A opção pelo menos pior

Antonio Carlos Jannini Bartholomei
  Você imagina o peso da palavra caráter? E da palavra mentiroso? Roubo, quadrilha, estas foram algumas das palavras proferidas pelos candidatos a presidente da República quando iniciaram a troca de acusações desde o primeiro debate ocorrido na TV Bandeirantes no último dia 8. É a banalização da ética, da moral e dos bons costumes. ‘‘Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.’’
  É fato que um dos dois será eleito presidente da República no próximo domingo. Do mesmo jeito que já não imaginamos mais o peso das palavras pejorativas por eles citadas. Já estamos acostumados, não assimilamos seu real significado, não sabemos também a importância do cargo de presidente do Brasil e, no lugar de um progresso intelectual da população, acabamos sempre elegendo o menos pior.
  Terrível mesmo é o dia seguinte aos vários debates: colegas opinando, dizendo que o candidato do PT – Lula – saiu-se muito bem nas defesas que fez. Contra a razão não há argumento, não é uma ou duas denúncias infundadas. São dezenas de denúncias de roubo e corrupção, muitos ministros e deputados caíram, dinheiro sem origem, ONGs (verifique a ONG Amigos do Planeta Plutão e tenha uma surpresa, etc.).
  Não que o outro candidato – Geraldo Alckmin (PSDB) – tenha se sobressaído. Muito pelo contrário, ele representa um retrocesso na administração do país, voltaremos à ‘‘era FHC’’, onde a corrupção era a mesma, só que com chefes de quadrilhas e ladrões diferentes: eles não deixavam vazar para a imprensa, faziam acerto entre os partidos e tudo ficava em casa.
  Não estamos progredindo, estamos regredindo a cada dia. Entra fulano monta sua quadrilha rouba quatro anos, se reeleito mais oito anos; depois entra outro prometendo mudanças radicais e soluções para tudo e para todos, trai os ideais de seu partido (na verdade, foram por bravatas sobre os ideais do partido que ele conseguiu se eleger presidente), também monta sua quadrilha e rouba descaradamente o nosso país e ainda diz que nada sabe.
  Tudo tem um limite, um começo, meio e fim. Espero de coração, com o mesmo coração que em 2002 ajudei a ‘‘esperança vencer o medo’’ e durante estes quatro anos presenciei estarrecido o ‘‘medo devorar a esperança’’.
ANTONIO CARLOS JANNINI BARTHOLOMEI é cirurgião dentista em Santo Antônio da Platina


Do sagrado e das vontades divinas

Walmor Macarini
  É um consenso herdado da tradição religiosa que no mundo terreno e por extensão no universo existem coisas sagradas, e por exclusão as não-sagradas. O que as doutrinas consideram bom, isto é sagrado para elas; o que qualificam de impuro, isto não é. Ora, tudo o que existe é sagrado, se é que o homem precisa dar atributos às coisas, mas na verdade não é preciso fazer essa avaliação. Deus certamente não faz distinção alguma, ou teria de admitir que algo que ele criou não tem grande serventia e por isso não seja revestido de sacralidade.
  Não há lugares especialmente sagrados, porque todos os pontos da Terra o são. Ou seria qualificar uns e desqualificar outros. Lugares mais freqüentados por fiéis tendem a ser denominados de sagrados. Pode ocorrer de ali haver mais correntes vibracionais, pela presença de mais pessoas em estado de prece ou meditação. Mas nada que seja sagrado ou não-sagrado, porque tal separação não existe na natureza terrena e na natureza cósmica.
  Nem um livro específico é sagrado e outros deixam de ser, porque a obra divina manifesta-se até nas denominadas iniqüidades, e a dita palavra de Deus é manifestada de muitas formas, bastando ter sensibilidade de perceber. Se as pessoas desejam considerar sagradas certas coisas, mal não faz, mas ocorre que assim procedendo ignoram todo o conjunto da obra da Criação, que se revela de múltiplas formas. Mesmo as coisas aparentemente más têm a sua razão de ser.
  Então uma doença é também algo sagrado, porque tudo tem um sentido de evolução e purificação. Deus é o bem – costuma-se dizer. Mas o que é o bem e o que é o mal? As duas coisas são apenas palavras, com um peso de valor dado pelos homens e não pela Suprema Inteligência. Para a semente germinar ela é estraçalhada. Para o homem renascer, precisa morrer. Então, a explosão da semente e a morte são males? Melhor é as pessoas guardarem os seus julgamentos e olhar tudo com olhos mais expandidos.
  Também o temido e tão mencionado satanás é uma polaridades de Deus, porque não é um atributo dessa substância das trevas a sua própria criação. Certas igrejas dão-lhe muita validade e o utilizam para intimidar os fiéis e mantê-los atrelados. A presença da sublime Criação está em todas as coisas, desde o trilar do grilo e a bactéria que gera uma moléstia até a magnitude das galáxias. Deus não está apenas no que denominamos bem mas também no que convencionou-se chamar de mal.
  Não cabe, portanto, a pergunta de ‘‘onde estava Deus nessa hora’’, relacionada com algo rotulado pela avaliação humana como um mal. Porque a resposta é simples: Deus estava lá. Porque todos os atos têm a presença e a anuência de Deus – e cada qual que o conceba como o desejar. Em tudo, neste plano tridimensional, prevalece a permissividade do livre-arbítrio do homem. O que é a vontade do homem é a vontade de Deus, porque a vontade dele é que o homem exerça suas próprias vontades.
WALMOR MACARINI é jornalista na Folha de Londrina


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