Por um caminho

Agnaldo Kupper
  ‘‘Aquela senhora não deveria estar onde está!’’. Foi o que me veio à cabeça ao observar uma mulher de aproximadamente 60 anos distribuindo um jornaleco de candidato em um
semáforo, sempre à espera do vermelho, como se dali não lhe fosse permitido ultrapassar.
Ainda no trajeto que me é permitido, incomodou-me um pequeno carro velho transportando sobre si uma pequena caixa-de-som. Anunciava um candidato. Não sei se seu compasso lento estava relacionado ao que lhe foi concedido acelerar.
  Logo a seguir, uma garota pediu-me permissão para colar no pára-choque do carro um adesivo de candidatura. Disse-lhe não, delicadamente. Sei que o faz não por convicção política, mas pelo que a vida, neste momento, lhe permite pregar. Logo a seguir, um petista à moda antiga empunhava de dentro de um automóvel uma bandeira 13. Imediatamente, pensei: ‘‘Esta já foi minha bandeira de luta!’’, para a seguir questionar: ‘‘O que ele sabe que eu não sei?’’. Ou melhor, ‘‘O que ele não sabe que eu sei?’’.
  Trajeto rico e longo este meu! Dolorido, também. Reflexivo, idem. Faz-me questionar se a democracia já se cumpriu de fato. Faz-me questionar se a democracia se faz por intermédio de representantes ou pelo exercício do poder não alienado. Com certeza, não é justa.
  Ainda não havia chegado a meu destino. Consegui cair num buraco, destes abertos muito mais pela greve dos servidores públicos municipais do que pela ação do tempo, e que dificilmente será tapado. Ficará, pois já adotou dentro dele o fantasma do salteador do patrimônio público, que pode vir a ser novamente eleito por nossa democracia. Muito mais pela incompetência de quem poderia resolver conflitos do que pelas suas qualidades de bom administrador.
  Chego a minha casa. Acompanha-me a sensação de que não sou diferente daquela senhora, daquele motorista de carro-de-som, da garota. Afinal também vivo para comprar minha sobrevivência e dos meus. Sim, admito: posso por outros meios, adquirir a saúde, a educação, a previdência, que o Estado não me dá. No entanto, não me sinto como aquele homem que deixa sacudir uma bandeira para fora do carro. Não tenho nenhuma no momento.
AGNALDO KUPPER é professor de Sociologia e História em instituições de ensino médio, cursos pré-vestibulares e ensino superior em Londrina


A criação da UENP

Dom Fernando José Penteado
  A criação da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) se traduziu como um dos acontecimentos mais importantes já ocorridos nos últimos tempos em nossa região. Ela era esperada há mais de 30 anos e a idéia de unir as três faculdades estaduais de Jacarezinho à de Bandeirantes e à de Cornélio Procópio em uma única autarquia, respeitando, entretanto, a individualidade e característica de cada qual, representa algo valioso e bom, ao mesmo tempo que se traduz em avanço para o desenvolvimento de toda a região Norte do Paraná.
  Não dá para citar, neste espaço, os nomes das pessoas que colaboraram para a que o objetivo de criação da UENP fosse alcançado. É possível, contudo, dizer que o vetor ou elemento que induziu à concretização do sonho tão esperado foi a união das vontades do governo com a participação efetiva dos alunos, dos professores, dos funcionários de cada uma das faculdades, dos prefeitos e vereadores, da imprensa, da comunidade, enfim, de todos os que realmente desejavam que o sonho se tornasse realidade.
  O esperado se concretizou. Conseguimos, pois, a edição da lei de criação da UENP e, para organizá-la, foi preciso nomear, pro tempore, até que ocorram as regulares eleições, os dirigentes da universidade: o reitor e o vice-reitor. Fui indicado e nomeado para o primeiro cargo e o aceitei para colaborar na efetivação dessa nova universidade. Quero-a edificada sobre bons alicerces. Por outro lado, a indicação e nomeação do vice-reitor, também pro tempore, vieram da necessidade de se ter mais alguém, com conhecimentos técnicos e tempo disponível, para auxiliar na elaboração das minutas e propostas dos documentos que, após consulta à comunidade, servirão de base para o reconhecimento da UENP junto ao Conselho Estadual de Educação.
  Não devemos ter receio e nem rejeitar a indicação e nomeação do vice-reitor, quer tenha ou não ligação direta com nossa comunidade. O que importa é que tenha competência e vontade de levar a bom termo a tarefa que lhe foi confiada. Além disso, os trabalhos de elaboração do estatuto, do regimento interno, do plano de desenvolvimento institucional e do projeto pedagógico da UENP serão submetidos à análise e deliberação dos diretores e vice-diretores das cinco faculdades, ouvindo-se também os respectivos representantes dos professores e dos alunos, dos servidores, das associações dos municípios, de modo que, insisto, não há razões para preocupações.
  Portanto, como reitor da UENP, desejo transmitir a todos os membros da nossa sociedade a mensagem sincera e o apelo à colaboração para que a nossa universidade seja estruturada sobre os pilares da democracia e da transparência de todos os atos que forem praticados a seu favor. Que o Senhor da sabedoria e do discernimento nos ilumine nesse compromisso.
DOM FERNANDO JOSÉ PENTEADO é arcebispo de Jacarezinho e reitor da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP)


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