ESPAÇO ABERTO
Trilhos que se vão...
Jonas Liasch Filho
A ferrovia permitiu o crescimento da cidade, desde que foi inaugurada em 1935. Londrina cresceu ao redor do pátio ferroviário, mas o transporte sobre trilhos entrou em decadência, os trilhos do progresso separaram a cidade em uma Londrina rica e outra pobre e, por fim, os trilhos foram removidos do centro. A estação virou museu e os armazéns sobreviventes viraram desde mocós até boates da moda.
Um único vestígio da antiga linha férrea que trouxe os primeiros pioneiros restava no centro: o ramal que acessava à Indústria Coinbra, no Marco Zero da cidade. Já foi a linha-tronco, mas ultimamente estava em estado de abandono, com mato crescido, dormentes podres e trilhos enferrujados. Com a desativação das instalações da Coinbra, o Marco Zero deve se tornar um ponto nobre da cidade. Mas os trilhos, os mesmos que trouxeram o progresso a Londrina e escoavam a safra de café, estão desaparecendo, silenciosamente, trilho a trilho, dormente a dormente, levando junto a história da cidade.
Londrina quase não tem memória. As antigas casas de madeira estão virando móveis caros que enfeitam as ricas casas dos condomínios da Gleba Palhano. Por que não preservar esse pequeno trecho da via férrea e construir ali, no Marco Zero, uma réplica da antiga estação ferroviária de Londrina, de madeira? O trecho poderia ser percorrido, futuramente, por um trem turístico. Afinal, temos na cidade alguns carros ferroviários de passageiros e duas locomotivas a vapor, praticamente abandonados, que poderiam ser restaurados e colocados em funcionamento. Virariam atração turística, em uma cidade que não tem praticamente atrações turísticas. O Marco Zero, hoje esquecido, se tornaria um local atraente que não deixaria morrer o passado da cidade.
Um exemplo interessante de preservação da história dos trens que, um dia, levaram o progresso às mais remotas regiões do país, está na cidade de Jaguariúna (SP). A principal atração turística da cidade é a ferrovia Campinas-Jaguariúna, servida por trens antigos restaurados, pertencentes à Associação Brasileira de Preservação Ferroviária. A ferrovia é tão importante naquela cidade que a prefeitura construiu um viaduto, em concreto armado, para restabelecer a ligação da linha com a antiga estação, que tinha perdido os trilhos com a construção de uma avenida.
Aqui, uma imponente locomotiva a vapor deteriora-se em um galpão na Universidade Estadual de Londrina, outra, menor, está à mercê dos vândalos no centro e dois raros carros de passageiros de madeira apodrecem lentamente no pátio do Museu Histórico. A melhor preservação para esse material seria conseguida se ele estivesse funcionando. O dinheiro para a restauração pode ser conseguido com empresas, que poderiam se ressarcir com incentivos fiscais do governo. Falta só vontade política. Os trilhos que trouxeram nossos pais, avós e bisavós a Londrina estão desaparecendo. Em muito pouco tempo só restarão lembranças do tempo em que a chegada do trem à estação era uma festa. Salvem nossos trilhos!
JONAS LIASCH FILHO é professor de técnicas de Aviação no curso de Ciências Aeronáuticas na Universidade Norte do Paraná (Unopar) em Londrina
Lula e Alckmin vão privatizar
Luís Gustavo Packer Hintz e Fábio Chagas Theophilo
Talvez não a Caixa, o Banco do Brasil ou a Petrobras. Lula não pode falar sobre privatizações do adversário. Talvez ele não saiba, mas a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) possui edital pronto para privatizar (conceder) novas rodovias no Brasil, aguardando apenas o desfecho das eleições. O Brasil ganhará, pelo menos, mais 40 novos pedágios em lotes no Brasil-Sul, em rodovias como a BR-381 entre Belo Horizonte e São Paulo (Fernão Dias), que contará com 8 pedágios, a BR-116 entre São Paulo - Curitiba (Régis Bittencourt), a BR-101 entre Curitiba e Florianópolis, para citar algumas.
Os sete lotes totalizam 2.600,8 km de rodovias federais. Ao longo dos 25 anos de concessão previstos no edital, estima-se uma receita bruta da ordem de R$ 86,3 bilhões, suficientes para se duplicar os 57.933,1 km da malha rodoviária federal em sua totalidade, ou seja, adicionar faixas adicionais nos dois sentidos de todas as rodovias que compõem o sistema federal. Os empreiteiros estão em festa, é claro, pois o modelo brasileiro de concessões privilegia poucos e onera o povo, sendo, certamente, o maior programa de transferência e concentração de renda do mundo.
Alckmin e Covas, por sua vez, aumentaram de 28 para 137 as praças de pedágio durante os governos tucanos em São Paulo. Aquele, traz em seu Programa de governo: Descentralizar a manutenção e a conservação da infra-estrutura de transportes, ficando o governo federal concentrado nos programas e ações de caráter estratégico, para consolidar os Eixos de Desenvolvimento, por meio do transporte. Ou seja, mais pedágios.
Ora, o Estado necessita assumir o seu papel, até porque arrecada cerca de R$ 7,5 bilhões por ano só com a CIDE sobre os combustíveis que pagamos
(mais de R$ 0,40 por litro de gasolina), sem contar o IPVA e outros tributos incidentes no setor de transportes. A tributação total somente sobre o óleo diesel já atingiu os R$ 15,5 bilhões por ano (ou cerca de 26,2% de tributos sobre cada litro de diesel). Somente a CIDE sobre o óleo diesel, produto imprescindível para o desenvolvimento da nação, remete R$ 2,5 bilhões para os cofres públicos todos os anos.
O discurso fácil e demagógico de ambos, de que não vão privatizar, não condiz com a realidade e encobre essa imoral proposição - de que a única solução para nossas estradas são mais e mais pedágios, quando os impostos são mais que suficientes para mantê-las e conservá-las. Um recado para ambos os candidatos. A sociedade brasileira não vai tolerar e aceitar, em hipótese alguma, mais esse ônus e a
privataria de mais rodovias públicas aos mesmos megaempreiteiros, que já administram boa parte da malha rodoviária deste pobre país, e que ostenta, com os 321 pedágios existentes (dados do IPEA), a condição de recordista mundial de pedágios.
LUÍS GUSTAVO PACKER HINTZ é engenheiro civil e FÁBIO CHAGAS THEOPHILO é advogado em Londrina
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