ESPAÇO ABERTO
Filhos do Concílio
Dom Orlando Brandes
Há 40 anos concluía-se em Roma o Concílio Vaticano II. Pesquisas abalizadas dizem que só 6% dos católicos aderiram ao Concílio. Isso equivale a dizer que o catolicismo continua sendo devocional e sacramentalizador. Quando chegaremos a um catolicismo bíblico? Social? Ecumênico? Missionário? As grandes mudanças promovidas pelo Concílio e que chegaram ao povo são: mudanças litúrgicas, a promoção da dignidade e missão dos leigos, a Igreja ministerial, o maior diálogo com o mundo, conhecimento da Palavra de Deus, democracia e liberdade na Igreja.
Nos dias atuais sentimos necessidade de uma Igreja mais profética, de uma espiritualidade bíblica e de comunhão. Suspiramos por uma Igreja santa. Por outro lado, vemos sinais fortes de desafeto pela Igreja, de ameaças neoconservadoras e aumento de movimentos com marcas pietistas. Voltou o demonismo, o pietismo, o conservadorismo. As pastorais estão enfraquecendo e as seitas proliferando. Há muita devoção e pouco Evangelho. As novas gerações não recebem mais o ensino religioso. Crianças de Primeira Eucaristia e jovens crismandos são fugitivos, engrossam a fila e a multidão dos afastados.
Como filhos do Concílio, temos um longo caminho a percorrer. As questões mais difíceis e talvez as mais necessárias propostas pelo Concílio são: o ecumenismo, a consciência missionária, a dimensão social da fé, o diálogo com a modernidade e a ciência. Nestas questões estamos ainda no começo. O Papa Bento XVI quer reforçar o ecumenismo, a missão da Igreja, o diálogo com os jovens. É preciso vencer a ditadura do relativismo, diz o Papa.
Segundo o famoso teólogo Pe. Comblin, o Concílio tem sete palavras-chave: a pessoa humana, a liberdade religiosa, o povo de Deus, o colégio episcopal, o diálogo, o serviço, a missão. O que importa mesmo é salvar o espírito do Concílio: espírito de comunhão, de tolerância, de liberdade, de diálogo. A esperança maior do catolicismo está na América Latina, pois a Europa virou museu. A África e a Ásia são continentes de missão.
Hoje vivemos a cultura da pós-modernidade, o fosso entre ricos e pobres é cada vez maior, as religiões campeiam com força vulcânica, o islamismo avança, o consumismo nos devora e as Igrejas históricas enfraqueceram. Para caminhar sobre estas águas precisamos das luzes do Concílio, enfim, somos seus filhos.
Bento XVI marcou para maio deste ano, a V Conferência do Episcopado Latino Americano em Aparecida. A primeira aconteceu no Rio de Janeiro, depois em Medellín, Puebla e Santo Domingo. A V Conferência promete confirmar o Vaticano II e abrir novos horizontes em relação ao seguimento de Jesus e à missão na América Latina.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Um governador de esquerda
Aguinaldo Pavão
Pouco mais de 50 por cento dos votos válidos dos paranaenses foram dados ao sr. Roberto Requião. Em seu discurso de posse, o governador afirmou: Nos próximos quatro anos, vamos radicalizar na opção pelos pobres. E não é um governo de centro-esquerda, não. Não venham com esses centrismos, com esse equilibrismo. Somos sim um governo de esquerda porque ser esquerda é ser solidário, fraterno, humano. É ser gente. É ter os olhos, a alma e o coração voltados para as desigualdades e as misérias do mundo. Às vezes, penso que sou desumano por não ser de esquerda. Ironias à parte, gostaria de procurar entender um pouco o que o governador disse.
Vamos admitir que um indivíduo de esquerda seja um indivíduo humano. Presumo que o governador tenha querido dizer com essa palavra o mesmo que solidário, fraterno ou alguém que preza os direitos do ser humano. No primeiro sentido, a redundância indica que ele queria apenas enfatizar a idéia de solidariedade e fraternidade. Nesse sentido, talvez tenhamos de concordar. Uma pessoa de esquerda aparentemente preocupa-se mais com a miséria e os sofrimentos dos outros. É bem verdade que ela pensa, e aqui está o problema, que esses seus nobres sentimentos têm de ser compulsoriamente sentidos ou, na falta deles, compensados com impostos.
Afinal de contas, para o solidário de esquerda, a solidariedade não é simplesmente uma atitude moral. Para ele, a solidariedade tem de ser uma atitude da sociedade e do Estado. Nesse caso, a pessoa solidária de esquerda dificilmente será humana no segundo sentido. Ou seja, é improvável que alguém querendo que a solidariedade deixe de ser uma atitude moral, portanto individual, e se torne uma política do Estado tenha muitos escrúpulos com os direitos individuais, em especial o mais importante de todos, o direito à liberdade.
No fundo, ser de esquerda, em última análise é tender a desrespeitar o ser humano. Quem poderá considerar que é uma atitude de respeito ao ser humano forçá-lo a ser solidário? Solidariedade não pode ser algo imposto. Muitos dirão que não é esse o caso, que ninguém de esquerda quer forçar os outros a serem solidários. Mas se não é esse o caso, ser de esquerda seria simplesmente ser um indivíduo com certos valores, tolerante com os valores alternativos acalentados pelos demais. Ora, não é isso que acontece. Ser de esquerda significa considerar-se autorizado a obrigar alguém a pagar a conta da solidariedade do governo, ou ao menos concordar que alguém esteja autorizado a fazer isso. Interessante, não? O meu governo é de esquerda, eu sou de esquerda, mas quem vai pagar a conta é o dinheiro do contribuinte, contribuinte que pode ser, como eu, alguém totalmente hostil às idéias da esquerda, ainda que aceite que a solidariedade seja uma exigência moral, embora não concorde que seja uma obrigação política.
AGUINALDO PAVÃO é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina
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