ESPAÇO ABERTO
Os heróis brasileiros
Servio Borges da Silva
Na segunda guerra mundial, quando a Alemanha invadiu a França, muitos ficaram chocados, pois o país invadido era do mesmo tamanho e tinha as mesmas condições do invasor. Perguntavam: como era possível uma coisa dessas? Soube-se, mais tarde, que muitos franceses colaboraram com o regime adesista de Vichy e com os invasores pela simples omissão esperando que as as coisas logo estivessem como eram antes, ou seja, Paris é sempre uma festa.
No Brasil, está acontecendo coisa parecida. Muitos estão colaborando com aqueles que estão saqueando os cofres públicos e dilapidando o patrimônio público, roubando nossas pequenas economias e transformando este num país de Faz-de-contas. Os deputados estão trabalhando pelo bem público, votamos em alguns com passado pouco recomendável e não nos metemos em política porque é coisa suja, pois nós os limpinhos não vamos nos intrometer nisso.
Já estamos colhendo os frutos da nossa insondável omissão: o troca-troca de partidos já começou, a compra de parlamentares para votar em determinado candidato para presidente da Câmara é uma realidade conhecida de todos. Porém, a letargia do nosso povo é tão grande que chegamos a ouvir comentários do tipo: Não adianta fazer nada, eles vão continuar ludibriando e roubando; Tudo sempre acaba em pizza; O Brasil não tem jeito.
Mais trágico do que roubar o dinheiro público, com as conseqüências sabidas tais como a mortalidade infantil; a falta de leitos nos hospitais públicos; a falta dos serviços públicos essenciais e tantas outras necessidades básicas da população mais carente, que deveriam ser custeadas pelo dinheiro público roubado , é a omissão geral, o silêncio, principalmente, dos que podem falar, dos que devem agir e permanecem calados, dos que têm o dever profissional de denunciar as falcatruas e, ao invés disso, participam delas e do saque aos cofres públicos e assistem à imensa roubalheira.
Aonde estão as chamadas forças vivas da nação que não atuam? Cadê os chamados clubes de serviço, entidades civis e todos os organismos que compõem o quadro social? Tudo isso está acabando com a vida de uns e com os sonhos de outros, está mutilando, física e mentalmente, as novas gerações e devastando o Brasil do amanhã que devia ser muito bonito.
Daí porque a violência está aumentando nas grandes cidades, os ataques até às delegacias de Polícia, a ousadia dos meliantes, porque o dinheiro destinado às obras e serviços públicos é sempre pouco. Por tudo isso, termino gritando com Martin Luther King: Eu vos suplico, tenham indignação.
SERVIO BORGES DA SILVA é advogado em Londrina
A hora dos negros brasileiros
José Vicente
A tecnologia nos permite acompanhar o momento exato do lançamento de um míssil nas várias guerras e conflitos espalhados ao redor do globo, em tempo real e da comodidade da poltrona da sala. Também podemos escolher o carro novo personalizado, efetuar compra e o pagamento de artigos de luxo nos diferentes centros de consumo global e, ainda, namorar, noivar e até mesmo casar via Internet.
Todavia, nem tudo são flores e nem mesmo os cânones revolucionários do novo tempo conseguiram solucionar os grandes temas que foram relegados em segundo plano ou que não receberam atenção. O formato do noviço tempo é incompatível com as velharias e os entulhos retrógrados do passado. Para colocar-se por inteiro, pronto e habilitado para conviver com o tempo atual é indispensável superar, corrigir e deixar no seu devido lugar, no passado, ideologias, dogmas, teses e posições políticas ou de qualquer outra natureza que, justamente, foram o motor e o motivo dessa novíssima construção.
Desigualdade e discriminação racial, temas de profundo impacto na trajetória histórica brasileira, foram tratados com desapreço e desinteresse pelo país e, agora, coloca todos os brasileiros diante do indubitável: a hora e a vez dos negros brasileiros.
Os acalorados debates que perpassam todo o País na discussão do Estatuto da Igualdade Racial na atualidade e de Cotas dão a dimensão e coloca-se por inteiro a amplitude do desafio extraordinário que, certamente, submeterá aos mais rigorosos testes os fundamentos e a solidez das instituições republicanas.
Instalação do ódio racial. Violação do princípio Constitucional da Igualdade. Inexistência de raça do ponto de vista científico. Racismo às avessas tem sido a média dos argumentos contrários e, muito desses sustentados por aqueles que ao longo de todo esse tempo não levantaram uma palha qualquer para pensar, apresentar propostas sérias e honestas para sua solução.
O Brasil precisará escolher o caminho a seguir: manter intocado o privilégio de poucos, colocar-se de costas ao profundo descolamento e a ruptura do seu tecido social. Igualdade de oportunidades e participação na vida nacional asseguradas que permitam fundir os dois brasis e, definitivamente, debelar de uma vez por todas a grande chaga que sempre corroeu a possibilidade da felicidade geral da nação e de todos os seus filhos, que reconstruirá o respeito à pessoa humana, indiferente da cor da sua.
JOSÉ VICENTE é presidente da Afrobras e reitor da Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares em São Paulo
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