Robinho, a retidão e o caráter!

Luiz Carlos Segura
  Não, não é o jogador do Real Madrid. O Robinho em questão é um garoto ‘‘especial’’, magrelinho, brincalhão e muito falante - apesar de não entendermos quase nada do que fala - que uma vez por semana se junta a nós, ‘‘peladeiros’’, vindo de alguma residência próxima ao campo de futebol que utilizamos em Cambé.
  Curioso que só, meio estabanado por natureza, foi ficando, ficando e se tornou uma espécie de mascote da turma. Não temos informações precisas de onde mora, seu nome verdadeiro e nem quem são seus pais. Só a certeza de vê-lo de novo na próxima semana correndo desengonçado pela grama atrás de uma bola que insiste em escapar de seus pés descalços.
  Ele passaria despercebido como tantas outras crianças ‘‘especiais’’ que aparecem nos campinhos da vida, não fosse um fato curioso que despertou-nos a atenção na última semana: com a magra mãozinha fechada ele se aproximou de mim fazendo gestos para que eu abrisse minha mão para receber o ‘‘presente’’ que ele queria dar. Meio desconfiado do conteúdo de sua mão e com os outros colegas já achando graça, abri minha mão e, para surpresa, caíram duas moedas que ele havia ganho um pouco antes de outro colega nosso.
  Insisti para ele pegá-las de volta, mas ele saiu rindo, balançando negativamente a cabeça e sumiu rua afora. Devolvi as moedas ao dono, que mais antigo no grupo e, portanto, com mais contato com Robinho, disse-me ter ouvido que ele é orientado pela mãe a não aceitar nada de ninguém, tendo ela inclusive o feito devolver um par de tênis ganho de outro colega nosso.
  Pela carência que Robinho apresenta, passamos a manter um respeito enorme a essa mãe que, a despeito das dificuldades financeiras, consegue passar para um filho ‘‘especial’’ o significado das palavras ‘‘retidão e caráter’’. Pode ser que ela faça isso apenas para protegê-lo, mas pode ser também que para ela o carinho e respeito que temos por seu filho valha mais do que qualquer objeto que possamos dar a ele .
  Num país que se acostumou a achar que a violência advém da pobreza, eis aí uma ótima oportunidade de se rever conceitos. Os muitos Robinhos, e principalmente suas mães, estão por aí para provar. Já o nosso Robinho ainda vai aprender a pedalar, algum dia!
LUIZ CARLOS SEGURA é empresário em Cambé


Happy hour e acidentes infantis

Wilton Carlos de Santana e Jaqueline Claudino Santana
  Recentemente, numa dessas casas gastronômicas de Londrina que oferecem playground infantil, tivemos a infelicidade de presenciar nossa filha despencar de um escorregador, vitimada por um empurrão de uma outra criança. Sua queda, sem dúvida, é nossa responsabilidade. Não tivéssemos permitido sua diversão nada aconteceria. Devíamos estar juntos dela, pajeando e não próximos, ainda que ela, aos três anos, saiba escorregar. Segundo a colunista da ‘‘Folha de S.Paulo’’, Claudia Colucci, pesquisa feita em 2005, pela ONG Criança Segura e a Universidade Federal de São Paulo, mostra que 78% de 2.269 crianças vítimas de acidentes em casa, na rua e na escola se machucaram com adultos por perto. Aí está: pais próximos não garantem a segurança dos filhos. É preciso intervir; prevenir. Levamo-la para o Hospital Infantil, o mais próximo de onde estávamos, e os exames de raios-X não detectaram lesões internas ou fratura. Foi um alívio.
  Mas alguns dados são alarmantes: pesquisadoras da Universidade Federal de São Paulo relatam que ‘‘[...] são comunicados anualmente, em departamentos de emergência nos Estados Unidos, cerca de 200 mil acidentes com pré-escolares e escolares, ocorridos em parques infantis. Estima-se que, a cada 2 minutos e meio, ocorra um acidente nesses locais, sendo que 35% destes são caracterizados como graves, e 3% requerem hospitalização. A cada ano, aproximadamente 20 crianças morrem vítimas desse tipo de acidente, tendo como causa primária, em 75% dos casos, a queda do brinquedo associada a lesões cerebrais. Destacam-se, ainda, como conseqüências relacionadas a esse tipo de acidente: fraturas, lacerações, contusões, deslocamentos, amputações, esmagamentos e lesões internas’’.
  E ainda mais: ‘‘[...] 88% dos acidentes em parque infantil são causados por quedas, principalmente de equipamentos destinados ao desenvolvimento da agilidade ou com obstáculos que favorecem desequilíbrio e quedas. As demais lesões são causadas por colisões, especialmente nos escorregadores e superfícies inapropriadas’’. Alertam que em aproximadamente ‘‘[...] 40% dos acidentes nesse ambiente são resultados de uma supervisão inadequada’’ e recomendam que esta deva ‘‘[...] envolver o responsável pela criança, pelo parque e órgãos fiscalizadores’’.
  Os pais não são os únicos responsáveis pelos acidentes infantis; respondem por isso os proprietários dos estabelecimentos e os órgãos que lhes permitiram colocar os brinquedos. Entretanto, a responsabilidade alheia não nos interessa. Do que nos adiantaria responsabilizar terceiros caso nossa filha tivesse contraído uma lesão grave e, ainda pior, permanente? Por isso, compartilhamos a idéia da pediatra Renata Waksman, do departamento de segurança da criança da Sociedade Brasileira de Pediatria, de que os pais devem tornar seguro o ambiente infantil. Pais desatentos, como nós o fomos, estão fadados a engrossar estatísticas preocupantes como as descritas acima. Dá para conciliar happy hour e playground infantil? Será mesmo propícia essa idéia oferecida pelas casas gastronômicas? Nossa filha, enquanto fazíamos happy hour, sob nossos olhares, a poucos metros de onde estávamos, escapou. Os seus filhos escaparão?
WILTON CARLOS DE SANTANA é professor universitário e JAQUELINE CLAUDINO SANTANA é promotora de eventos em Londrina


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