Religião e modernidade

Dom Orlando Brandes
  A modernidade ou o mundo moderno em que vivemos privilegia a liberdade, a felicidade, a racionalidade. É um mundo condicionado pela urbanização, tecnologia, consumismo, democracia, poder econômico e consciência da subjetividade da pessoa humana. O deus da modernidade é o mercado, cujos templos são os bancos, os shoppings, os motéis, com suas romarias de adoradores e devotos. O poder do mercado relegou a religião para a esfera do intimismo e privacidade. O mercado destronou Deus e usurpou o domingo, dia do Senhor.
  Esta mesma modernidade criou certos vírus que estão contagiando a humanidade: poluição da natureza, desemprego, êxodo rural, inchaço das cidades, exclusão dos pobres, violência, aids, câncer, estresse, drogas, alcoolismo, neurose. Aumentou a insegurança e o medo. Esta insatisfação, unida à queda dos valores e ao vazio existencial, forçou a volta da religião, do misticismo, a chamada ‘‘volta do sagrado’’. O mercado provocou a volta da religião. É a pós-modernidade. Hoje, as pessoas querem Deus, mas não querem a Igreja, nem a vontade de Deus.
  Querem, sim, que Deus, a religião preencham seus vazios, carências e necessidades.
  O esoterismo promete sorte e segurança. Seu deus é a razão, o conhecimento do destino das pessoas determinado pelo seus gurus iluminados. A Nova Era promove um mundo diferente, civilizado e pacífico sob a direção dos astros. O pentecostalismo sobressai pela cura das doenças e libertação dos vícios. O espiritismo traz as consolações do além e a macumba invoca sorte para alguns e faz feitiço para outros. As religiões orientais estimulam paz, harmonia, relax e satisfação. Eis o mercado religioso, verdadeira inversão do cristianismo, porque todas estas religiosidades ou ajustam Jesus ao seu gosto, ou são anticristãs, porque não promovem conversão das pessoas, a vivência comunitária, a libertação social.
  A grande diferença entre religião e fé, religião e Igreja, religião e cristianismo é: religiões são intimistas, tranqüilizadoras, terapêuticas, satisfazem o ego. O cristianismo é seguimento de Cristo, é mudança de vida, é engajamento eclesial, é transformação social, é libertação política, econômica, cultural e social.
  Alguém já escreveu que as religiões são ‘‘inimigas do cristianismo’’. Os poderes da antiga Roma chamavam os cristãos de ateus porque não adoravam a Nero. Hoje, corremos o risco de ter religiões atéias, porque em nome de Deus, abafam Cristo e seu evangelho e fazem da religiosidade um jogo de marketing. São as religiões mercantilistas: ‘‘Fizestes da minha casa de oração, um covil de ladrões (Mc 11,17), uma casa de comércio (Jo 2,16).’’ Mercado e religião produzem pano para muita manga.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina



Eleições e independência da OAB

Renê Ariel Dotti
  Uma das garantias fundamentais de nossa profissão é a independência necessária para cumprir um dos primeiros artigos do estatuto: ‘‘No seu ministério privado, o advogado presta serviço público e exerce função social’’ (Lei nº 8.906/94). O mandato para a defesa dos direitos e interesses do cliente é um instrumento que deve ser utilizado em obediência às normas deontológicas. E uma delas, essencial aliás, é a liberdade funcional. Além de destemor, honestidade, decoro, veracidade, lealdade, dignidade e boa-fé, o advogado deve preservar, em sua conduta, a independência. Esses pressupostos estão expressamente declarados no Código de Ética e Disciplina da OAB.
  Tais reflexões surgem com a nota do Colégio de Presidentes da OAB que ‘‘adverte para o perigo da partidarização e ideologização do pleito’’ tendo em vista o processo sucessório nas seccionais de todo o país. O documento enfatiza que a ‘‘Casa do Advogado é instituição plural e apartidária, voltada para a cidadania, da República e do Estado Democrático de Direito. Nossa força moral, como instituição, deriva exatamente dessa isenção partidária, historicamente observada’’.
  Em manifesto da Chapa XI de Agosto, o atual presidente e candidato ao cargo de Conselho Federal, Manoel Antonio de Oliveira Franco, acentua: ‘‘A OAB não pode estar a serviço de quaisquer interesses que não os dos advogados. Não pode servir de palanque a partidos políticos ou a facções espúrias’’.
  Dirijo-me, com entusiasmo e esperança, aos colegas mais jovens. Não aceitem qualquer ingerência, explícita ou implícita, de facções ou grupos ideológicos e acima do varejo das disputas partidárias. Como enfatiza a nota do Colégio de Presidentes, ‘‘nossa ideologia é o cidadão e nosso compromisso é com a Pátria e a integridade das instituições republicanas (...). Os temas pertinentes às campanhas eleitorais da OAB são aqueles que envolvem as causas da advocacia e da cidadania brasileiras’’.
  Tendo exercido, durante muitos anos, o honroso mandato de conselheiro da OAB-PR,
sinto-me à vontade para transmitir essas observações e recomendações aos causídicos iniciantes.
  E pedir-lhes, respeitosamente, que defendam o princípio da independência junto aos colegas de sua geração.
RENÉ ARIEL DOTTI é advogado e professor universitário em Curitiba


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