A família e o rendimento escolar

Márcia Siqueira de Andrade
  As altas taxas de repetência e evasão escolar colocam o país em 72º lugar no ranking da Unesco, entre os 125 pesquisados. Além da qualidade do ensino e das condições sócio-econômicas das crianças, é preciso levar em conta a importância da estrutura familiar para o bom rendimento na escola. E isso vale para crianças de famílias pobres e ricas, de escolas públicas ou privadas.
  Tanto em consultórios particulares como na clínica de psicopedagogia para crianças carentes, notamos o mesmo problema: pais alcoólatras, presos ou simplesmente ausentes demais da rotina dos filhos – indícios de famílias desestruturadas – levam a crianças infelizes na escola, desatentas às aulas e com baixo rendimento nos estudos. Não porque sejam menos inteligentes, incapazes ou pouco estimuladas, mas porque sua atenção não está focada na escola, e sim no problema familiar.
  O curioso é que, diante do mau rendimento nos estudos, a família passa a dar mais importância à questão educacional do que ao próprio dilema que a criança está enfrentando. Em vez de conseqüência do problema, o desempenho na escola passa a ser visto, injustamente, como a causa das brigas em família, gerando um círculo vicioso.
  Alguns pais apelam, também, para as atividades extracurriculares ou às aulas de reforço para ‘‘recuperar’’ as crianças, muitas vezes sem sucesso. Afinal, se ela não aprendeu o conteúdo escolar, não haverá o que reforçar.
  Como solucionar o problema? Primeiro, não apontar culpados. Crises familiares não acontecem por vontade deliberada de ninguém e os pais certamente não desejam que seus filhos estejam enfrentando dificuldades na escola. Portanto, em vez de perder tempo apontando culpados, é importante tentar entender o problema enfrentado. O diálogo ainda é, sem dúvida, o caminho mais eficiente. A conversa ajudará pais e filhos a encontrar soluções e fará com que a criança se sinta acolhida.
  É importante também que, ao se sentirem desamparados, os pais não tenham vergonha de buscar ajuda profissional para eles e para as crianças. Na clínica de psicopedagogia, ao identificar problemas na aprendizagem, trabalhamos não o conteúdo escolar, mas o inconsciente infantil, com contos, histórias, artesanato e brincadeiras. A idéia é fortalecê-los internamente para que saibam lidar com os dilemas familiares.
  É bom ressaltar: nada disso quer dizer que pais separados, solteiros, viúvos ou que trabalham demais, por exemplo, não possam ter filhos centrados e felizes no ambiente escolar. Basta que a situação esteja bem resolvida dentro da família e que a criança esteja à vontade para centralizar suas energias nos estudos.
MÁRCIA SIQUEIRA DE ANDRADE é coordenadora de cursos de graduação e pós-graduação em Psicopedagogia


Um homem plantando árvores

Walmor Macarini
  Enquanto houver pessoas plantando árvores deve-se acreditar que o mundo tem salvação. Há os que as destróem é há os que as cultivam. Entre certos ambientalistas que chegam a extremos de fanatismo e os depredadores embrutecidos, fico com os primeiros.
  Caminho à margem do Lago Igapó-2, como regularmente faço, e vejo um homem plantando árvores. Várias mudas, frutíferas e ornamentais, cujos frutos e cuja sombra poderão ser para ele mas também para os futuros passantes. Ele é um cidadão comum, que aproveita o dia do pós-chuva e vai enriquecendo a natureza.
  Paro para cumprimentá-lo e conversar um pouco, porque pessoas assim são muito agradáveis e não têm grilos. Ambos observamos que ali existem muitos cedros jovens, árvore milenar que quase se extinguiu por aqui. A maioria das pessoas não distingue essa planta das demais, embora possa ter em casa uma mesa ou um guarda-roupa antigos confeccionados com essa madeira nobre.
  Li no último dia 10, em artigo desta página, que o Governo inglês divulga plano mundial para a privatização da Amazônia, porque o Brasil não está cuidando dela. E não só não cuida como permite a devastação da floresta, da fauna e das reservas minerais. E o Exército brasileiro não é convocado pelo presidente da República para guardar essa riqueza planetária. Como os militares, certa ocasião, assumiram o poder à força – porque o momento de baderna dos políticos, tal qual agora, o exigia – deveriam, à revelia do Presidente, tomar de assalto a Amazônia Legal e preservá-la. Antes que mãos estranhas o façam.
  Por trás do movimento intervencionista externo estão nomes de peso que deixaram a política e atuam – com muito mais proveito – pela preservação ambiental: Al Gore, Mikhail Gorbachev, François Miterrand, Henry Kissinger. Agora Lula quer afastar Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, porque a ex-colega das Minas e Energia, Dilma Roussef – que tem nas entranhas dínamos e turbinas e agora assessora o Presidente – não gosta da doce e mansa companheira.
  Este é o desenvolvimento suicida que habita as mentes dos insensatos. Anteontem, na seção de opinião dos leitores deste Jornal, uma cidadã de Ortigueira pergunta se vale mais a vida dos bichos ou dos humanos. Ela defende a construção da usina hidrelétrica planejada para Mauá da Serra, que inundará matas e algumas terras aráveis. Ocorre que os humanos não precisam tanto assim da usina – quando despontam, cada vez mais, energias alternativas e menos devastadoras.
  Por ora o Brasil não necessita de mais energia elétrica, e para o futuro próximo nos aguardam fontes mais limpas, não destruidoras do ambiente. Um dia os pósteros pedirão socorro ante a natureza devastada. Mas os que tanto destruíram matas e animais, poluíram a terra, as águas e o ar, defenderam e construíram represas que afogaram terras férteis, não estarão mais aqui para ver o estrago. Talvez estejam nos umbrais descabelando-se de remorso.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA


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