Água na fervura do centenário

Paulo Henrique Martinez
  A imaginação caminha rapidamente rumo ao centenário de Londrina. Ambições pessoais, sonhos individuais e programas municipais vislumbram um futuro grandioso, enaltecem um suposto passado de glórias, mas parecem alheios ao presente. É provável que no balanço dos cem anos da cidade, a primeira década do século XXI figure como a época da degradação dos recursos hídricos no município.
  O rio Tibagi, fundos de vale, córregos e nascentes, o Lago Igapó, todos padecem com o descaso e a ausência de políticas públicas consistentes que regenerem, preservem e ampliem as condições sanitárias e ecológicas das águas em Londrina. O derramamento de resíduos tóxicos, industriais e de pesticidas em cursos d‘água, aliados do esgoto e do lixo doméstico, vai registrando freqüência e intensidade crescentes.
  Os moradores já não se surpreendem. A imprensa deixa de conferir destaque a algo que se tornou rotineiro, quando este aspecto deveria ser a manchete. Os órgãos públicos prometem agir, sempre após danosos acontecimentos. Instaura-se uma passividade política diante de uma grave situação. Os projetos de transposição das águas do rio São Francisco e de usinas hidrelétricas em rios ainda vivos, como o Tibagi e o Madeira, revelam o teor dos conflitos sociais neste século. E também a miopia federal, ao enxergar os recursos naturais apenas como vetor da economia e não do desenvolvimento humano.
  Em Londrina, a poluição e a contaminação, além da desenfreada ocupação do solo degradam, dia após dia, as bacias hidrográficas rurais e urbanas. Elas comprometem a saúde pública, os espaços de lazer e recreação, destróem as paisagens, distanciam a população dos rios e lagos. Apontam um triste destino no centenário da cidade.
  Os habitantes e o meio ambiente podem desfrutar de outras perspectivas, como a qualidade de vida e a justiça social. O patrimônio ambiental é, hoje, um importante indutor da economia e o uso múltiplo das águas é uma necessidade e uma possibilidade ao alcance da gestão dos recursos hídricos. Estamos diante de uma decisão política e coletiva.
  A recuperação e a preservação da qualidade das águas é um desafio. Como tal requer ações da sociedade e dos órgãos governamentais. A combinação entre políticas públicas, exercício da cidadania, ação do Judiciário e um projeto social, ancorado no desenvolvimento regional sustentável, pode assegurar um amanhã diferente para as atuais e as futuras gerações. Para tanto, é necessária maior valorização dos recursos hídricos.
PAULO HENRIQUE MARTINEZ é professor e coordenador do Laboratório de História e Meio Ambiente do Departamento de História da Unesp em Assis (SP)


Crônica de uma morte anunciada

Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
  Variados desastres têm ocorrido recentemente no país. Os exemplos mais marcantes são o acidente com o avião da Gol e o desabamento do metrô em São Paulo. De fato, estes eventos fizeram vir à tona o antigo processo de negligência e falta de planejamento que há tempos estava instalado no Brasil.
  Burocracia ineficiente e onerosa. Com esta principal característica do aparelho estatal, permitiu-se a ocorrência dos desastres citados. Além disso, mesmo após o ocorrido, houve certa dificuldade em coordenar a situação. Foi o que se deu com o resgate das vítimas, bem como com a normalização do ocorrido (o risco de novos desabamentos no metrô e a quantidade insuficiente de coordenadores de tráfego aéreo influenciaram muito). Como se vê, o país demora a reagir, e age, no geral, de forma incompleta, apenas visando a solução do problema, e não sua prevenção.
  Alguns países possuem sistemas de aviso para desastres ambientais que permitem, pelo menos, evacuar o maior número possível de cidadãos. Quanto aos danos na infra-estrutura das cidades, prédios são projetados para resistir a isso. E essas duas atitudes de prevenção são a diferença entre uma catástrofe humana e um maior número de sobreviventes. E se o desastre ambiental for poderoso, pelo menos, há solução planejada e coordenada no resgate das vítimas.
  Uma lição que o país deveria tirar, já que aqui também se enfrenta (na maior parte das vezes) desastres cujo homem teve papel fundamental. Afinal, a sobrecarga dos profissionais do tráfego aéreo e a possível falha na obra do metrô não podem ser substituídos por, respectivamente, erro dos pilotos americanos e efeito estufa.
  Com relação a Londrina, duas tragédias foram vivenciadas. Uma está ainda na memória da população, que foi o caso do desabamento da marquise do anfiteatro no campus da UEL. A outra ainda está ocorrendo, principalmente, em dias chuvosos: a queda de árvores. E qual foi o resultado destes dois eventos? No caso do anfiteatro, ela continua à mostra na UEL, dando sinal de que a atitude perante obras mal projetadas não foi ainda levada a sério. E, com relação às àrvores caídas, elas são cortadas apenas. Não são substituídas por outras mais jovens, o que contribui para um clima mais quente na cidade.
  Novamente, a receita do Estado brasileiro: solução imediata, barata e visando ‘‘tapar os entulhos’’, associada com pura teoria da prevenção após o desastre.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina na Universidade Estadual de Londrina


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