Um presente precioso
Ruth Bárbara Steidle

O Natal se aproxima. Os apelos para gastar o 13º salário, entrar no cheque especial, comprar a prestação ou usar o cartão estão por toda parte. Presentes são alardeados como uma necessidade imprescindível. Lindas vitrines e lojas luxuosamente decoradas nos lembram da obrigação de presentear. A alegria do presentear, mesclada com o desassossego decorrente dos gastos causa, às vezes, um clima estranho.
Amigos, colegas e parentes passam a ser avaliados monetariamente. Quanto vale, por exemplo, uma tia, no orçamento natalino? Orçamento construído durante o ano com muitas horas de trabalho árduo e planejamento cuidadoso. Dependendo do humor, a tia é mudada para baixo ou para cima na lista da valorização.
O número de candidatos a presentes cresce a cada ano, aumentam também os congestionamentos nas lojas e ruas. Temos que trabalhar extra, e às vezes até nos endividar para conseguir cumprir com as crescentes obrigações. Dando presentes alimentamos a esperança de conquistar amor, status, atenção e carinho. Haja tempo, tempo de ganhar o dinheiro, de planejar e de correr atrás dos presentes!
Que tal na época natalina oferecer, em vez de um presente, um pouco do nosso tempo? Visitar ou convidar aquela tia da lista dos presentes sem presente algum na mão, mas com a vontade de lhe dar atenção e alegria, com disposição de conversar, falar e ouvir? Em vez de sair à procura de mais um presente para o filho, permanecer em casa, brincar com o filho, talvez juntos relembrar uma história antiga ou consertar um brinquedo quebrado?
Tempo oferecido a alguém de coração é algo único e precioso. Ainda me lembro com ternura quando, há mais de sessenta anos, num Natal em tempos de vacas magras descobri minha mãe escondida atrás de uma porta tentando com palitos de dente e cartolina fazer um presente para nós, as crianças. O presente era modesto, mas o tempo que minha mãe ''roubou'' de seus muitos afazeres domésticos para fazê-lo, o tornou precioso.
Comprar e dar presentes, sempre que possível e necessário, é uma arte que devemos cultivar e desenvolver durante o ano todo. A época de Natal, porém, poderia ser o tempo de doar tempo.
RUTH BÁRBARA STEIDLE é aposentada em Rolândia

Aposentado precisa de organização
Milton Dallari

Os aposentados são sempre relegados ao segundo plano na hora de discutir seus direitos. Uma prova desse descaso é o debate em torno das mudanças na Previdência Social, que tem se concentrado em torno da opinião de economistas sem que haja participação dos principais interessados nessas alterações. Sem falar no tão desprezado Estatuto do Idoso, que surgiu como uma inovação na legislação e terminou como alvo de várias ações na Justiça - um bom exemplo é a interminável briga das empresas de ônibus para fornecer descontos e passagens gratuitas em viagens interestaduais.
Mas já é hora de essas empresas e dos políticos em geral começarem a abrir os olhos para a questão. Isso porque o número de idosos não pára de crescer, como aponta pesquisa recente realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre 1990 e 2000, houve um aumento de 45%, registrando uma média anual de crescimento próxima aos 4% - na média a população brasileira nesse período subiu 1,6% ao ano. Nos próximos 20 anos, estima-se uma população composta por 30 milhões de pessoas acima dos 65 anos, quase o dobro do número atual.
Com a evolução constante da medicina e os avanços tecnológicos, a expectativa de vida será bem maior do que os 71,9 anos atuais. Sendo assim, políticos e empresários terão de se preparar para cuidar desse contingente. Até por isso, causa preocupação ouvir o presidente da Lula dizer que não vai mexer na Previdência Social. O problema não poderá ser adiado por muito tempo. Se Lula não quer fazer a reforma, paciência. Mais cedo ou mais tarde, a bomba vai explodir no colo de alguém. E o impacto poderá ser ainda mais destrutivo do que se imagina.
Uma coisa, porém, é certa. O governo não pode baixar medidas que prejudiquem os mais velhos, sobretudo porque hoje eles passaram a assumir um papel de destaque na manutenção de suas famílias. Os dados do IBGE indicam que houve um aumento de 47,5% no número de idosos que são responsáveis pelo sustento de filhos e netos. A pesquisa também traz um dado importante de nossa sociedade. Entre 1990 e 2000, cresceu em 74,5% o número de mulheres sem cônjuge, que agora aparecem como as principais responsáveis pela economia na família.
Diante desses números, é bom que as autoridades, o empresariado, os trabalhadores e as entidades de aposentados comecem a abrir os olhos para os problemas que afetam esses milhões de brasileiros. Os aposentados estão começando a se organizar silenciosamente e em breve decidirão o destino de eleições e terão voz ativa para decidir o que querem de suas vidas. Tenho certeza que essa mudança é um caminho sem volta, que vem sendo percorrido lentamente. Quando essas pessoas se mobilizarem, muita coisa vai mudar em nossa sociedade.
MILTON DALLARI é consultor empresarial, engenheiro, advogado e presidente da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp em São Paulo

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