Bolívar, Uncle Sam e as línguas estrangeiras

Telma Gimenez
  A reunião de altos mandatários de governos latino-americanos no final de semana no Rio de Janeiro foi objeto de ampla cobertura da imprensa. Destacaram-se os recém-eleitos presidentes de uma possível ‘‘esquerda’’ sul-americana, cujos ícones oscilam entre Bolívar e Uncle Sam. Se o que se pretende é incrementar as ações regionais, é crucial pensar sobre como faremos essa comunicação e, assim, a integração continental não pode acontecer ao largo das políticas de ensino de línguas estrangeiras. Se a União Européia é fonte inspiradora, torna-se essencial discutir o planejamento lingüístico tal qual faz o Conselho da Europa.
  Encontro recente de professores de inglês de oito países da América Latina em Sorocaba (SP), sob os auspícios do Hornby Educational Trust, revela que, se no discurso dos presidentes a articulação geopolítica se mostra desejável, as ações de seus governos são, no mínimo, ambíguas.
  Com exceção do Brasil, cuja obrigatoriedade de oferta da língua espanhola no ensino médio demonstra interesse na promoção de laços mais duradouros com os países irmãos, todos os demais representados (Argentina, Chile, Colômbia, Cuba, México, Peru, Venezuela) caminham na direção do fortalecimento da língua inglesa. Mesmo a Venezuela de Chávez firmou recentemente convênio com o Conselho Britânico para ensino de inglês nas escolas bolivarianas, em nível pré-escolar.
  Configura-se assim um quadro em que a globalização é percebida na América Latina como oportunidade para que esses países preparem sua força de trabalho com fluência na língua inglesa e se tornem atraentes para investimentos estrangeiros assim como incrementem suas relações comerciais com o resto do mundo. A introdução da língua inglesa cada vez mais cedo no currículo escolar é parte dessa estratégia, assim como a questionável adoção dos padrões ditados pela comunidade européia.
  Nesses encontros raramente se ouve falar na necessidade de aprendizado da língua portuguesa. A iniciativa de aproximação lingüística parece vir principalmente do Brasil. Os demais ‘‘hermanos’’ preocupam-se mais em fortalecer seus cidadãos na língua do Uncle Sam. Isto nos faz pensar até que ponto o Mercosul e a integração latino-americana não passam de projetos ‘‘para inglês ver’’.
TELMA GIMENEZ é professora de língua inglesa na Universidade Estadual de Londrina


Democratização do intercâmbio cultural

Luciana Jorge Rodrigues
  Durante muito tempo apenas os filhos da elite privilegiada brasileira tinham condições financeiras de estudar no exterior. Naquela época, os altos custos com passagens aéreas, cursos e acomodação restringiam a poucos a vivência de uma experiência rica e única. Hoje este sonho se mostra cada vez mais viável para a classe média. Novos programas de intercâmbio trouxeram uma certa dose de democracia a esta experiência.
  Os programas de trabalho remunerado possibilitam aos jovens com conhecimento intermediário em inglês a chance de trabalhar legalmente nos Estados Unidos. Como os intercambistas recebem salário em dólares e têm suas acomodações subsidiadas pelo empregador, a possibilidade de vivenciar outra cultura tornou-se possível. Mesmo que os pais sejam na maioria os investidores destes programas, é fato que o retorno do investimento vem em três meses, pois a hora trabalhada é de US$ 5,15 (sem gorjetas). Isso proporciona ao participante vivenciar a experiência de ganhar seu próprio dinheiro e, ainda melhor, viver fora do país.
  O programa mais revolucionário é o ‘‘Au Pair’’, baby sitter nos EUA. Por apenas US$ 500 de investimento, já com passagem aérea internacional e seguro saúde, meninas entre 18 a 26 anos têm a chance de morar um ano em solo americano. O salário mensal é de US$ 556,20, incluindo quarto privativo, bolsa de estudos e direito a férias remuneradas. Este programa tem muito mais benefícios do que custo e possibilita a ‘‘Au Pair’’ vivenciar o cotidiano de uma família americana.
  O mais tradicional de todos os programas - o high school (ensino médio no exterior) é hoje oferecido em dezenas de países. Entre eles o mais acessível é o high school americano, US$ 4.990,00 por um ano (aproximadamente R$ 11.200). Na ponta do lápis o valor do programa equivale aos gastos com educação, esporte, alimentação e lazer que o jovem teria se permanecesse no Brasil. Porém, o estudante retorna mais amadurecido, fluente em inglês e mais flexível para enfrentar novos desafios.
  Enfim, ter uma experiência internacional é viável, é só uma questão de planejamento.
LUCIANA JORGE RODRIGUES é franqueada de uma empresa intercâmbio cultural em Londrina

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