírito da lei. Vale lembrar que o sistema de cotas foi criado para dar chance àqueles que não possuem as mesmas condições de acesso à educação de outros membros da sociedade, como uma forma de inclusão social, sobretudo porque normas e leis devem ser aplicadas em estrita harmonia com a Constituição.
ANTONIO FIDELIS é advogado em Londrina


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