O príncipe globalizado

Servio Borges da Silva
  Nas democracias ocidentais os partidos políticos são fortes com filiados disciplinados e cumpridores das determinações estatutárias e das leis em geral, o que impõe seriedade na atividade política, permitindo as transformações sociais e todas as mudanças que a sociedade necessita. Os benefícios para toda a coletividade organizada, oriundos da atividade política sadia, exercida por políticos honestos e competentes, são evidentes e claros, evitando os privilégios odiosos, os favorecimentos indevidos e o desmazelo próprios de países atrasados e sem cultura.
  Entretanto, no Brasil, as coisas são bem diferentes. A maioria dos políticos tem costumes errados e procura dissimular as suas verdadeiras intenções, tratando quase sempre a chamada ‘‘coisa pública’’ como coisa particular e que pertence a eles próprios. A máxima de que ‘‘o político é uma ave estranha que, para galgar o poder, arrasta as asas na lama’’ aqui é verdadeira.
  Assim, o povo precisa conhecer a linguagem própria de alguns políticos daqui. Quando esse político diz: ‘‘Respeito os direitos humanos, as crianças e os velhos’’ ele quer dizer: ‘‘Vou fazer o que bem entender, sempre em meu favor, para atender os interesses da minha família e os meus cabos eleitorais, além dos meus próprios’’, sem preocupação com os destinos daqueles que o elegeram.
  As lições de Maquiavel (‘‘O Príncipe’’), foram assimiladas pelos grandes e pequenos, bem mais pequenos do que grandes políticos nacionais. Nessas lições estão o ‘‘vale tudo’’ da política sem escrúpulos, onde tudo se pode fazer e tudo vale para manter o poder conquistado. Também os ensinamentos do político Mandarino são conhecidos: ‘‘Tratar os amigos como se amanhã eles se transformassem em inimigos’’; ‘‘É melhor ter prejuízo do que fazer avançar a causa dos outros’’; ‘‘Ser agradável com cada um sem nada dizer’’; tudo isso foi incorporado ao cotidiano e ao gosto de muitos desses políticos nacionais.
  Agora, no entanto, as coisas se tornaram gigantes, tudo é mais completo, até mesmo a chamada ‘‘roubalheira organizada’’, bem como a total falta de escrúpulos, uma vez que parte da própria população não compreende o mal que a corrupção faz ao Brasil e a toda a nossa sociedade. Sabe-se que um escritório de Brasília está tentando catalogar e fiscalizar as contas do governo e o orçamento da nação, porém com grandes dificuldades, pois o boicote a essa atividade fiscalizadora é enorme e quase insuportável. Mas é preciso que o príncipe seja fiscalizado, seja ele municipal, estadual ou federal, a fim de que os orçamentos dessas entidades sejam suficientes para cobrir as necessidades de todos, caso contrário a globalização da incompetência e da corrupção será incorporada ao cenário, já caótico, da política nacional vigente.
SERVIO BORGES DA SILVA é advogado em Londrina


Sobre ortotanásia e eutanásia

Walmor Macarini
  Ortotanásia e eutanásia são palavras diferentes mas com o mesmo sentido: abreviar a vida de um doente terminal para que não padeça. Diz-se bioética o princípio regulador da responsabilidade moral dos médicos nesses casos, e aplica-se o que esse estatuto determina. Mas nem a medicina convencional e nem a bioética consideram as razões que transcendem a condição horizontal de um paciente em estado de vida denominada vegetativa.
  A fórmula simplista de desligar aparelhos para que o doente se liberte desta vida pode ter razão humanitária – e não é outra a intenção dos familiares que autorizam tal medida, quando a pessoa não pode decidir por si mesma – mas não deixa de caracterizar uma forma de homicídio, mesmo que revestida do sentimento de piedade. Porque a ciência ainda não deu sua última palavra sobre o que é um paciente irrecuperável.
  Segmentos médicos afirmam que determinado paciente não tem mais condição de retornar à vida regular, mas este é apenas um pressuposto circunscrito ao limite conhecido até aqui e não algo conclusivo. A cada dia a ciência descobre coisas novas, por isso tirar a vida de alguém antes do tempo é capitular e dar a causa como encerrada.
  E, mesmo que esgotada a questão no âmbito do entendimento médico, resta a medicina não-convencional, e acerca disto a medicina ortodoxa pouco sabe. Porque não desejou penetrar nessa câmara e nem espionar pela sua porta de entrada.
  Eventualmente o doente terminal pode desejar dizer alguma coisa antes de morrer – pois ele pode ter um lampejo de despertar – e essa chance pode estar sendo tirada dele se lhe subtraírem a vida. Por mais que a medicina afirme que a volta à razão de um paciente nessa condição é impossível, coisas inesperadas às vezes acontecem.
  O espírito do ser pode não haver concluído sua missão no corpo físico e não deseja que a indumentária de que se vale seja inutilizada sem o seu consentimento. Como o médico não pode fazer essa pergunta ao espírito, melhor é deixar a vida fluir, mesmo que em condição adversa.
  Sabe-se que tudo isto soa ridículo aos ouvidos da medicina tradicional, embora a existência cada vez maior de médicos com entendimento mais expandido acerca dessas coisas. Se o cordão vital que liga o corpo físico ao suprafísico ainda não se rompeu e o espírito mantém viva a estrutura carnal (ou a matéria se decomporia) é porque o desenlace ainda não ocorreu.
  O ser essencial do indivíduo pode ter desejado essa provação extrema, então não se deve pensar apenas o corpo sem pensar-se no seu componente multidimensional, que (também) vive a experienciação terrena. A medicina daria saltos ainda mais surpreendentes se seus cursos começassem a incursionar por esse campo.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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