Curso para não morrer

Arnoldo Anater
  As estatísticas denunciam que são os jovens que mais matam ou mais morrem ao volante. Com base nesses dados, os motoristas que freqüentam curso de reciclagem estão sugerindo ao Detran que promova esse curso ou semelhante aos motoristas de primeira habilitação. Está provado que mais de 90 por cento dos acidentes de trânsito são provocados por falhas humanas e a alta velocidade é a responsável maior. A carteira só seria entregue depois de 20 horas de aulas.
  Hoje o motorista com 20 pontos em seu prontuário tem seu direito de dirigir suspenso e só recebe a habilitação de volta depois de freqüentar o curso de reciclagem. O curso é excelente porque conscientiza o motorista para ser cada vez mais responsável e que automóvel anda por vias terrestres e não por
vias aéreas. Todos ficamos chocados com a queda do avião da Gol que matou 154 passageiros. O trânsito mata muito mais que isso diariamente.
  Durante o curso de reciclagem, contava um motorista com 75 anos de idade – mais de 30 com carteira – nunca ter cometido infrações. Como verdureiro, freqüenta muito o centro de Curitiba. Entre entregar uma melancia, umas cabeças de alface, um pacote de pepinos e outras verduras, começaram aparecer multas porque a tolerância é zero. Sem tempo para normalizar a situação foi parar no curso de reciclagem – aliás, o primeiro curso que freqüentou na vida.
  O curso que a garotada deve freqüentar ensina a conduzir um veículo com segurança pelo ‘‘choque’’ da emoção através de imagens e cenas horríveis nas estradas e vias públicas mostradas em filmes e vídeo e pelas palavras firmes dos instrutores. O jovem motorista está matando ou morrendo no trânsito por falta de experiência e responsabilidade. Pergunte para esses motoristas qual é a velocidade mínima? Acho que o curso transmitiria muita prevenção, além dos alunos levarem das aulas mais conhecimento de sinalização e legislação.
  Os testes escritos não são fáceis. Segundo consta, só pode ser bom motorista aquele que for inteligente, que tem posição, presença de espírito, educação, respeito humano. Vale lembrar que os bacharéis em Direito e veterinários são considerados preparados para o exercício profissional após se submeterem ao exame na Ordem depois do diploma na mão. Agora se pensa em aplicar o mesmo sistema aos bacharéis em Medicina e Odontologia. Quem sabe com esses cursinhos não haverá menos sangue nas ruas e estradas.
ARNOLDO ANATER é jornalista em Curitiba


Sobre cultura e internética

Walmor Macarini
  Aprecio voltar a este tema, que embora não me pareça fundamental, passou a ser o mais relevante nestes tempos. Falo de cultura e internética. É crença comum que a humanidade evoluirá na medida em que mais se alfabetizar, e que, quando não houver mais analfabetos e todos forem cultos, o mundo estará salvo de guerras e destruição. Não é bem assim, porque as guerras foram e continuam sendo produzidas por povos atrasados e também pelos culturalmente adiantados. Elas acontecem não porque as civilizações são incultas ou não, mas porque são ignorantes.
  Há pessoas dotadas de invejável cultura porém atrasadas, assim como há sábios entre os iletrados. O senso arraigado de que só pela escolaridade o homem se tornará cidadão consciente não é bem uma verdade. Ele evoluirá tão-somente pela sabedoria, que pode dispensar bancos escolares, embora estes não façam mal. O avanço do nível cultural poderá significar apenas acúmulo de conhecimentos acerca de certas artes, ofícios e outras culturas, mas não garante que isto fará as pessoas mais pacíficas, conscientes e felizes.
  Não é preciso o homem ser um MBA, o modismo de ser Master in Business and Administration, nem dominar a informática para ser completo e atualizado. As pessoas têm deixado de conversar, de olhar-se, porque fazem isso pelos caminhos virtuais. Outros encontram-se, mas estão apressados para ir para casa e conversar pelo computador com as mesmas pessoas. Muitos que andam pelas ruas vêem gente e as mais diferentes fisionomias, vêem modelos de automóveis, vêem vitrinas e a moda desfilando, vêem também as misérias sociais e as tragédias, mas preferem ver tudo isso convertido para a magia da telinha, no noticiário da noite. Isto não pode ser evolução, mas retrocesso.
  A praticidade não faz as pessoas mais felizes, porque quanto mais a tecnologia avança, mas elas têm de apressar-se para acompanhá-la. Isso criou uma legião de estressados e neuróticos. Tal pode ser prático e up to date, mas com tanta pressa não sobra tempo para parar e ver as flores. Irreversivelmente, a humanidade irá se servir cada vez mais da tecnologia – e eu mesmo estou agora escrevendo num computador – mas de minha parte não quero que as pessoas se lembrem de mim apenas pelo meu correio eletrônico. Prefiro encontrar as pessoas na praça, ou no bar, em suas casas ou na minha, e poder olhar nos olhos delas e elas olharem nos meus, e assim podermos ao menos trocar umas palavras.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA


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