ESPAÇO ABERTO
O Natal de José e Maria
Mario Fragoso
A semana custou a passar para José, carpinteiro desempregado que tenta ganhar a vida catando papel. Aos 50 anos, o experiente profissional não consegue emprego fixo e isso o deixa muito preocupado. Dessa vez, com o estado atual de sua mulher, a doméstica Maria. Ela está grávida e, pelas contas do médico, o bebê deve nascer por esses dias. Do dia 25 não passa, decretou o obstetra na última consulta. Se até lá o menino não nascer, com ou sem estrela de Belém, Maria sofrerá uma cesariana.
O tempo está passando e José ainda não conseguiu recursos para remendar o teto da manjedoura, digo, barraco, onde seu filho vai nascer e passar os primeiros tempos de vida. Maria vê o nervoso que o marido está passando e também se desespera por não poder ajudar. Fazer o quê, com aquela barriga enorme? Além disso, tem as outras crianças para cuidar.
José e Maria se conheceram na Vila Nossa Senhora da Paz e, depois do casamento, saíram do bairro porque ele estava se tornando violento. Violento até ficar mais conhecido como ponto número um em venda de drogas na cidade. De lá, foram para o São Jorge. Por não saberem lidar com a violência, José e Maria perderam o pedaço de chão que ocupara e construíram o lar para criar os filhos.
É fato que o carpinteiro José não terá as tropas do Rei Herodes nos seus calcanhares. Seu filho, portanto, não correrá o risco de ser morto a fio de espada como correu o filho de outra Maria, dois mil e poucos anos atrás, na Palestina. Seu inimigo não será o império romano; mas, sim, o descaso dos dominantes em relação aos dominados. Será o mau patrão que só paga o que deve na Justiça. Será o mau político que rouba o dinheiro público. Será o traficante que tentará tornar seu filho um viciado e sua filha uma prostituta e, também, viciada.
No entanto, o clima natalino, ainda que por poucos instantes, amolece o coração e a alma do calejado profissional que tantos prédios, escolas e igrejas ajudou a edificar. Apesar de não ter onde morar, não ter estudado e já ter perdido a vontade de rezar, ele pensa e acredita em dias melhores. O milagre da vida, que faz o homem renascer ao pegar o filho recém-nascido no colo, lhe dá o alento para seguir em frente. Pensando nisso, José se mune das ferramentas e vai consertar o telhado.
Absorto com o trabalho, não sente o tempo passar. Não vê que a noite chegou tão cheia de estrelas que parece ter-se enfeitado para o Natal. É verão, mas a temperatura cai na madrugada. O burro que traciona a carroça do carpinteiro achega-se à vaca, garantia de leite para o bebê. Sem perceber, refazem a manjedoura mais famosa da história. De repente, um choro vindo do cômodo em que Maria dormia com as outras crianças, traz José de volta à realidade.
O menino Jesus nasceu, grita a plenos pulmões. A voz do pai ecoa pelos casebres vizinhos e acorda os cansados corpos dos trabalhadores. Não teve ouro, incenso nem mirra para o bebê. Mas a comadre Lourdes, que trabalha como costureira, trouxe umas roupinhas. Dona Tereza trouxe fraldas. Seo Pedro trouxe um abraço e lágrimas nos olhos. Ah, também uma garrafa de cachaça para celebrar o acontecimento. Enquanto o recém-nascido dava sua primeira mamada, os vizinhos e companheiros de infortúnio ficaram ali, a olhar o céu estrelado de Natal.
Mario Fragoso é jornalista em Londrina
A paixão dos brasileiros não é o Brasil
Wilson Oliveira Paulino
Para o comodismo e sorte dos parlamentares brasileiros, a paixão do povo brasileiro não é o Brasil, mas o futebol.
Enquanto o salário mínimo está na casa do R$ 350,00, mais absolvições de parlamentares envolvidos em casos de corrupção, o governo federal fazendo propagandas de devolução de livros didáticos, o país sendo governado por Medidas Provisórias, recebemos para fechar o ano o feliz presente de Natal com a notícia de aumento dos salários dos nossos empreendedores e comprometidos parlamentares, nos níveis estaduais e federal. Pegando carona nesta sorte, segue ainda o Ministério Público e Judiciário. Quem é que deve fazer justiça neste país?
No último dia 17 de dezembro pela manhã, assisti na televisão a torcida do time Internacional lotar praças e avenidas para assistir o jogo de sua paixão nacional, o seu time preferido. Veio-me a memória as manchetes televisivas após conquistas de títulos de futebol. As cenas se repetem e se repetirão. O povo vai às ruas, grita, leva bandeiras e faixas, beija as camisas. Cá pra nós, povo não tem prazer mesmo é de no outro dia ter que pegar ônibus lotado, ganhar salário mínimo, lutar por vaga na escola sem qualidade, torcer para que o humor do funcionário do posto de saúde esteja legal, ter de rezar para que no Natal e Ano novo tenham médicos nos prontos socorros dos hospitais, ver poucos policiais nas ruas, ver faltar professores, ter cadeias que não recuperam ninguém e tudo aquilo que já sabemos.
Longe de querer motivar o povo a lutar nas ruas. Mas o povo brasileiro deveria acordar cedo para pintar suas caras com as cores do país, vestir os filhos com o uniforme da cidadania com a mesma vontade que vão torcer futebol. Porque não dizer também, em ir às reuniões de condomínios, às sessões das câmaras de vereadores, em passeatas nas capitais exigindo que o seu voto fosse respeitado, que fosse feita a sua vontade através da representatividade e não as vontades dos sortudos parlamentares que assim, legislam de forma fácil e em causa própria.
Temos hino, camisas, o maior gramado do mundo, mas não substituímos em cada eleição os jogadores ruins que nos representam, como faz o time que foi mal na temporada. Antigamente era pão e circo. Hoje é futebol, leite, vale gás e bolsa escola. Mudou a máxima, mas o resultado é o mesmo. Ao contrário da torcida do Internacional, não tenho o que comemorar este ano. Só a agradecer a Deus por ter dado saúde a minha família e pedir que continue abençoando o povo e torcedor brasileiro.
WILSON OLIVEIRA PAULINO é pós-graduando em Formulação de Políticas Públicas pela Universidade Estadual de Londrina
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