As duas faces do talento brasileiro
Jessica Kindlein

Se tem uma coisa que o brasileiro tem é talento. Talentos diversos, dentre eles, talento para o samba, para o futebol, para o vôlei... Tem jeitinho de dar jeitinho em tudo, pacificamente é claro. Tudo ao seu tempo. Se o salário não aumenta, as contas atrasam. É fácil, faz um empréstimo em 30 vezes sem juros para dar conta dos impostos e das contas do mês ou então faz um ''gato'' no registro do relógio da energia, ou um truquezinho para ficar isento do Imposto de Renda. O que importa? Não é crime, quem pode culpar? Pronuncie a primeira palavra quem nunca usou talento para ajeitar a vida.
De fato, a culpa de todos os problemas que temos é dos políticos porque ganham muito mais que qualquer operário poderia sonhar. Nem vivendo cem anos um operário ganharia o salário exorbitante de um político (é claro que operário não tem essa perspectiva de viver cem anos, a menos que seja supersticioso e acredite no ditado de que vaso ruim não quebra).
E como poderia esquecer do MST, aqueles loucos primitivos armados e desocupados que importunam a suposta paz que reina no Brasil. Você pensa isso? Mais um estereótipo disfarçado de verdade absoluta ao qual ninguém ousa questionar. Porque, neste país, os problemas não existem ou pelo menos não aparecem, pois estávamos em época de Copa. E você não vai querer perturbar o clima otimista do talento brasileiro que estava no ar, não é? Quem ia querer interromper a vibração? Ir contra a corrente? Por quê? ''Tá lento'' demais pra isso... Pelo menos aqui não tem guerra. É que o Brasil é o país do futuro. No futuro, tudo vai dar certo.
Porque brasileiro aceita a corrupção de cabeça baixa. Quando chega a eleição vota nos mesmos políticos cínicos. Onde estão nossos ideais e valores? Temos hospitalidade, gingado e molejo, e no fundo bom coração. Acreditamos que no fundo todos têm bom coração tal qual a nós mesmos. Olhamos aquele homem que parece desafortunado na TV, este que há um ano era a razão dos seus problemas, hoje se parece tanto com você, quase um irmão querido, porque não dar uma ajudinha de talento a ele? Ele é o político!
Mas você vai continuar esse círculo vicioso que ninguém tem intuito de pôr fim. Porque ser mais que apenas brasileiro conformado ou desapontado, é difícil. Essa é a cara do Brasil hoje. A face que mostra a falta de ética e impunidade. E quem luta pelos seus direitos é malvisto. O que se promete, ninguém lembra quem prometeu. E o que foi escondido no fim ninguém escondeu. Porque aqui tudo vira pizza. E ao menos, espero eu, que essa prosa não tenha sido tempo perdido, já dizia Renato Russo. Meu mais ambicioso desejo é que você ainda seja jovem para poder enxergar um novo horizonte. Ter talento é pouco, ter discernimento é bom, mas ter inteligência é ótimo.
JESSICA KINDLEIN é estudante do Ensino Médio do Colégio Canadá em Londrina

A maior conquista
Osano Marques Trindade

A liberdade de pensar deve ser considerada a maior conquista e riqueza de uma sociedade. A escravidão do pensamento mina todas as forças que contribuem para o crescimento de um povo. Somos escravos de ideologias e pensamentos de uma minoria. Esta determina o que devemos comer, vestir, ouvir, assistir, entre outras atividades do cotidiano. Tornamo-nos submissos e vivemos a era do ''consumismo desenfreado''.
A mídia oferece ''idéias prontas'', retirando sutilmente o direito e gosto de pensar da maioria. Os meios avançados de comunicação são imprescindíveis no processo de conscientização e deveriam servir como alicerce para a construção do pensamento crítico. Contudo, tais objetivos estão esquecidos e enterrados por uma geração que valoriza mais os bens do que o próprio ser humano. Alguns têm denominado tal condição de ''capitalismo selvagem'' - a supervalorização daquilo que o homem possui e não daquilo que ele é ou pode vir a ser. A senzala é a nossa própria casa e a televisão é o nosso grande ''feitor'' - aquela que dita as regras da vida e fecha nossos olhos diante da dura e cruel realidade, apresentando um quadro ilusório e muito distante daquilo que vivenciamos no dia-a-dia.
Pensamento crítico, busca da razão dos fatos e conscientização são sinônimos de poder que, por sua vez, é sinônimo de liberdade. Eis o motivo que tem levado alguns a cercear o pensamento do povo. As emissoras de TV manipulam a mente da grande massa. O desejo de lucrar sobrepuja todo e qualquer interesse de educar e informar. Não interessa ao governo investir no processo educativo, porque tal investimento deverá repercutir no seu próprio fracasso. A educação liberta. Ela quebra as correntes da alienação e do conformismo, possibilitando ao homem o direito de pensar sem intermediários e enxergar novos horizontes que vão além da realidade aparente.
Possibilitar a um povo uma educação sem barreiras para o conhecimento e imparcial é o mesmo que libertar pássaros engaiolados. Somos um país de mais de 500 anos. No entanto, a maioria vive como escravos. Livres da escravidão física, com algumas exceções, mas escravos de uma mídia que furta o direito de escolha. A falta de opção legitima tal escravatura e revela a maneira covarde de subjugar um povo, impondo-lhe conceitos éticos e morais. Não obstante, alegra o fato de alguns possuírem consciência desta realidade. São livres para escolher aquilo que julgam ser melhor, dentro dos seus próprios padrões morais. Compreendem perfeitamente que o poder de alguns reflete a submissão de muitos. Descobriram que essa é a maior riqueza que o ser humano pode conquistar: a liberdade de pensar e escolher, concedida por Deus.
OSANO MARQUES TRINDADE é bibliotecário da Faculdade Adventista Paranaense em Ivatuba (PR)

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