Responsabilidade social, o sapo e o escorpião

Marcelo Linguitte
  Acredito que todos conheçam a fábula do sapo e do escorpião. Nessa história, um escorpião precisava atravessar um rio e pediu a um sapo que o levasse para a outra margem. O sapo respondeu que nunca faria isso, pois temia que ele lhe desse uma ferroada durante o percurso. O escorpião disse ao sapo que isso nunca iria acontecer, já que os dois poderiam morrer. O sapo se convenceu e colocou o escorpião em suas costas. Durante a travessia, o escorpião deu uma ferroada no sapo, que, agonizando, perguntou: ‘‘Mas você não disse que não iria me ferroar?’’ E o escorpião responde: ‘‘Desculpe, é meu instinto!’’.
  Essa história ilustra bem um ponto que é fundamental quando se fala de incorporação da Responsabilidade Social (RSE) na gestão das empresas: para a maioria delas, ‘‘o instinto’’ natural de seu condottiere, o CEO, é promover uma gestão focada ‘‘apenas’’ nos próprios interesses e resultados da empresa, sem que aspectos sociais e ambientas mais amplos sejam levados em conta. Esse ‘‘instinto’’ do CEO busca atingir resultados restritos ao trimestre, e impede que ele perceba que, para o sucesso da empresa no longo prazo, é importante promover o desenvolvimento sustentado da sociedade e do meio ambiente. Esse ‘‘instinto’’ não aparece por acaso, pois a própria lógica de mercado impulsiona os CEOs no sentido contrário ao da RSE.
  Nesse cenário, fica evidente que uma gestão socialmente responsável somente pode ser conseguida com esforços firmes e coordenados. Sem um compromisso e envolvimento genuínos desse público, a RSE ficará no discurso, sem maiores impactos nos negócios. O CEO deve buscar de forma intencional incorporar em suas análises ingredientes sociais e ambientais, ampliando seus parâmetros de sucesso para além do componente econômico, sem, é claro, desconsiderá-lo. Afinal de contas, se não existir meio ambiente saudável e cidadãos com renda para comprar produtos e serviços, também não existirão empresas lucrativas.
  Muitas vezes, um CEO recém-contratado vê sua nova empresa apenas como um trampolim para uma outra posição que considera mais interessante. Daí, desenvolve todo um conjunto de estratégias de curto prazo – nada alinhadas com a RSE – voltadas para valorizar a empresa e seu próprio ‘‘passe’’. Assim fica realmente difícil pensar em incorporar o tema na empresa. Porém, há espaços importantes para que um CEO possa contribuir para a melhoria do desempenho de sua empresa através da incorporação da RSE. Seria certamente inovador e valorizaria muito mais o executivo perante o mercado, já que as questões da RSE e do Desenvolvimento Sustentável estão se tornando temas centrais no mundo e, quem estiver apto a lidar com eles, ganhará pontos importantes. Chegou a hora de os CEOs perceberem a sua responsabilidade nesse processo e darem sua parcela de contribuição.
MARCELO LINGUITTE é diretor-gerente da Terra Mater Empreendimentos Sustentáveis em São Paulo (SP)


O homem e seus experimentos

Walmor Macarini
  Há realidades não conhecidas e inalteráveis, e que, portanto, não se modificarão apenas porque certas correntes não as admitem. Afirmar que determinadas coisas não ocorrem é apenas um conceito dogmático ou baseado em leituras não compreendidas. Se o nevoeiro encobre as estrelas não significa que elas não existem.
  Se treva é anverso da luz, treva é ignorância, não-saber; e luz é sabedoria, informação. É pela ignorância que fanatismos se instalam e o homem comete atos que a tradição denomina pecado. Que não é causa mas conseqüência e não tem uma classificação de bem ou de mal. É um resultado. E o resultado é um experimento do livre-arbítrio.
  Se este plano terreno é um campo de experienciação, o homem tem o atributo de fazê-la. Natural que, ao mergulhar nesse campo de provas – em que não é o experimentado mas o experimentador – o homem carregará consigo todos os lastros do que pratique, e que não se desfazem tão rapidamente, podendo demorar várias vidas sucessivas, nesta ou em outras moradas dimensionais.
  Não se trata de punição mas a continuidade de uma condição e de um estágio de consciência. Se alguém se embrenha na mata, terá de caminhar pelo tempo necessário para sair dela. A demora não é um castigo mas uma condição da situação. A lei terrena pune o que tipifica como delito; a lei divina permite o exercício do livre-fazer.
  Quando aqui descemos, em tantas vindas e idas sucessivas, sempre tivemos conhecimento prévio de todas as coisas possíveis nesta dimensão. A perda temporária dessa referência foi, sempre, para que se operasse o mérito do que se iria fazer aqui – o bem ou o denominado mal.
  Certo é que nada acontece por acaso. Então, o que é o destino? É aquilo que cada qual se dispôs ser e realizar nesta dimensão terrena. Porque cada qual não é de agora e não tem a idade da certidão de nascimento. Só o corpo físico tem uma idade.
  Mas é do mesmo atributo do livre-arbítrio mudar o destino que foi individualmente traçado antes da ancoragem neste planeta. Estamos aqui como voluntários pré-programados para executar experimentos, resgates, doações, missões de divinização da terra e missões evolucionárias individuais e coletivas. Esse processo pode abarcar muitas vidas.
  Em tudo haverá sempre a prevalência da livre decisão – uma dádiva e também um fardo – até que isto não seja mais preciso. Seguimos um roteiro que nós próprios traçamos, mas sempre no rumo do retorno derradeiro à origem primeira. Assim como as vertentes d’água, que serpenteiam pela superfície e pelo subterrâneo, contornam e transpõem obstáculos mas sem perder o rumo do mar.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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