ESPAÇO ABERTO
Cérebros massificados
Dom Orlando Brandes
Muito já se escreveu sobre a massificação no sentido que somos programados, doutrinados e robotizados pela sociedade que nos controla. Vivemos uma era de doutrinação e imposição de comidas, bebidas, roupas, lazer, etc. A sociedade nos controla para sermos produtivos e consumidores. Não decidimos o que queremos e desejamos, somos programados pelo computador do consumismo: dinheiro, poder, sucesso, lucro, aprovação, autopromoção, etc., são exigências do computador social introjetado em nossos cérebros. Somos escravos dos esquemas sociais: casa, automóvel, praia, velocidade, sexo, satisfação e prazer a todo custo. Somos pensados pela ideologia, pensamos idéias pré-concebidas pelos interesses do mercado. Somos treinados a confiar em falsas crenças, pressionados a consumir, obrigados a gostar de certas coisas e a desgostar de outras. Somos impelidos a competir, comparar, manipular, censurar. É preciso dançar conforme a música do mercado consumista. O que conta é a aparência, o sucesso, o lucro, não os valores.
Há uma estrutura pré-fabricada dentro de nossos cérebros que nos obriga a obedecer à programação, a satisfazer a ordem da pressão social. Somos pressionados a acreditar que não podemos ser felizes sem possuir as coisas prescritas pelo computador da massificação social e cerebral. A ordem é satisfazer a todos os desejos. A sociedade canoniza aqueles que se amoldam e se conformam aos seus interesses. Os outros são excluídos ou tidos por manezinhos, cafonas, anacrônicos, estranhos, complexados.
Toda programação e condicionamento nos transformam em robôs, somos vítimas de nossa própria programação, aceitamos como verdade coisas que são pensadas e pré-fabricadas pelos mestres do consumismo. Pensamos idéias pré-concebidas, esquematizadas e impostas pelas ideologias do poder econômico, somos regidos por conveniências e não por convicções pessoais. É a triste realidade do cérebro massificado, condicionado por falsas crenças. Somos escravos da programação social, vivemos iludidos, pior ainda, fechamos o coração para os valores, amamos as ilusões e procuramos a falsidade. Eis aí a origem de muitos sofrimentos, sentimentos negativos e convencionalismos.
É preciso acordar, desprogramar-se, conscientizar-se. Buscar iluminação interior para não confundir sonho com realidade. Abrir os olhos, despertar e reagir para não sermos fotocópias, robôs, escravos, cérebros massificados. Só quem segue o caminho dos profetas tem coragem de ser pioneiro, reagir, ser diferente. Profecia, consciência e mística nos salvarão, reconquistando a ética, os valores, a liberdade. Mais do que nunca é oportuno o convite de Jesus à conversão, para sermos livres de todo apego, programação e individualismo. Enfim, fazermos a experiência da felicidade e da liberdade.
Nosso voto corre o risco de ser manipulado, cabresteado, imposto. Não podemos votar livremente quando somos conduzidos pelas pesquisas eleitorais, promessas, imposições de patrões, de religiões, pressões de terceiros. O voto ético é consciente, livre, secreto. As eleições mudam alguns quadros, mas sem educação política, não mudaremos a realidade. Os políticos olham as próximas eleições, os estadistas olham as próximas gerações. O estadista quer o bem do povo. O político quer seu bem pessoal, sua vantagem. As eleições nos estimulam a pensar na reforma política e principalmente na educação política e social do nosso povo. Sem isso, nossos cérebros massificados reproduzirão votos massificados. É hora de mudar!
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Legitimando a mentira
Gerson Araújo
A mentira se torna verdade quando acreditamos nela. Ela é avalizada por quem a ouve. E, pelo que nos consta, faz bem para muita gente, mas muita gente mesmo, transformar a mentira em verdade.
No relacionamento eleitor/candidato há uma tremenda contradição. Exige-se que o candidato apresente propostas, diga o que vai fazer, de onde vai retirar os recursos e, ao mesmo tempo, ninguém admite acreditar que qualquer candidato está dizendo a verdade. Mas, mesmo assim, os candidatos recebem os votos. Por que? Porque eles dizem exatamente o que muita gente quer ouvir, mesmo que estes tenham consciência de que estão sendo enganados.
Estamos vivendo hoje esta terrível realidade. Mesmo que se possa admitir a existência de problemas semelhantes em outras épocas, o quadro atual é muito claro e muito evidente, com provas contundentes e com fatos que não admitem dúvidas da culpabilidade de grupos e de pessoas cujos nomes, fotos e identidades foram escancarados pelas autoridades e pelos meios de comunicação. No entanto, tem-se a impressão de que o povo não está acreditando que isto seja verdade ou está entendendo estas coisas como naturais.
Por acreditar na mentira está legitimando a corrupção. E este é o mais grave de todos os problemas, pois, com isto, permitirá a permanência no governo daqueles que roubaram, deixaram roubar e vão continuar roubando, já que lhes foi dado legitimidade através do voto.
Portanto, somos nós os responsáveis pela continuação deste estado de coisas ou pela erradicação deste câncer que não permite que o nosso povo tenha uma melhor qualidade de vida.
Ou o Brasil acaba com a corrupção ou a corrupção acaba com o Brasil. Estamos recebendo de bandeja esta possibilidade pois os corruptos se expuseram tanto que se sabe exatamente quem são e quem os comanda.
Está nas mãos daqueles que são capazes de se indignar, mesmo que esta indignação os obrigue a voltar atrás, dar o braço a torcer, e dar partida a um grande recomeço.
GERSON ARAÚJO é capelão do Hospital Evangélico e pastor da 3ª Igreja Presbiteriana Independente de Londrina
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