ESPAÇO ABERTO
Por que voto em Alckmin
Gabriel Bertin de Almeida
Sempre votei no Lula. Desde os tempos do Collor. Hoje, porém, vou de Chuchu. Como o voto decorre de um exercício de comparação entre candidatos, vota-se no melhor ou no menos pior. Acredito que Alckmin seja o candidato mais adequado ao momento. Não tanto por suas qualidades, mas sim pelos defeitos do adversário e de seus asseclas. O ponto crucial para a decisão pelo voto em Alckmin não é meramente pragmático, posto que os candidatos têm programas muito parecidos. A decisão deve levar em conta o aspecto simbólico da reeleição de um candidato que se viu rodeado, como nunca, das mais diversas e graves acusações de corrupção. Do caso Valdomiro Diniz, assessor corrupto de José Dirceu, passando pelo mensalão, pelo caso dos sanguessugas, pela quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo, pelo dossiê contra José Serra, entre outros, vimos de tudo. Quase todos os companheiros mais próximos de Lula de algum modo estão vinculados a ilícitos graves.
Quanto à responsabilidade de Lula, temos as seguintes possibilidades: a) ele é um idiota e nada sabe; b) ele mente descaradamente e nada fez contra os corruptos porque acha que seu projeto de poder exige medidas heterodoxas para atingir um bem maior; c) ele lidera um grupo de corruptos que visa apenas o próprio benefício. Lula defende-se dizendo ser um idiota. Afirma que não é da polícia e não tem obrigação de saber de tudo. Sabemos, porém, que não precisa ser da polícia para ter uma idéia do que acontece na sala ao lado. Além disso, a excessiva falta de conhecimento é sinal claro de inaptidão para o exercício do cargo. Quanto à terceira hipótese, não acredito que seja a melhor, embora alguns deles provavelmente estejam enriquecendo.
A hipótese mais provável, portanto, parece ser a segunda. A pretensão de grandiosidade do projeto de poder de Lula decorre de um antigo e arrogante sentimento de superioridade moral do PT. É como se a origem humilde e bem intencionada do partido fosse um aval eterno de conduta irrepreensível. Assim, no poder, a vontade de ajudar os mais necessitados justificaria o uso de mecanismos ilícitos, como a compra de deputados para a aprovação de projetos de lei. Trata-se da velha idéia de que os fins justificam os meios. Tolera-se a imoralidade dos meios se o fim pretendido for algo grandioso. Ocorre, porém, que não se pode admitir a moralidade do ato ilícito enquanto meio, e muito menos uma esfera de amoralidade, isto é, de suspensão dos juízos morais. Os atos são sempre morais ou imorais, lícitos ou ilícitos. Não se pode permitir a prática de crimes para manter a chamada governabilidade ou para dar sustentação a um projeto de poder. Quem faz isso deve ser punido.
O jogo político tem regras mínimas. Não praticar crimes é a principal delas. A capacidade de viver conforme essas regras é sinal básico de civilidade. Por isso, mesmo não morrendo de amores por Alckmin, voto nele hoje. A vitória de Lula celebra a falta de civilidade.
GABRIEL BERTIN DE ALMEIDA é advogado, mestre e doutorando pela USP e professor da PUC Londrina
Porque voto no Lula
César Bessa
Existe um pensamento dominante que quer nos fazer crer que não devemos crer: que nossas instituições (principalmente Executivo e Legislativo) estão podres e só o individualismo motivado pelo poder econômico é a porta da esperança. Isto é, não devemos crer na política. Reclamo do governo Lula a reforma política que deveria ter sido feita, mas que espero que ainda ocorra. Não sou ingênuo em achar que, pelo fato de ser presidente, tudo se torna possível, pois numa república democrática as modificações serão pelas leis e o Legislativo não é uma unanimidade desinteressada, mas uma convergência de representações da sociedade.
A memória, neste embate eleitoral, é o grande instrumento de combate à invisibilidade da demagogia. A Constituição, que garante a democracia e o desenvolvimento da igualdade e da justiça, completou este mês 18 anos de idade. Na Assembléia Constituinte que a elaborou estavam os atuais candidatos à Presidência da República. Lula defendeu os interresses soberanos da nacionalização do subsolo para que a pesquisa e a lavra de recursos minerais, potenciais de energia hidráulica fossem patrimônio da União e explorados pelas empresas públicas; Alckmin votou contra. Lula defendeu recomendações da OIT, como jornada de 40h para os trabalhadores; Alckmin votou contra.
Outras comparações são necessárias. O Governo FHC foi campeão de escândalos invisíveis, como o caso SIVAM, bancos Econômico, Marka e FonteCindam, emenda da reeleição, privatização da Telebras, falcatruas da SUDAM, privatização da Vale do Rio Doce a preço irrisório, etc. No Governo do FHC, os escândalos geraram 626 inquéritos, dos quais 242 foram engavetados, 217 arquivados. E dos 194 deputados, 33 senadores e 11 ministros envolvidos e acusados, nada foi apurado, ninguém foi punido. Nunca foi explicado onde foi parar todo o dinheiro da privataria. Quem disputa a eleição é o Alckmin e não o FHC! Pois bem, dos 69 pedidos de CPI contra o seu governo em São Paulo, nenhum só foi investigado! O que acontece? Eles giram o anel do poder e tudo fica invisível.
No Governo Lula também houve escândalos. Mas não faltou e não vem faltando empenho nas apurações. São 1.234 pessoas presas, sendo 819 políticos, empresários, juízes, policiais, servidores públicos; a Controladoria da União promoveu 6 mil auditorias em órgãos federais. Qual a diferença? Uns governam no apagão, outros com as luzes acesas. Um Brasil justo é um Brasil visível. Por isso e outras motivações, voto no Lula. Principalmente, porque combato o pensamento da desesperança e de todas as idéias dominadoras que convergem para a persistência da ganância e da fartura na miséria.
CÉSAR BESSA é advogado e professor de Direito na Universidade Estadual de Londrin e na PUC Londrina





