Desaparece o homem. Permanece a sua obra

Maria Bortoni
  O médico Luiz Gonzaga Bortoni se foi. Somando 55 anos de Medicina em Londrina, ele edificou o alicerce para o desenvolvimento da cirurgia local. Foi o primeiro anestesista do Norte do Paraná: atendia emergências em hospitais da cidade e região.
  Iniciou suas atividades na Santa Casa de Londrina em 1952. O hospital era sua segunda casa. Ali passava todo o tempo necessário para o exercício da especialidade, já que durante 15 anos foi o único anestesista dali. Orgulhava-se de contabilizar 35 mil anestesias documentadas, sendo 12 mil para pacientes carentes. Mais tarde formou uma equipe de anestesistas reunindo 25 ótimos especialistas. Raro uma família, das mais antigas da cidade, não ter alguém que foi anestesiado pelo ‘‘dr. Bortoni’’, como era conhecido.
  A partir de sua chegada à cidade, as cirurgias graves passaram a ser feitas em Londrina, evitando os deslocamentos para as capitais como São Paulo ou Curitiba. Seu trabalho foi marcado pela competência e pela ética profissional, reconhecido pelas dezenas de cirurgiões com os quais trabalhou.
  Dr. Bortoni nasceu no sul de Minas Gerais. Saiu de Minas, mas Minas não saiu dele. Era ótimo contador de ‘‘causos’’. Tinha memória privilegiada. Descobriu a então ‘‘Capital Mundial do Caf钒, se apaixonou e nunca mais a deixou. Aqui fincou raízes. Constituiu família. Amassou muito barro, viveu todas as carências de uma cidade jovem de apenas 18 anos, mas estava feliz. Nunca uma queixa, só tinha orgulho de estar ajudando a construir uma cidade, escrever a história da Medicina local e a do ensino superior que participou como professor na Universidade Estadual de Londrina, nas disciplinas de Anestesiologia e Medicina Legal, esta última para Medicina e Direito. Hoje centenas de médicos que aqui atuam foram seus alunos.
  Aos ‘‘causos’’ de Minas incorporou as histórias da agora sua cidade. Amava Londrina. Muito! Íntegro, foi um pioneiro de admirável contribuição. Sua marca: generosidade e desprendimento.
  Costumava citar o que lera um dia: ‘‘A vida é um palco onde cada um representa o seu papel e sai’’.
  Ele representou muito bem o seu.
MARIA BORTONI é representante da San Diego University for Integrative Studies no Brasil e executiva em Londrina


Melancolia e política

José Mario Angeli e Marta Bellini
  A abusiva tentativa de reajuste salarial do Judiciário e do Legislativo mostra como parte destes poderes são ávidos por dinheiro, não importa se ele é público ou privado e muito menos qual seja a sua origem. Aqueles que deveriam legislar e aplicar a lei, tendo como princípio atender ao bem comum, agem mediados por interesses pessoais ou corporativos.
  Temos defendido neste espaço que o Legislativo tornou-se moeda de troca e, por conseguinte, faz do Executivo uma presa fácil deste poder. O exemplo mais declarado e abominável são as emendas dos deputados aprovadas no orçamento da União para este ano. Não bastasse, o Judiciário deveria confrontar-se com essa prática. Ele parece legitimá-la. E, por isso, insistimos que a política tornou-se um balcão de negócios, daí a necessidade de uma reforma radical da política. Dom Geraldo Magela, presidente da CNBB, afirmou indignado que ‘‘os atuais parlamentares formam a pior legislatura da história’’ e que perderam ‘‘a compostura ética e moral’’. Exemplo é que não falta: CPIs que não deram em nada, parlamentares envolvidos com os piores escândalos e, no apagar das luzes de 2006, a tentativa do reajuste salarial a reboque do Judiciário.
  Tanto o Judiciário como o Legislativo basearam-se no cumprimento da lei. Quantas ações dos trabalhadores foram indeferidas alegando que isto poderia vir a causar inflação e prejudicar a economia popular? Ou quantas categorias de trabalhadores não receberam a reposição da inflação e sofrem com isto? E o que é pior fala-se de reforma trabalhista, cujo objetivo será fazer os nossos produtos serem competitivos com os asiáticos. No entendimento desses atores, o reajuste está garantido na Constituição e, portanto, nada mais coerente fazê-lo cumprir. O Poder Judiciário tem consciência de ser o guardião da lei e de que os cidadãos só são livres no momento em que cumprem a lei. É Cícero quem diz: ‘‘Somos servos da lei para podermos ser livres’’. ‘‘Legum servi sumus ut liberti esse possimus’’, expressão do liberalismo jurídico mais puro. Talvez eles tenham esquecido que há uma distância entre a lei em si e a sua aplicabilidade, isto é a concretude da lei. Esta é política, pois ela demanda uma expressão de força para a sua realização. Expressão esta que poderá vir dos meios de comunicação, das organizações da sociedade civil, dos movimentos sociais e da revolta das massas.
  A aplicabilidade ou não pode levar em conta a concreticidade em que ela está sendo aplicada. A aplicabilidade ou não é resultante dos movimentos articulados por parcelas do povo. Há uma distância política percorrida desde o império da lei (a Constituição) e sua aplicabilidade (a prática) é uma realidade. Segundo Ulpiano, ‘‘que apraz ao príncipe tem força de lei’’ ‘‘Legum placuit legis habet vicem’’. Ora, se os reajustes estariam garantidos na Constituição, já com o consentimento do príncipe (povo), então, não precisaria mais passar pelo crivo do príncipe, logo a aplicabilidade é simplesmente uma mera restrição que poderá ser driblada visto que ele é legal.
  Por isso, é importante o clamor dos movimentos sociais contra o abusivo reajuste. Esse deverá sair às ruas exigindo correção para baixo, como afirma dom Geraldo Magela. Todos esses senhores, ‘‘precisam ter seus salários reduzidos porque temos de diminuir o fosso entre os poucos que ganham muito e os muitos que não ganham quase nada’’. Só a assim a política deixa de ser melancólica. E, para que comecemos o ano de forma não melancólica devemos ficar atentos com o reajuste dos homens.
JOSÉ MARIO ANGELI é professor do departamento de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina e MARTA BELLINI é professora do departamento de Educação na Universidade Estadual de Maringá

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