O que há além?

Guilherme Borges
  Está definido para mim: o homem vai além da sua imagem no espelho. Isto na verdade eu já sabia desde as aulas de Filosofia e História grega, mas por que ainda teimava em tentar resolver e compreender todos os problemas humanos apenas com o lado sapiens do homo?
  Em recente viagem à capital paulista tive a oportunidade de regredir à minha vida intra-uterina e até algumas existências atrás. Para os que não acreditam ou têm medo de tais experiências, asseguro: eu também tinha e não acreditava em nenhuma delas até vivenciá-las. Entrentanto, a oportunidade foi reveladora.
  A mim permitiu, com riqueza de detalhes jamais imaginados, um autoconhecimento profundo. Além de facilitar a compreensão de coisas que a minha razão não acessava. Adentrar no inconsciente de maneira simples, sem misticismos e, curiosamente, completamente consciente foi a vivência que me levou a pesquisar melhor o assunto e descobrir que a técnica é mais difundida do que pensava. Então por que a maioria das pessoas não a conhecem e, assim como eu, vê com preconceito e medo?
  É crescente o interesse das pessoas por assuntos espirituais ou espiritualizados. Prova é a intensa exploração do tema pelos canais de televisão, brasileiros ou não. Séries, novelas, debates, reportagens. Horas e horas de programação com audiência crescente, mas tudo ainda com certo ar de misticismo. Por quê?
  Será que o homem deste século, tão racional e cético, quanto o sistema socioeconômico prega, ainda é incapaz de deixar suas crenças cegas de lado e pesquisar? Investigar um assunto não obriga ninguém a abandonar a própria fé em um ditame religioso. Apenas possibilita conhecer novas formas de enxergar o ser humano além da própria imagem no espelho.
  É bem verdade que existem muitos charlatães por aí. Na própria Grande São Paulo multiplicavam-se os cartazes e letreiros nos muros e imóveis: ‘‘Conheça seu futuro através da leitura das águas’’, ‘‘Autoconhecimento através das cartas’’, ‘‘Venha fazer terapia espiritual’’. Realmente ruim por colocar em descrença pessoas sérias que pesquisam o assunto e não se utilizam de ‘‘poderes sobrenaturais’’ para fazer o bem ao próximo, tal qual prega o Evangelho.
  Mas pensando por outro lado, será que também não existem pesquisadores ou cientistas tão enganadores quanto? Que usam a ciência em benefício próprio ou de um grupo econômico? Que manipulam e compram a imprensa, influenciando a vida de milhares de pessoas?
  Não pretendo aqui defender ciência ou espiritualidade, até porque também sou professor universitário, além de jornalista -duas profissões que gostam bastante do discurso científico -, apenas gostaria de compartilhar a reflexão: o que há além do sapiens?
GUILHERME BORGES é repórter da FOLHA DE LONDRINA


Pequenos golpes de Londrina

Eduardo Tomasetti
  Como pé-vermelho, filho desta terra, conheci – e conheço – alguns tipos de pessoas que nunca trabalharam e vivem aplicando golpes, graças à solidariedade e comoção das pessoas. Quem não conhece aquele senhor gordinho, de camiseta e bermuda, com uma carriola, enxada e outras ferramentas que aborda as pessoas na rua dizendo que está sem comer e que havia pegado um jardim para fazer, mas o cliente não o atendeu? E que assim ficou sem o dinheiro da passagem e está com muita fome? Puro golpe.
  E aquele rapaz, hoje velho conhecido, que chamando todo mundo de colega pedia um trocadinho? Hoje ele o fixa em ‘‘1 real, colega’’. E o menino coitadinho que ficava na porta do shopping, mais precisamente chorando, pois havia se perdido da mãe... Conheço alguém que chegou a levá-lo para casa e já estava quase pensando em adoção. Quando alguém o informou que ele já era manjado, tiraram o menino da piscina de seu benfeitor, da qual era já era usuário.
  Mais: o engraxate que sentava na calçada soluçando alto dizia que lhe haviam roubado todo o dinheiro, a graxa, a escova e os demais utensílios de trabalho. E que não estava querendo ir para casa, pois a mãe estava esperando-o chegar com aquele dinheirinho para dar comida aos irmãozinhos dele.
  E a cadeirante, postada próximo ao sinaleiro, que acabou presa por tráfico de drogas? Muitos conhecem a mulher que fica com uma criança no colo, pedindo ajuda para o leite e a criança é de aluguel, pois ela não tem filho nenhum. E tem também o rapaz de barba malfeita e camiseta branca pedindo ajuda para o combate às drogas. Outros pedem ajuda em nome do combate à AIDS.
  É conhecido o senhor que entra nos estabelecimentos comerciais vendendo sacos de lixo, dizendo que é para ajudar o Hospital de Câncer. Pressionado, ele diz que não é do HC daqui, mas de Bauru... E as meninas que pediam auxílio para para o Instituto GAPC? Essa instituição foi aquela recentemente denunciada como arapuca. Minha mãe, de 85 anos, fazia doação para esses estelionatários.
  Ah, e os mudinhos vendendo cartilhas de surdos-mudos próximos dos semáforos. Dia destes vi alguns deles, próximo ao Mercado Shangri-lá, no maior trololó. (Certamente existem os que são realmente deficientes). Mais tarde vi um deles, de novo no ponto pedindo ajuda, e chamei-o de vagabundo. Ele saiu de cara feia (pois ouviu bem o que eu disse), fazendo sinal para o colega com a mão fechada, insinuando que eu era um pão-duro.
  E agora tem o conto do rapaz que chega, diz que trabalha num lava-rápido e que a mulher está para ganhar neném. Ele pede para você levá-lo ao hospital. Aí, você, crédulo e comovido, não o leva mas dá dinheiro para ele pegar um táxi. É tudo o que ele quer. A dita mulher grávida, obviamente, não existe. Nem vou falar do conto do bilhete premiado.
EDUARDO TOMASETTI é empresário em Londrina


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