A geladeira da onça

Luiz Eduardo Cheida

Esta semana, na estrada que corta o Parque Mata dos Godoy, um carro veloz atropelou uma linda suçuarana. Desde há muito não se supunha onça por estas bandas. Existia. Não existe mais. O motorista seguiu, lamentando o prejuízo na lataria. E qual o prejuízo quando a mata perde um puma?

Este carnívoro come porco-do-mato, veado, quati, paca e capivara, animais que alimentam-se de sementes e plantas ainda pequenas.

Quem controla a população destes herbívoros são carnívoros como a suçuarana. Assim, onde ela existe, os herbívoros não explodem em número. E as plantas têm chances de crescer. Mas, sem o predador, sua população cresce tanto, que o resultado é a devastação.

Sem grandes carnívoros, a floresta é pobre. Definha e acaba. Por isso, cada onça morta é um duro golpe na floresta.

Há 40 anos, Manoel de Oliveira sacolejava no lombo da mula, por entre as perobas da mesma Mata dos Godoy.

Descida íngreme, e a mulinha resfolegava. A passo miúdo, a espertinha punha os cascos de trás, em cima dos cascos da frente. Com precisão geométrica.

Dentro da mata, no cotovelo da banguela, próximo a um riacho preguiçoso, o ar gelado começava a se enfiar pelo furo da botina do viajante e subia até sua garganta. O corpo respondia, num contragolpe de arrepio, que começava no pomo de Adão e só parava no dedo do furo por onde entrava o vapor.

Era ali, a geladeira da onça. Local de onça beber água. De todas as cores: pardas, pintadas, melânicas.

Em Londrina, corriam histórias sobre a geladeira. Até as mulas tinham ciência das onças cuja profissão era pregar susto nos passantes.

As mulas deviam mesmo saber porque, naquele dia, a mulinha do seu Manoel, ao botar as patas no riacho e levar uma ferroada de marimbondo-cavalo nos fundilhos, imaginando a onça de seus pesadelos fincada em sua anca, desrespeitou a geometria dos passos e, sem aviso e sem consentimento, de um pulo, varou as águas, levando no peito dois ipês e uma desprevenida aroeira.
Sumiu.

Seu Manoel chegou ao destino, a pé, dois dias depois. Zangado, nem cumprimentou a mulinha medrosa, que pastava de rédeas soltas no piquete da fazenda. E foi direto consertar o furo da botina.

Era assim, naqueles tempos, a pirraça dos pioneiros do norte do Paraná. Hoje, a geladeira da onça é só uma curva asfaltada, um riacho que ninguém vê, e uma placa: cuidado com os animais.

É preciso muito cuidado, mesmo. Hoje em dia, tem muito animal no volante. Pena que os bichos não saibam ler.

LUIZ EDUARDO CHEIDA é médico e deputado estadual eleito (PMDB) por Londrina





PAC, Lula e suas metáforas

Daniel Augusto Maddalena

O mandato passado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já havia sido marcado por frases feitas e ações inacabadas, governo carregado de crises e distribuição de miséria com paternalismo exacerbado. Neste ano, com novo mandato, Lula parece continuar ancorado na mesma característica, vide recente pronunciamento do lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC.

Diz que serão investidos R$ 503,9 bilhões até 2010, mas poucos serão os que se lembrarão da cifra na data final. Se tomar como exemplo o mandato passado, surge um medo de que tal quantia seja escoada pelas valas das obras inacabadas, ou mesmo as que não têm eficiência e eficácia alguma frente às necessidades de infra-estrutura que tem o país. Ou ainda, que o valor se esfarele pela sede das empreiteiras que fazem os buracos que nos engolem depois, sem contar no receio de que o investimento tropece em obstáculos políticos como os mensalões.

Lula, mais uma vez utilizando suas metáforas oportunas, afirmou que ''não entraria na Rua Augusta a 120 por hora''. A frase de efeito até combina com o seu histórico na direção do país, apoiado em uma profunda filosofia jovial. Talvez nosso presidente esteja saudosista e tenha se espelhado no milagre econômico daqueles tempos e que tanto ele quanto seus amigos criticavam e combatiam como um monstro voraz. Ética é uma questão de ótica. Mais uma metáfora e nada como estar do outro lado da mesa para enxergar o mundo diferente.

Para manter o motor acelerado, o consumo será alto. Somado ao fato de tal plano não prever o enxugamento necessário nos gastos do governo, tampouco uma correta adequação tributária, o ''veículo'' já sai sobrecarregado, com peso excessivo, forçando ainda mais o motor aos gastos. O caminho fica perigoso, com alto risco de déficit orçamentário e de novos impostos que serão criados para diminuir o prejuízo causado.

O presidente, na insistente postura populista, vocifera frases prontas, desenhadas pelos seus publicitários de plantão, prometendo mundos e fundos em longo prazo, pois tais promessas são as mais difíceis de serem cobradas, já que a memória do povo é curta e imediatista. Basta olhar para trás e perceber que as novas promessas na verdade são reedição de compromissos feitos em sua primeira campanha e até hoje descumpridas sistematicamente. Acredite quem quer acreditar.

O possível efeito gerado pelo PAC é pontual. Cria uma bolha de esperança para alguns incautos e melhora - se ''colar'' - o risco Brasil lá fora. O plano traz em forma de promessas o que é de obrigação fazer. Contraria algumas normas do bom senso e da credibilidade na seriedade de qualquer um. Afinal, quando se entrega ''o volante do país'' para que o presidente o dirija, espera-se muito mais que medidas de longo prazo e inexequíveis, mas que as obrigações sejam criteriosamente observadas. O país necessita de mais ações e menos papéis assinados.

DANIEL AUGUSTO MADDALENA é consultor especialista em cooperativismo em São Paulo

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