ESPAÇO ABERTO
PMDB velho de guerra
Walter Costa Barroso
Acredito que nos últimos 40 anos quase toda esta geração esteve com uma pontinha do coração ou com um pezinho envolvido com esta sigla partidária. Inicialmente MDB depois por questão de sobrevivência acrescida um P a ditadura só foi vencida graças à aliança do partido como o povo brasileiro que foi minando a resistência militar. As grandes derrotas eleitorais não eram suficientes para que nossas lideranças se jogassem no colo dos eleitos, transformando Brasília em banca de negociatas.
As vitórias estrondosas nos grandes centros e nas camadas mais politizadas faziam do PMDB, o estuário natural para a democracia. As anti-candidaturas das maiores lideranças eram o sinal mais evidente do desprendimento pelo poder, pela causa maior que era a redemocratização do Brasil. Enquanto lideranças eram cassadas no Congresso Nacional, e o aparato oficial através do partido dos militares a Arena depois o sucedâneo PDS, tomavam conta do poder. Não podemos esquecer da famosa frase de Petrônio Portela: A Arena é o maior partido político do Ocidente. O PMDB de guerra em sua trajetória ia nos encantando e resistindo nas derrotas e colecionando adeptos nesta faixa de eleitorado que hoje o presidente Lula chama de elites. Não confundir elites pensantes informadas em pleno exercício de cidadania com elites econômicas que votam olhando mais para as suas necessidades materiais.
Quando assistimos o PMDB de cócoras para o presidente reeleito, fazendo reuniões com meia dúzia de dirigentes que estão mais para o lado policial do que político nos entristece e nos faz imaginar o desconforto de Mário Covas, Ulisses Guimarães, nosso José Richa e tantos outros que fizeram a história do PMDB. Poderíamos indagar, onde estará toda aquela estrutura gigantesca do PMDB, a eleger decisões plenárias, quanto à propalada coalizão de governo com o PT. Será que aquela meia dúzia decidirá por todos?
Confesso se ainda estivesse na militância e com alguma força política, exigiria uma tomada de posição através das bases partidárias para o bem do Brasil e o fortalecimento partidário de nossa frágil democracia.
WALTER COSTA BARROSO é cirurgião-dentista e ex-presidente do PMDB de Londrina
Lula no corredor polonês
Gaudêncio Torquato
O dilema está posto. Os movimentos sociais prometem pressão durante o segundo mandato de Lula, com o objetivo de puxar o governo para a esquerda e disputar espaço diante da ambigüidade que marcou o primeiro, com sua ortodoxia econômica e seus pactos pela governabilidade. Essa é a meta defendida por entidades que se reuniram recentemente em São Paulo. João Pedro Stédile, comandante do Movimento dos Sem-Terra (MST), não se contenta com os 500 encontros que o presidente teve com organizações sociais e faz um balanço negativo da reforma agrária. Luiz Dulci, ministro responsável pela interlocução com movimentos populares, garante que o governo terá maior participação popular. Lula, por sua vez, acenando com a bandeira da paz, ensaia uma grande coalizão, abre conversas por todos os lados, incluindo até encontros com os amigos tucanos Aécio Neves e José Serra para um entendimento. Anuncia ao Brasil um mandato de convergência.
Os propósitos sinceros não escondem os climas nervosos que advirão no segundo mandato, não nos minutos iniciais do jogo, mas depois da acomodação dos jogadores em campo. Lula fará o que for possível para cumprir a promessa de fazer um governo melhor que o anterior. Administrará de maneira aberta e menos arrogante, mais solidária e menos pautado pelo que chama de herança maldita do tucanato. Apesar de manter cacoetes da interminável série nunca antes neste país, vê-se uma pessoa convencida de que a reforma do edifício Brasil carece da colaboração de todos, governistas e oposicionistas.
Ocorre que a vontade de inserir o novo mandato numa moldura de magnanimidade esbarra nos contrafortes de uma cultura que respira ambição, individualismo e imediatismo pelos poros. A continuidade da gestão petista, apesar da ampla teia de apoios no Congresso, não será um mar de rosas. Lula atravessará um corredor polonês composto, de um lado, pelo grupo das tapinhas nas costas e, de outro, pela banda das cobranças frontais. A composição da nova bancada parlamentar sinaliza resistências a discursos radicais. Por conveniência tática, prevê-se um realinhamento de todos os grupos, incluindo uma parcela do PT, que não se conformam com as diretrizes econômicas da administração lulista.
Será lembrado o tórrido discurso do segundo turno da campanha, quando caprichou em abordagens como embate de classes, política externa para o terceiro mundo, condenação à privatização, ampliação do orçamento social e incentivo aos movimentos populares, entre outros. Na carruagem do resgate ético e do reencontro com os eixos históricos, o PT desfraldará bandeiras antigas, não se descartando a hipótese de que o fará com o empuxo da mobilização social. O lema já foi arrumado pelo MST: Ou tudo ou nada. As armas começam a ser ensarilhadas. A contenda será acirrada, principalmente quando os temas resvalarem pela arena das reformas sindical, trabalhista, previdenciária e tributária.
O primeiro exército, comandado pelos generais do PT e do PMDB, se posicionará na vanguarda de defesa do Palácio do Planalto. Mas os flancos exibirão fragilidades. As divisões petistas integrarão todas as suas unidades para defender de maneira irrestrita a política palaciana? Que partido governista será porta-voz dos movimentos sociais? As duas divisões peemedebistas, mesmo unificadas na coalizão, endossarão plenamente as teses do governo? E se, mais adiante, a fome por mais cargos for maior que a cesta básica oferecida, haverá racha?
Não será tranqüila a passagem do presidente Lula pela cordilheira do segundo mandato.
Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político
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