ESPAÇO ABERTO
As eleições e o novo Congresso
Osmar Serraglio
Em razão de ainda não conhecermos suficientemente a orientação política e ética que norteia a conduta de todos os deputados federais eleitos no pleito do último dia 1º, é difícil antever qual será o perfil do novo Congresso Nacional, que toma posse em fevereiro do próximo ano. Um fato, porém, é certo: embora tenha garantido a vitória de políticos da mais alta seriedade, uma boa parte do eleitorado parece ter esquecido o recado dado pelos sucessivos escândalos que atingiram a República nos últimos tempos, incluindo o mais recente deles - o vergonhoso episódio do dossiê contra o PSDB, encomendado por políticos interessados em derrotar a candidatura do prefeito José Serra ao governo de São Paulo.
É profundamente lamentável constatar que, dos 531 deputados eleitos no dia 1º, muitos deles apóiam ações escusas como as que foram desenvolvidas em São Paulo no episódio citado acima, conhecido como ''dossiêgate''. Sem querer julgar a vontade popular, a qual respeitamos profundamente, devo admitir que estou um pouco decepcionado com o momento histórico nacional. Mais do que isto: estou espantado diante da recondução de políticos com este perfil ao Congresso.
Acreditava que os fatos denunciados pelas investigações feitas em relação ao ''mensalão'' e às ''sanguessugas'' - amplamente divulgados pela imprensa - tivessem cumprido função didática e servido para garantir escolhas mais conscientes. Esperava que a CPI Mista dos Correios - da qual tive a honra de ser relator - tivesse gerado resultados mais proveitosos. Um dos grandes efeitos da CPI seria o de servir de lição para que não houvesse reincidência naquele tipo de conduta lesiva aos interesses nacionais. Lamentavelmente, não foi o que ocorreu, uma vez que, novamente, verificou-se a utilização de dólares e reais em espécie em operações ilícitas.
Tão grave quanto isto é constatar a absoluta falta de compromisso de muitas autoridades públicas com a verdade. É no mínimo muito estranho que, agora, o presidente da República e seus co-partidários não saibam (ou, novamente, digam não saber) de onde vieram os R$ 1,7 milhão (em reais e dólares) que seriam usados na compra do dossiê.
O fato é, realmente, da maior gravidade e pode atingir seriamente a própria figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já que a legislação em vigor estabelece a responsabilidade do candidato, mesmo para quem não estiver envolvido diretamente em episódios de corrupção configurados como crime eleitoral. Por essas razões, espero que esta seja a última tinta da triste página que envergonha o Congresso e o País: os escândalos que navegaram pela República, quase sem limites, nos últimos anos. Da minha parte, o eleitor pode ter a certeza de estar totalmente disposto a lutar para que o Congresso seja cada vez mais digno da grandeza do povo brasileiro.
OSMAR SERRAGLIO é deputado federal reeleito do PMDB/PR e ex-relator da CPI Mista dos Correios do Congresso Nacional
Educar para acertar
Felipe Albuquerque
As eleições, marco político em que nós (povo) temos a oportunidade de consagrar o bom líder, ou responder ao que nada fez quando imbuído do poder, se caracterizaram pela substancial regionalização dos resultados. Parece que temos dois ''Brasis'', um composto pelo Norte/Nordeste, onde Lula se configura como uma espécie de ''semideus'', um messiânico, único capaz de amenizar as dificuldades daquele povo tão sofrido, e outro formado pelas regiões mais desenvolvidas, em uma visão capitalista, que vêem em Alckmin, se não como a esperança de mudança, mas ao menos como resposta aos inúmeros escândalos petistas.
Mas por que toda esta diferença? Será que os escândalos do mensalão, mensalinho, sanguessuga, dólares na cueca, compra de dossiês e outros que se forem citados não cabem no espaço deste artigo, não tiveram divulgação no Brasil mais ao norte? Ou eles têm memória tão boa a ponto de associar os problemas da era FHC ao candidado do PSDB, considerando o presente melhor que o passado? E Lula foi tão omisso com a região Sul para rejeitarmos ele em tais proporções? Ou somos todos agricultores? Porque estes sim têm motivo para não confiar no governo petista.
É claro que todas as respostas são negativas, o que marcou a paradoxal votação foi o questão renda. Sim, a regionalização dos votos é consequência da péssima distribuição deste quesito em âmbito nacional. Enquanto os votos de Lula se concentraram na falta, os de Alckmin se fazem na fartura. E o porque disto é um só, que atende pelo nome de educação.
Um povo educado não vota em distribuidor de cesta básica porque sabe que isto ele deveria conseguir com seus rendimentos, e a educação invarivelmente aumenta a renda. Mas como educar em um país interessado em resultados a curto prazo?
Aprender é um processo lento de 15 ou 20 anos, e temos eleições a cada 4, em que sempre se visa a reeleição. Algum dia vamos eleger um político disposto a se arriscar nesta empreitada? E se sim, vamos dar tempo para ele reformar? Para desenvolver vamos precisar de um povo consciente desta dificuldade, e disposto a aprender a pescar, ao invés de ganhar o peixe pronto.
Para tudo é necessário um início, quem vota em corrupção depois não pode chorar, mudar é tentar acertar.
FELIPE AUGUSTO MAZZARIN DO LAGO ALBUQUERQUE é estudante de Direito na Universidade Estadual de Londrina
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