ESPAÇO ABERTO
Fundos de vale, fundo do poço
Paulo Henrique Martinez
A valorização do patrimônio ambiental constitui, hoje em dia, um ato de responsabilidade social e de atenção ao futuro. A capacidade de tornar o patrimônio ambiental de uma comunidade em trunfo para a sua qualidade de vida ultrapassa normas técnicas e disposições legislativas, mesmo quando estas contêm vácuos. Um bom exemplo reside na polêmica em torno da construção da cancha de bocha às margens do Lago Igapó.
Em casos como este é preciso fazer valer a cidadania e suas formas de realização sob o enfoque da governança. Esta é uma atitude coletiva que vai além da decisão democrática resultante da maioria obtida em votação. Teórico do liberalismo no século XIX, Stuart Mill, tinha horror à chamada ditadura da maioria, que esmagava a opinião e a vontade das minorias. Estas, derrotadas democraticamente, tinham que assistir impávidas ao sepultamento de seus interesses, necessidades e valores. Algo considerado muito pouco democrático, hoje, como no passado.
A governança consiste na capacidade da sociedade e de seus representantes estabelecerem metas e adotarem medidas nascidas do maior consenso possível. Este nunca se expressa em uma votação, qualquer que seja o seu resultado. A governança é um instrumento para a promoção do Desenvolvimento Sustentável. Ela não abole as diferenças sociais e de opinião, mas deve enfrentar o desafio de gerar o menor prejuízo coletivo possível. Esta conduta deveria ser observada na construção da cancha de bocha, simpático e aprazível jogo para reunir adeptos e simpatizantes em áreas públicas e ao ar livre. Um vetor de qualidade de vida, inclusão social, cidadania e desenvolvimento humano.
Londrina conheceu um rápido processo de ocupação e de verticalização das áreas urbanas. O caos e a falta de planejamento não podem ser premiados e expandidos com novas pressões sobre as parcas áreas verdes existentes na cidade. Entre elas, este raro patrimônio, os fundos de vale. O Conselho Municipal do Meio Ambiente, a Associação Amigos da Bocha, os órgãos ambientais do setor público e os movimentos ambientalistas, juntos, poderiam propor e reivindicar uma nova área verde, de lazer, cultura e convívio social, alargando a existência desses espaços tão valiosos e necessários em Londrina.
Seria uma iniciativa conjunta em benefício público. E os moradores merecem. Em lugar de disputas, ações de valorização e ampliação do patrimônio ambiental. Caso contrário, natureza e cidadania irão, unidas, para o fundo do poço. Uma vez mais.
PAULO HENRIQUE MARTINEZ é professor e coordenador do Laboratório de História e Meio Ambiente do Departamento de História da Unesp em Assis (SP)
Formação profissional um compromisso de fé
José Mario Angeli
Realizou-se em Brasília nos dias 5 a 8 de novembro a 1ª Conferência Nacional de Educação Profissional e Tecnológica (EPT), cujo tema foi A educação profissional como estratégia para o desenvolvimento e a inclusão social. Cinco eixos temáticos estruturam o debate: o papel da EPT na inclusão social, financiamento, institucionalização e o papel das instâncias de governo e sociedade, estratégias operacionais da ETP, ETP e a universalização da educação básica. Um dos objetivos da conferência foi o de definir políticas públicas de inclusão social orientadas pelas diretrizes da ETP, em todos os níveis e modalidades de ensino.
Essa modalidade de ensino (EPT) volta agora nas escolas com força total. O Paraná teve e tem um papel muito importante na construção desse processo. A instância de governo através da Secretaria de Estado da Educação (SEED) e do Departamento de Educação Profissional tem construído um debate muito rico através de pré-conferências, seminários, oficinas, etc., ampliando a interlocução com as instâncias da sociedade, instituições privadas, como o sistema S (Senac, Senai, Sesi) e instituições sem fins lucrativos, que se dedicam a essa tarefa, e em conjunto construindo uma integração entre o nível de Ensino Médio e da ETP. O Paraná destacou-se na Conferência Nacional e sem dúvida deverá dar um salto de qualidade nestes próximos anos. A integração da Educação Profissional e Ensino Médio vem demonstrando ser uma decisão acertada da SEED, que vem sendo assumida por outros Estados.
O contexto socioeconômico em que está inserida a EPT é, certamente, um contexto muito crítico da divisão internacional do trabalho. Isto nos coloca as seguintes perguntas: qual é o espaço da EPT frente ao mundo moderno? Qual é a base do desenvolvimento deste modelo pós-industrial?
O capitalismo contemporâneo possui uma singularidade: competição entre as empresas, concentração das empresas, esgotamento do ciclo fordista. O foco está no consumidor, aquele que possui renda e não o trabalhador que exerce tarefas na produção. Isto implica pensar se o que se quer é um país que desenvolve tecnologia ou que continua a produzir sem agregação tecnológica. Ou seja, definir se o país deverá produzir um trabalho de execução ou um trabalho de concepção. A educação deverá se filiar a um desses modelos. Portanto ela deverá ser dura, disciplinada e de longa duração e não aligeirada como propõem certos cursos profissionalizantes. Só, assim, a escola será propulsora do futuro e capaz de construir o novo, no momento em que ela fará a ponte entre o mundo do trabalho e o trabalho de concepção.
Essa é a grande responsabilidade que toca tanto ao setor público como ao privado. Lula no encerramento da Conferência chamou atenção para isto. Ele acredita na formação profissional como estratégia para que o país desenvolva-se. Daí o seu compromisso de fé mais do que um programa de formação humana e profissional. Segundo ele inteligência e conhecimento é a exportação mais adequada para vencer os entraves do desenvolvimento.
JOSÉ MARIO ANGELI é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina
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