ESPAÇO ABERTO
Obsolescência e patrimônio
Humberto Yamaki
Londrina teve cinco rodoviárias, três ferroviárias e três catedrais em 72 anos. A cada época, a demolição e a reconstrução eram consideradas manifestação de otimismo e desenvolvimento. O mesmo aconteceu com a pavimentação da cidade. A Avenida Paraná teve cinco pisos diferentes no mesmo período: terra, moledo, paralelepípedo, asfalto e petit pavê. A terra/moledo durou aproximadamente 10 anos, o paralelepípedo 14 anos, o asfalto 19 anos e o petit pavê sobrevive há 29 anos.
A cada substituição, as marcas e cicatrizes anteriores foram sendo implacavelmente apagadas. Poucos se lembram do jardim de linguagem clássica, com vegetação em topiária e piso em mosaico com motivo de araucárias, na Praça Willie Davids. Ou ainda das pedras escuras assentes em diagonal que revestiam os passeios no centro da cidade até o início dos anos 80. Foram retiradas ou cobertas de cimento sob a alegação de serem inapropriadas ao barro vermelho.
O antropólogo Levi Strauss em visita a cidades brasileiras, no final dos anos 30, já comentava que o passar dos anos aqui parecia ser considerado não uma promoção como na Europa, mas sim uma decadência. Ouve-se agora um zunzum sobre a substituição do petit pavê em algumas cidades paranaenses, inclusive em Londrina. O piso inicialmente introduzido no Rio de Janeiro, no século XIX, por calceteiros portugueses, portanto de longa tradição, de repente é considerado inadequado, de difícil manutenção e de alto custo. Enfim, obsoleto.
Durável, se feita a manutenção contínua e adequada, seu custo dilui-se nas dezenas e centenas de anos de uso possível. Pouco racional e custoso parece ser a substituição do piso de ruas da cidade a cada 20 anos.
Uma pesquisa realizada em Londrina para o Guia de Paisagens Históricas (Promic 2006) indica a importância do piso na percepção de atmosferas e identidade dos lugares. O petit pavê em motivos geométricos faz parte indissociável da paisagem do Calçadão de Londrina, portanto deveria ser preservado na íntegra e urgentemente recuperado.
Lembro que o Calçadão da Avenida Paraná (1977) é contemporâneo ao Calçadão de Copacabana. Este último, projeto de Burle Marx, em petit pavê com conhecido desenho de ondas. Não se pensa na substituição do piso do Calçadão de Copacabana, uma de suas marcas principais. Tampouco ouvimos falar na retirada dos históricos e irregulares pisos pé-de-moleque de Parati, do paralelepípedo em leque da Avenue de Champs Elysee em Paris ou dos blocos de pedra da Via Appia em Roma.
A pavimentação deveria passar a ser considerada como um dos componentes fundamentais na construção e preservação integrada de paisagens históricas, principalmente em cidades novas como Londrina.
HUMBERTO YAMAKI é docente do mestrado em Geografia, Meio Ambiente e Desenvolvimento na Universidade Estadual de Londrina
Violência e adolescência: segurança pública
Francisca Vergínio Soares
Temos presenciado em Londrina o aumento de adolescentes envolvidos com o crime. Numa dialética estranha, são vítimas e autores ao mesmo tempo porque quando não matam são executados friamente. A violência infanto-juvenil é um problema de segurança pública. O último caso em Londrina foi do adolescente R.J.S, de 16 anos, executado a tiros logo depois de ser liberado do Ciadi. A mãe disse que o filho era viciado em droga desde os sete anos e tinha sido jurado de morte por causa de dívidas com traficantes.
O crescimento da infração praticada por jovens não é um fenômeno isolado e nem específico de Londrina ou do Brasil. Em diversos países do mundo é possível verificar igual preocupação com o envolvimento de jovens com infrações. As causas apontadas sugerem uma reflexão ampla: são sociais, econômicas, culturais, políticas e psicológicas. Revelam a frágil condição da infância e da juventude no cenário mundial. É preciso considerar a complexidade que envolve o ser adolescente, agora confronte o adolescente em condição de risco ou em conflito com a lei.
Admitamos, para a situação chegar ao ponto em que chegou é porque o sistema está de mãos atadas. Os dados são estarrecedores, como nos mostra os resultados do Mapa da Violência de 2006 e outros estudos em nível de Brasil sobre a precária condição social do segmento infanto-juvenil no país. Embora no campo a violência das relações de poder, de propriedade e de sobrevivência esteja ceifando muitas vidas de crianças e jovens, é nas grandes metrópoles que as causas externas morbi-mortalidade têm se constituído no principal problema de segurança pública para a adolescência.
Deve-se atentar para os crescentes homicídios de adolescentes, tendo como vítima preferencial desse quadro de violência o jovem não-branco, pobre, sexo masculino, idade média 12-18 anos, residente nas periferias ou favelas urbanas, assassinado, geralmente, por projétil de arma de fogo e denominado marginal nos registros policiais. Ao fazer essa afirmação baseio-me não somente em dados que tenho levantado acerca do tema em Londrina, bem como, em dados empíricos de estudiosos brasileiros que têm se debruçado sobre o tema. Tem diminuído a idade dos adolescentes no mundo do crime e em Londrina empata em 24% a idade de 15 e 17 anos; 20% 16 anos; 15% 14 anos; 7% 18 anos; 6% 13 anos e 3% 12 anos, de acordo com as aproximadamente cem entrevistas realizadas com esses meninos em Londrina.
Diante deste quadro, seria possível pensar que prevenção deveria ser o norte das políticas públicas dos estados nacionais. Estas políticas não podem ser elaboradas sem levar em conta a família desses adolescentes já que em sua maioria ainda tem como referência de herói a mãe (22%) e o pai (8%). É preciso olhar mais para as famílias desses adolescentes porque enquanto aquelas também não forem alvo de medidas socioeducativas, provavelmente as acusações continuarão, como no caso da mãe que responsabilizou a promotora pela execução do filho.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente de Sociologia e Política em Londrina
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