ESPAÇO ABERTO
Queda das vendas no comércio: culpa de quem?
José Lima do Nascimento
Foram quase seis meses até a definição da Convenção Coletiva de Trabalho 2006/2007. Funcionários e patrões fizeram assembléias e as decisões foram registradas na Delegacia Regional do Trabalho. O documento, firmado no dia 25/10/06, é bem claro, sem armadilhas nem surpresas. Surpreendeu-se quem não participou das discussões. Quando dezembro foi chegando alguns comerciantes descobriram como o comércio funcionaria em dezembro de 2006. A maior surpresa deles foi saber que o domingo negociado era o dia 17/12.
O fator extra é que em 2006 o dia 24 de dezembro caiu no domingo. Nos últimos anos isto só havia acontecido em 2000, 1995 e 1989. A próxima vez será em 2017. Todos os anos trabalhamos apenas um domingo em dezembro. O horário especial referia-se, além do Natal, ao aniversário da cidade, 10 de dezembro, sempre trabalhado e compensado depois. Como em 2006 o feriado municipal caiu num domingo, ficamos sem essa data para negociar.
Não se pode culpar o horário de funcionamento das lojas pelo desempenho do comércio. Quem quer comprar, compra, basta ter dinheiro. Em dezembro, o comércio ficou aberto das 8 às 22 horas durante 13 dias, das 9 às 18 horas em dois sábados, das 9 às 20 horas no sábado 23/12, e no domingo 17/12 das 9 às 17 horas. Tempo não faltou. Dinheiro sim.
Há tempos que o 13º salário é um recurso para pagar contas atrasadas. Os números do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC) comprovam isso. Basta conferir quantas pessoas conseguem limpar o nome no mês de dezembro.
Se o problema do comércio fosse horário, bastaria que criássemos turnos de trabalho como nos shoppings, de seis horas por dia. Poderíamos estender o horário até as 20 horas todos os dias. Resolveria o problema e, de quebra, geraria milhares de empregos. E por que uma boa alternativa como essa não sai do papel? Porque quem vive o comércio, como os comerciantes que participam das negociações, sabe que é a renda que movimenta a economia.
Por isso é que às vezes demora-se quatro, seis meses para assinar o acordo, depois de tudo minuciosamente analisado. Fácil é criticar sem ter participado de uma decisão. O que muitos comerciantes esperam de seu sindicato são fórmulas milagrosas que farão aumentar as vendas de seus estabelecimentos, nem que para isto seja preciso passar por cima de direitos trabalhistas. Neste meio não existem milagres. O que deve existir é trabalho, dedicação, bons produtos, bom atendimento, respeito ao consumidor e, principalmente, respeito ao trabalhador, que é quem traz os resultados à empresa.
JOSÉ LIMA DO NASCIMENTO é presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Londrina
O desafio das urnas: Lula e o PAC
Antonio Delfim Netto
Ao reelegerem o presidente Lula, com uma maioria expressiva de votos, os brasileiros manifestaram de forma muito clara que desejam a retomada do desenvolvimento econômico. Na minha visão, no entanto, o recado completo que saiu das urnas vai um pouco além: o que se pede é que o crescimento venha combinado com a redução das desigualdades, o que exige uma abordagem de política econômica um tanto mais complexa. Creio que esse é o desafio que a equipe de governo pretendeu enfrentar na sofrida preparação do Programa de Aceleração do Crescimento - o PAC - anunciado ontem por Lula.
Recentemente muitas pessoas continuaram discutindo os problemas como se não tivessem entendido o recado do segundo turno, quando Lula venceu em todos os Estados - com uma única exceção. Reafirmou-se de forma contundente a idéia que a sociedade não quer mais conviver com a mesmice da estagnação econômica: quer um segundo mandato com retomada do crescimento mas com relativa melhora na desigualdade da distribuição da renda entre as pessoas e entre as regiões do país.
Crescimento significa investimento e o que se pretende é aumentar o investimento sem cortar o consumo presente, mas isso só se obtém aumentando a eficiência do sistema econômico. Precisa realmente aumentar o investimento do Estado, porque ele é o complemento necessário do investimento privado e precisa simultaneamente atacar as ineficiências do sistema estatal e melhorar as condições de operação do sistema econômico em muitas áreas. Se abandonar a idéia de controle das despesas de custeio estatais e desistir de enfrentar as reformas que precisam ser feitas, a começar pela das relações de trabalho, os efeitos do programa serão pequenos. O crescimento acaba ficando aí mesmo em torno dos 3% ou 3,5% do PIB e o processo de redução das desigualdades continua do jeito que está.
Agora, se houver realmente a disposição firme de remover os problemas de organização da atividade empresarial, como por exemplo tornar mais eficientes e rápidos os registros das sociedades, reduzindo o tempo de instalação de uma empresa e de seu fechamento, flexibilizar o mercado de trabalho, desonerar as folhas de pagamentos, reduzir os spreads financeiros e aumentar a competição no sistema bancário, dentre muitas outras medidas, certamente aumentará muito a eficiência da economia.
O Programa de Aceleração do Crescimento do governo Lula estará então de bom tamanho dependendo do que ele apresente como ingredientes para aumentar essa eficiência, tornando perfeitamente possível alcançar os dois objetivos recomendados nas urnas.
ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PMDB-SP
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