ESPAÇO ABERTO
Uma sociedade com valores invertidos
Cristiane Maria da Silva Lima
É impossível não ter um sentimento de indignação diante das eleições. Estive refletindo sobre os resultados e avaliando o que pode estar acontecendo com nossa sociedade. Por que os eleitores votam a favor da corrupção?
Quando era criança me lembro que meu pai gostava de assistir filmes de bangue-bangue, estes filmes trazem bem claro quem é o mocinho e quem é o bandido, eu e meus irmãos assistíamos e logicamente ficávamos a favor do mocinho.
Porém, na sociedade moderna em que vivemos muitas pessoas estão perdendo valores essenciais à vida. Honestidade, ética e dignidade estão se tornando qualidades em extinção.
É muito simples perceber isto, o escritor da novela da Rede Globo, Belíssima, Sílvio de Abreu, afirmou no programa do Fausto Silva, que ficou estarrecido com a opinião dos telespectadores a respeito do final que gostariam que tivessem os vilões da novela. Algo de fato surpreendente, pois a maioria gostaria que os vilões tivessem um final feliz, coisa que no passado não acontecia. Relatou ainda que, no passado, os telespectadores chegavam a confundir o personagem com o ator ou atriz e se o encontrassem na rua, devido a atrocidades que este praticava na novela, era mal vistos, algumas pessoas chegavam a agredi-los verbalmente.
Isto ocorria porque as pessoas não tinham tolerância com a maldade, a desonestidade, a injustiça, elas queriam que o bem prevalecesse sobre o mal, e que isto ficasse muito claro.
Hoje percebemos a sociedade se simpatizando por pessoas que não têm comportamentos corretos e buscam justificar tais desvios de conduta.
Diante destes fatos, podemos então compreender como é possível candidatos que têm seu mandato envolvido nos mais diversos escândalos e denúncias de corrupção, ainda assim possam ter um número expressivo de votos e ter o apoio do eleitor. Nossa sociedade está perdendo completamente a noção de valores, está com os valores invertidos, onde o mal se tornou bem.
Como podemos educar as crianças deste país, se agirmos desta forma? Se apoiarmos o que dizemos para elas que é errado. Que referência de conduta estas crianças terão? Se roubar é um ato ilícito, é descumprir a lei, deve servir para todos, não somente para os ladrões de galinha. É com o poder do voto que cada cidadão pode dizer não à corrupção e ao roubo.
CRISTIANE MARIA DA SILVA LIMA é graduada em Administração de Empresas com habilitação em Marketing em Londrina
Voto facultativo é democracia
Rosinaldo Nunes Cardoso
Participar da escolha daqueles que devam desempenhar funções públicas é, nos estados democráticos, sem dúvida um direito da população. No Brasil, mesmo com um regime democrático o eleitor vive sob regras, gerando contrastes ideológicos contraditórios. Num país onde se pratica a democracia, o voto deveria ser facultativo. Não há dúvida de que o voto obrigatório é, aqui e ali, desvirtuado, sendo alvo de vários tipos de transações ilícitas. Dessa forma, o voto facultativo poderia trazer expectativas quanto à vontade do eleitor de ir às urnas.
Eleições e dinheiro formam uma combinação perigosa, e, como o sistema não é perfeito (muito menos os políticos), a questão que muitas democracias hoje discutem é como assegurar eleições justas e transparentes. Deve-se, então, ter convicção de que o voto é um direito e não uma obrigação ou um dever passível de punição. Porém, é perceptível que muitos eleitores não estão preparados para discernir e escolher bem os candidatos, evidenciando-se que, com o fim da obrigação de votar, uma grande parcela da população não iria às urnas. Com isso, as mais diversas conseqüências seriam suportadas por toda a comunidade.
No entanto, a maneira democrática de estabelecer as regras implica imediatamente na participação mediada, a qualidade do voto é fundamental, então deveria se estabelecer um grau mínimo de cultura que inspire confiança de que o cidadão já possui consciência para entender o valor do ato do qual vai participar.
Cabe ainda ensinar o eleitor a escolher o melhor candidato, criando-se a consciência do valor político. Nessas condições, os candidatos seriam eleitos pela diferença qualitativa e não pela sedução da melhor propaganda ou através das pesquisas de opiniões. Porém, a política, não anda muito no gosto dos brasileiros, sem falar na falta de civismo. Enquanto as grandes democracias do mundo possuem voto facultativo, aqui se prega que a obrigatoriedade do voto assegura a estabilidade democrática.
Porém, deve-se recordar que não pode haver democracia sem partido, partido sem eleitor e eleitor sem voto consciente e, com o voto facultativo, somente iria às urnas o eleitor com um grau de consciência maior, sabendo que o direito de escolha numa eleição é a arma cívica do cidadão.
Democracia portanto, não pode ser baseada apenas na boa vontade ou na gestão de interesses. É compromisso que se desdobra em responsabilidade. O voto facultativo, além de consciência, deve ter, acima de tudo, participação contínua, mesmo sendo difícil para uma sociedade massificada.
ROSINALDO NUNES CARDOSO é estudante de Administração na Unespar/Fecilcam em Campo Mourão
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